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Guillermo del Toro pode ter os seus problemas – e isso não se restringe apenas a ele, mas também acomete inúmeros nomes muito conhecidos e prestigiados da indústria cinematográfica. Alguns podem achar que seu ponto fraco é a criação de histórias realmente envolventes e até mesmo o retorno às mazelas da mesmice narrativa, com roteiros formulaicos e que pouco ousam dentro do quesito originalidade. Entretanto, se há um fator que definitivamente não podemos negar é a sua incrível capacidade estética e estilística dentro dos escopos fílmicos: se há alguém que consegue transparecer beleza e onirismo até mesmo dentro das histórias mais sombrias, esse alguém é, sem dúvida, Del Toro. E talvez seja em O Labirinto do Fauno, um de seus inúmeros longas falados em castelhano, que essa preocupação imagética também deu margem para a criação de uma das tramas mais emocionantes de sua carreira.

O longa tem como pano de fundo o caótico cenário pós-Guerra Civil espanhol, que trouxe como protagonistas os temidos falangistas – ou seja, adeptos ao governo fascista que se alastrou pela Europa em meados da década de 1930 e encontrou um terreno muito fértil para disseminação de seus ideais radicalistas e reacionários com a ascensão de Adolf Hitler no poder. Porém, não espere ver uma rendição de guerra aqui; não estamos trazendo à tona obras que conversem diretamente com épicos sanguinolentos como Império do Sol, O Resgate do Soldado Ryan ou Cartas de Iwo Jima. Aqui, Del Toro utiliza de toda sua sensibilidade para colocar o foco principal através dos olhos da pequena Ophelia (interpretada pela memorável Ivana Baquero). A garota chega à sua nova casa com sua mãe, que recentemente se casou com um dos líderes do governo vigente, Vidal (Sergi López), e não sabe ao certo o que esperar de seu novo estilo de vida, visto que preocupa-se com a gradativa piora do estado de saúde da matriarca e também sente-se isolada em meio a tantos “perigos”, por assim dizer.

O nome da protagonista definitivamente não é escolhido ao acaso. Ophelia vem do grego “ofídio”, que se refere às cobras, animais que não seguem caprichos do meio em que vivem e se mostram como extremamente independentes e audaciosas. Apenas com essa informação, é possível prever que a personalidade da jovem menina não se mantém aos convencionalismos de personagens similares, mas transcende e transgrede essas saídas esperadas para se mostrar muito mais madura do que lhe damos crédito: ela é uma altruísta nobre e não pensa duas vezes antes de socorrer aos outros – mas o que ela não imaginava é que a jornada na qual está prestes a entrar na verdade se transforma em uma epopeia de autoconhecimento e amadurecimento marcada pela tragédia e pelo trauma.

Enquanto sua mãe, interpretada pela doce performance de Ariadna Gil, preza pela paz e pela possibilidade de construção afetiva entre a filha e o novo marido, a criança se recusa a chamá-lo de pai. Essa subtrama é de grande importância para a delineação de seu arco, mas Ophelia não se torna refém do passado em nenhum momento; ela mantém sim sua memória viva como força-motriz que a permite compreender e discernir o que é aceitável e o que é justo. E é justamente essa mentalidade mais aberta que a leva, através também de uma visão perscrutada pelos contos de fada, para o encontro de um misterioso mundo povoado por seres sobrenaturais e que a enxergam como a princesa perdida Moanna, filha do rei do submundo, que se perdeu para os humanos após desejar conhecer sua cultura.

O encontro entre o mundo terreno e o transcendental ocorre em uma sequência tão bela quanto assustadora – cuja marca já se tornou conhecida dentro das produções de Del Toro. Doug Jones, mais uma vez utilizando todo o seu conhecimento teatral e performático, rende-se à encarnação de uma icônica figura, o Fauno, que inclusive empresta sua caracterização tão soberba quanto tenebrosa para o título do filme. Esta sequência é apenas a primeira de muitas onde a tensa atmosfera é reafirmada pela pouca iluminação, resgatada normalmente por um feixe de luz dura que emerge através de uma espécie de claraboia, e permite que a silhueta fale mais alto que a completa exposição. Em contraposição, Ophelia permanece visível em quase todo o longa-metragem, mostrando sua pureza e sua boa índole.

O jogo de luzes e sombras também permite que o público compreenda, sem a necessidade de uma exposição exacerbada, o arco ao qual ela está predestinada. Ela não se lembra de sua suposta vida como princesa, e deve se mostrar apta e merecedora o suficiente de retornar para o trono que lhe pertence por direito caso passe por três provas – uma ideia que parte direto da conhecidíssima jornada do herói. Só após ela concluir com sucesso os desafios, poderá retornar para o submundo e escapar da crueldade que adorna sua realidade. E é justamente aqui que Del Toro mais uma vez nos surpreende.

É quase automático acreditar que esse embarque inusitado sirva como escape para a traumatizante vida de Ophelia em meio a uma sociedade segregativa, uma forma de poder se afastar daquilo que rechaça com todas as forças. Mas não espere que esse novo mundo, o qual oscila entre a realidade e a loucura – talvez conversando com a complexa personalidade da garota – esteja em completa paz. Diferentemente de outras franquias fantásticas, o cineasta preza muito pela explicitação do cru e do violento; em outras palavras, ao invés de trazer os horrores da guerra como pano de fundo, todos os momentos marcantes que vemos em obras do gênero são transferidas para as cenas protagonizadas pela criança, a qual obrigatoriamente mergulha em um coming-of-age muito duro e impactante.

Tal narrativa necessariamente preza por um arquétipo do guardião – e tal figura emerge na carismática e protetora Mercedes (Maribel Verdú), apoiadora do grupo rebelde que serve tanto como mediadora quanto como ama-de-leite e enfermeira. Ela nutre um carinho muito grande pela criança, enxergando-a como a filha que nunca teve, e também emerge como um dos principais pontos que permitam seu amadurecimento, principalmente ao entrar em um arco de fuga emocionante e que traz elementos do gênero de ação e até mesmo thriller para a composição fílmica.

Mas não podemos falar de Del Toro sem ao menos citar sua preocupação artística: cada um dos cenários é pensado de forma minuciosa, resgatando elementos da mitologia celta – incluindo a constante presença de figuras circulares que representavam, dentro do escopo místico, um retorno inquebrável ao ponto de início – e até mesmo a caracterização monstruosa das criaturas sobre-humanas, como chifres pontiagudos, dentes quebrados e uma inclinação para uma envolvência inebriante. Tais escolhas imagéticas também são reforçadas pela fotografia, a qual deixa bem claro a separação entre o real e o imaginário: ainda que o terceiro ato peque no tocante à resolução, essa amálgama paradoxal permite até mesmo confundir o espectador, o qual luta para que ambos os lados da história tenham um final justo e coerente – tudo auxiliado por uma montagem paralela aplaudível.

O Labirinto do Fauno é um conto de fadas distorcido que não se rende à romantização excessiva, mas sim que exala as angústias às quais uma nova geração estava fadada a carregar à época do real significado de caos. Não nos poupando de catarses naturais e nem mesmo de sacrifícios narrativos, essa obra de Del Toro é uma de suas mais memoráveis – e mais aterrorizantes, certamente.

O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno- Espanha, 2006)

Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro
Elenco: Ivana Baquero, Sergi López, Maribel Verdú, Doug Jones, Ariadna Gil, Álex Angulo, Manolo Solo, César Vea, Roger Casamajor, Ivan Massagué
Gênero: Drama, Fantasia, Guerra
Duração: 118 min.

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