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Peter O’Toole, Omar Sharif e Christopher Lee. Essa é a razão pela qual você deveria assistir O Ladrão do Arco-Íris. Não se vira a cara quando um trio desses ocupa um mesmo filme. É a melhor obra da qual os três já participaram? Não. É a melhor performance deles? Não. Mas, ainda assim, são três colossos do cinema – na verdade, a única oportunidade que Alejandro Jodorowsky teve de dirigir três atores dessa envergadura. O fato de o resultado final não ser tão apoteótico quanto se esperaria não implica que este filme devesse ser abandonado – como seu próprio diretor o fez.

Na trama, nós conhecemos Rudolf Van Tannen (Lee), um excêntrico milionário que, após uma noite de excessos, sofre um ataque cardíaco e entra em coma. Enquanto seus familiares se debatem para saber quem irá ficar com a fortuna, o suposto favorito, seu sobrinho igualmente excêntrico Prince Meleagre (O’Tolle), decide de afastar da lúgubre disputa. No processo, acaba se tornando amigo de um pequeno ladrão chamado Dima (Sharif) e, com ele, discute os verdadeiros valores da existência, enquanto aguarda o desenlace da condição de seu tio.

Jodorowsky é um artista na acepção mais pura da palavra. Ele é incapaz de pensar objetivamente – seu trabalho é todo permeado por símbolos, cores e narrativas não-lineares. Isso tem seus prós e seus contras. Este colunista tem uma relação esquizofrênica com o diretor: acredita que, por conta de suas características inerentes e visões artísticas, os seus trabalhos nos quadrinhos são vastamente mais surpreendentes do que no cinema.

O Ladrão do Arco-Íris talvez seja o maior exemplo disso. A ele foi dada a missão de dirigir três atores que provocam reverências de cinéfilos à mera menção de seus nomes, com um roteiro que emula características dickenianas, com um orçamento razoável – sendo que, mesmo assim, o filme seria voltado primariamente ao público britânico, mais receptivo a narrativas  elaboradas e cadenciadas. É como jogar com o Barcelona, no Playstation, no nível mais fácil, contra o XV de Piracicaba. Era entrar, dirigir, pegar sua grana e ouvir os elogios.

Não para Jodorowsky. Se o pilar fundamental da arte é a expressão – alguém quer dizer alguma coisa de alguma forma –  então Jodorowsky é um artista. Mas, como dito anteriormente, isso é uma abstração que tem prós e contras. Em O Ladrão do Arco-Íris, todos aqueles que trabalharam com o diretor descobriram seus contras.

Ele sempre foi conhecido por mudar roteiros em cima da hora, por inserir símbolos e takes em suas filmagens que mesmo sua equipe era incapaz de compreender e, mais importante, por brigar com produtores e companhias que tentavam “cercear” sua criatividade. Mas é uma lógica irrefutável que qualquer grande artista, que possui uma identidade própria da qual ele não abre mão, tem que saber fazer também o básico. Quem quer esculpir sofisticadas e complexas esculturas em bronze tem que saber se virar com a argila da aulinha de educação artística.

E o que Jodorowsky demonstra em O Ladrão do Arco-Íris é que, quando lhe foi determinado – vide, determinado, não imposto, afinal, ninguém obrigou o diretor a trabalhar ali – que ele realizasse um filme com uma narrativa linear, sem a sua habitual ousadia visual e sem os excessos do seu conhecido experimentalismo – ou seja, que ele fizesse o básico como diretor, e deixasse seus atores brilharem em um roteiro relativamente comum, mas sólido – ele foi incapaz de cumprir sua missão, entregando uma obra que ainda destoa muito do cinema mainstream, mas que também não possui o impacto de um El Topo ou A Montanha Sagrada.

Esperamos ter deixado claro até aqui que o filme não é um total desperdício. Lee, O’Toole e Sharif dão ao filme um ar de legitimidade indelével – algo que nem todos as outras obras de Jodorowsky possuem – mas, sem o seu habitual controle criativo, O Ladrão do Arco-Íris parece seu filme menos “jodorowskiano”. E, para um autor que alegadamente depende da sua liberdade de expressão, isso é um problema e denuncia que o chileno poderia ser um samba de uma nota só. Esses fatores, associados às limitações impostas pelo estúdio, talvez expliquem porquê é um filme relativamente esquecido.

Isso fica muito claro quando tentamos isolar a performance do trio de protagonistas, que todos concordamos ser irrepreensível. As primeiras cenas com Lee e seu carisma magnético demonstram algum potencial do filme, com Jodorowsky trabalhando em cima de alguns de seus exageros habituais – a opulência de Rudolf é risível, ao mesmo tempo que a colorida cenografia enche os olhos. Entretanto, assim que o filme retorna às ruas, ele rapidamente degringola em um rip-off pouco inspirado e encaixotado de Fellini.

O’Toole e Sharif estão magníficos – como é de se esperar – mas eles são desesperadoramente subutilizados. Enquanto O’Toole muitas vezes permite que os excessos de Jodorowsky se transformem em um “overacting” – mascarando a mão pesada e ligeiramente perdida do diretor – Sharif cria uma figura jocosa como o seu amável ladrão, mas a ele não é dada a possibilidade de ir muito além disso, muitas vezes nos fazendo esquecer que estamos diante de um dos maiores atores da história humana. E quando nem Omar Sharif consegue sustentar plenamente seu filme, significa que você tem um problema.

Os méritos do filme – além de ter a oportunidade de ver o trio protagonista na mesma obra, mesmo que longe do seu melhor – está naquilo que Jodorowsky faz de melhor: o aspecto visual. O chileno tem um olho sublime para as cores vibrantes e as formas surrealistas, algo que fica explícito nas cenas da mansão de Rudolf e suas Rainbow Girls. Mesmo conceitualmente – a busca pelo “pote de ouro no fim do arco-íris” – evoca sua visão das cores como redentoras e libertadoras dos cismas e conservadorismo social: uma constante em seus filmes. Mas isso não exime o fato de que todo o resto do filme sofre com problemas relacionados a incapacidade de Jodorowsky fazer “apenas” o básico como diretor, em um filme que não era para ser necessariamente seu.

Talvez por esse aspecto, este colunista considere Alejandro Jodorowsky um artista mais bem-sucedido – em termos artísticos, ressalve-se – nos quadrinhos do que no cinema. O autor domina muito melhor as qualidades inefáveis da nona arte do que domina as necessidades técnicas da sétima. O cinema envolve uma dinâmica de produção objetiva que um artista que pensa de maneira quase que totalmente abstrata como Jodorowsky não consegue aceitar em sua plenitude – o que é um erro da parte dele como alguém que quer praticar cinema. Os quadrinhos são uma forma de arte cujo resultado final dependem muito mais da criatividade da equipe responsável, o que explica o sucesso dos trabalhos do chileno com Moebius, um dos poucos artistas que conseguiram capturar a genialidade das abstrações do autor e dar a elas formas e cores.

Muitos argumentarão que, se Jodorowsky tivesse o orçamento que teve para O Ladrão do Arco-Íris, com o mesmo elenco à disposição, mas sem as limitações impostas por estúdio e produtores, ele teria produzido uma obra-prima. Improvável. Seria mais fácil apostar na ideia de que o dinheiro teria sido torrado com todo tipo de maluquice, e o elenco teria sumido debaixo da megalomania do diretor. Isso não é bom nem ruim – as obras de Jodorowsky tem seus próprios méritos, e são geniais dentro dos seus próprios termos, mas não é o tamanho dos seus atores ou do seu orçamento que sustentam esse argumento, mas a conhecida influência do ego sobre a sua obra. Jodorowsky é um artista que expressa, sim; mas apenas a si mesmo. E o cinema, muito mais do que os quadrinhos, é um esforço coletivo.

Não foi dessa vez que ele encontrou o pote de ouro. Mas acho que pelo menos essa metáfora dá para entender.

O Ladrão do Arco-Íris (The Rainbow Thief, Reino Unido – 1990)

Direção: Alejandro Jodorowsky
Roteiro: Berta Dominguez D.
Elenco: Peter O’Toole, Omar Sharif, Christopher Lee, Ian Dury, Declan Mulholland, Ken Perry
Gênero: Drama/Fantasia
Duração: 87 min

 

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