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O dito ‘ápice artístico’ é um ponto culminante de classificação bem complexa na carreira de um cineasta, no caso de Luchino Visconti muitos podem dizer que esse ponto chegou em seus filmes como Rocco e seus Irmãos ou Morte em Veneza, entre tantos outros, mas quase que inevitavelmente, essa resposta sempre volta para o seu grande épico, O Leopardo. Uma obra, que, por infortúnio, não agradou muitos fora da Europa em seu tempo e nunca recebeu o seu devido valor até hoje.

A história se passa nos anos 1860 durante o Risorgimento Italiano, durante o qual a costa Siciliana está sendo invadida pelo exército Garibaldino, liderados pelo revolucionário Giuseppe Garibaldi e que prometia quebrar as estruturas da sociedade Italiana por completo naquela Era. No centro de tudo, encontramos Don Fabrizio Salina (Burt Lancaster) conhecido como o Leopardo. Um homem já velho, porém ainda charmoso, o príncipe aristocrata do reino de sua rica família, que ele teme ser dissolvido por conta da revolução que pretende unificar a Itália. Não que isso o vá afetar diretamente, ou que vá tirar seu poder de aristocrata, mas ele observa as peças desse jogo se moverem e percebe que o ideal de renovação e de unificação veio para ficar. Começando a trabalhar nos bastidores, o Príncipe então intercede pela participação do sobrinho rebelde Tancredi (Alain Delon) na revolução e providencia seu casamento com a filha de um rico burguês, Angélica (Claudia Cardinale), no intuito de manter sua casta social, mudar sem tirar as coisas do seu lugar.

O Épico Autobiográfico

Com uma obra que perpetuava temas como a insuficiência do viver em uma realidade coberta de tragédias e injustiças, ou autodestruição oriunda de intermináveis sofrimentos e erros, e retratações quase documentais sobre relacionamentos humanos de nascimento e morte; parece que fora só através das palavras de Giuseppe Tomasi di Lampedusa no seu best-seller O Leopardo, que Visconti conseguiria encontrar sua chance de poder transpor sua voz apaixonada e amargurada.

O filme que é o sumário das obsessões e pretensões de Visconti em sua obra, facilmente uma das adaptações literárias mais ambiciosas de todos os tempos, onde a história do Príncipe de Salina tornava aqui em O Leopardo a própria história de Visconti. Via sua ‘auto-decadência’ física e emocional que perpetuava em suas obras, como sendo a mesma decadência de Salina. O fim da aristocracia que Salina incorpora e personifica em sua história era uma correlação que Visconti encontrava para achar assim sua persona no Cinema, ainda que mantendo o véu da ficção. Ambos aristocratas de nascimento e consciente da chegada dos novos tempos, simbolizado na proximidade do novo século.

E Visconti sendo alguém que se considerava um homem fora do seu tempo, influenciado desde cedo por diversas formas de arte e cultura, desde pintura, óperas, e literatura. Traços que ele sempre carregou consigo e encontrou no Cinema o veículo para expressar essas suas paixões como também suas decepções de vida.

Isso também advém da forma com que Visconti busca desenvolver algumas de suas características que apareceram em sua obra-prima Sedução da Carne, embora de uma maneira diferente. Não por coincidência ambos se passam na Itália e no mesmo período do Risorgimento, quase fazendo parecer um ser a continuação indireta do outro.

O diretor até então começava a abandonar aos poucos o seu estilo documental e neorrealista e em Sedução da Carne ele mostrava começar a adotar em suas obras um tom operístico, grandioso e carregado de alta refinação artística, características que passaram a ser sua marca registrada desde então. Anos depois em O Leopardo, nota-se uma evolução e até substituição de seus traços, com a ópera dando lugar a uma espécie de valsa e o melodrama a uma dramaticidade mais contida (porém, não desprovida de romantismo). Além disso, é o início da preocupação final de Visconti: a substituição da aristocracia pela burguesia.

Demonstrando friamente como a aristocracia começara a caminhar lado a lado com o clero, como o Padre Pirroni (Romolo Valli), que perambula de cima para baixo junto de Salina como seu fiel conselheiro, sinalizando sutilmente o fim do modo de vida social da velha Europa. Ainda mais quando vemos a família de Salina à caminho do seu palácio em Donnafugata, e se hospedam em uma hospedaria em frangalhos onde habitam várias outras famílias, forçando a família inteira dividir um só quarto. Cena que Visconti captura com um silêncio contemplativo quase trágico.

Junto ainda à cenas mais evocativas como a cena em que Tancredi se despede do Tio e da casa dos Salina para ir se juntar ao exército Garibaldino. Um momento que a primeira vista pode parecer um senso de espetáculo abrupto ou até forçado na despedida tão evocativa do personagem, ainda mais um que acabara de ser introduzido no filme. Mas quando se encara sua despedida como simbólica, a juventude partindo em busca da revolução que trará as mudanças para a vida de Salina e sua família, se torna um momento realmente grandioso e fortemente dramático no filme, engrandecida ainda mais pela ilustre (e intrusiva) trilha de Nino Rota, ouso dizer talvez a melhor que já compôs.

História autoral

“É preciso que as coisas mudem de lugar para que permaneçam onde estão”

Essa frase dita logo no início por Tancredi para seu tio, denota a forma como que Visconti busca lidar na retratação histórica da época. Aliás tanto o livro quanto o filme fazem essa retração histórica do período do Risorgimento de forma surpreendente bem fidedigna.

A decadência novamente sendo a palavra chave, a decadência do sistema monárquico e de seus protagonistas, como Salina e sua família, abrindo espaço para o surgimento de uma nova classe dominante, a classe média liberal, como a nova que Tancredi adentra e cresce aos poucos ao longo do filme. Por isso a grande importância que Salina dá para o matrimônio entre ele e Angélica, mesmo que isso signifique trair e ignorar os sentimentos que mostra ter pela jovem assim que a conhece. Pois o matrimônio significa a conciliação da aristocracia falida e decadente com a burguesia enriquecida e ascendente. Tudo aquilo que Salinas deseja.

Visconti retrata essa decadência tangente ao longo de todo o filme: no desembarque poeirento nas ruas de Donnafugata, nas latrinas alocadas dentro de um recinto no salão de baile, nas adolescentes que pulam tal e qual macacas no sofás e, principalmente, no brilhante travelling que passa por todos os integrantes da família Salinas, sentados no banco da igreja. Mas também mostra essa passagem de bastão, de uma geração para a outra, simbolicamente materializada no icônico longo baile que toma quase a metade final do filme. Um palco onde nobres e burgueses coabitam o mesmo espaço, e o público presencia a união das duas classes, algo até então impensável. E Salina passeia pelos diversos salões da mansão sentindo ele e o público, a modificação no tecido social, simbolicamente mostrando a lenta conquista da burguesia em destronamento da aristocracia agora cambaleante.

 

Bela Decadência

Visconti se permitiu ser bem leal à estrutura do livro de Lampeduza, para além da captura exata sua essência claro. Cobrindo as passagens principais da primeira metade do livro de forma quase literal, com uma costura de montagem onde cada nova cena parece um novo capítulo na história. E o grande épico se constrói sem notarmos nenhum traço de cansaço ou desgaste.

Isso também se deve claro a um roteiro fantástico de Suso Cecchi D’Amico, Pasquale Festa Campanile, Enrico Medioli e Massimo Franciosa que constroem uma narrativa rica em seus detalhes minuciosos característicos de cada personagem ao longo de constantes excelentes diálogos de forte cunho dramático, mas ainda acerta em despertar a veia cômica de Visconti de sempre por diversos momentos, tanto vindo através do Padre Pirroni reagindo de forma hilária às provocações de Salina e mostrando o choque dos pontos de vista clericais e da nobreza, como quando ele ressalta que os ricos não são pessoas ruins, são apenas estranhos, como se vivessem em um mundo alheio ao dos outros. Ou se permitido ser bem ácido e cínico como quando Angélica solta uma gargalhada histérica fazendo todos no ambiente se sentirem claramente desconfortáveis.

E mesmo Visconti laçando mão de um alterego com o Príncipe Salina, ele não deixa de o retratar de forma tão rica e fantástica como no livro. Ser vivido por alguém como Burt Lancaster no auge da sua carreira ajuda muito a isso, e que faz de Salina a autoridade em pessoa. Uma mão firme e autoritária sobre sua família, mas sem nunca deixar de demonstrar carinho e compaixão para com todos, e demonstra toda uma fragilidade em seu cerne íntimo, aos poucos sendo desmembrado ao longo do filme. Um homem velho para os padrões da época, e que percebe antes de todos o contexto histórico no qual se insere sabendo que seus dias estão chegando ao fim. “Os tempos dos leopardos e dos leões vão dar lugar ao dos lobos e dos chacais” como ele diz a certa altura do filme.

Passando pelas três horas de filme, Lancaster mostra a mudança de postura de Salina. Sem perder seu poder diante dos homens e seu charme diante das mulheres, um homem que mostra carregar anos de uma vida próspera sobre seus ombros e os lembra em breves divagações cheio de orgulho, e agora sente o peso dos acontecimentos, das mudanças e lentas perdas a sua volta. Se na metade do filme Visconti o foca de baixo para cima, com fogos de artifício explodindo ao céu, no final temos a cena em que Salina se olha no espelho, que exprime todos os sentimentos do personagem através de uma solitária lágrima. O ápice da atuação de Lancaster.

Mas o restante do elenco o acompanha em grandeza. Alain Delon traz todo seu carisma e boa estampa ao papel do camaleão Tancredi. E como seu par romântico, Claudia Cardinale personifica em Angélica o perfeito animal feminino em pessoa, passando do angelical para o sensual em um mesmo plano. Com a atriz lançando mão de artifícios como passar a língua pelos lábios, um gesto quase erótico, que potencializa o lado romântico com Tancredi, e por ventura do próprio Salinas.

A cena de invasão de Palermo logo no início do filme constitui alguns dos melhores espetáculos técnicos que um épico pode conjurar para si. Os cenários enormes rico em detalhes, com uma variação de coloração abundante nos figurinos dos milhares de figurantes se movendo de um lado para o outro, realmente convencendo no caos da situação, que resultam em cada frame parecendo um quadro neoclássico da época em um fluído e vívido movimento caótico.

Mas a verdadeira grandeza do filme de Visconti se encontra nos minuciosos detalhes. Com boa parte do filme se passando em palácios majestosos e grandes casas monárquicas servindo de palco, é muito interessante observar a composição de cenário cheio de minúcias de adereços e no próprio figurino, detalhes que permitem o espectador se sentir imerso dentro daquele habitat aristocrático e pomposo, cheios de manias e extravagâncias.

Com a câmera de Visconti atravessando o cenário constantemente através de travellings, podendo perceber cada canto do cômodo onde a ação se passa. Quando a cena é em uma mesa, rodamos em torno dela e vemos as peculiaridades de cada personagem na hora da refeição, bem como os detalhes de tudo que está sendo servido. E a iluminação prioriza as velas e a luz natural, que entra pelas grandes janelas e portas de cada cômodo. É a mise-en-scène em seu melhor estado puro e artístico. E as vastas paisagens rurais da Sicília também não ficam para trás no quesito beleza, e se tornam um verdadeiro deleite visual proporcionado pela linda fotografia de Giuseppe Rotuno, que oferece panorâmicas dos campos e vales sicilianos com uma beleza verdadeiramente inestimável.

Fine di una vita

O Leopardo realmente consegue cumprir aquilo que se constrói em suas estruturas, um verdadeiro épico cinematográfico. É grandioso em sua escala técnica e de produção deslumbrante; é irresistivelmente romântico e charmoso graças ao ilustríssimo elenco reunido em cena; é carregado de uma leveza e tom aventuroso que torna as três horas voarem em um puro deleite de entretenimento. Um drama de cerne pesado e carregado de sentimentos denegridos e frustrados dentro de seus personagens que sofrem silenciosamente com as mudanças do mundo à sua volta e nada podem fazer do que se acostumarem à sua mísera existência e aguardarem pelo vindouro fim.

É sim o ápice de uma carreira inteira, e que ajudara a repercutir nos seus filmes subsequentes os temas quase obsessivos da decadência e da morte que Visconti continuara a buscar, Os Deuses Malditos, Morte em Veneza e Ludwig, A Paixão de um Rei e por aí vai. Mas talvez poucas, ou nenhuma, alcançara a grandiosidade de O Leopardo, uma grandeza que mostra a insignificância da existência humana frente ao universo que conspira sempre contra nossa balança. É belo, emocionante, realista e inevitavelmente trágico, assim como a vida.

O Leopardo (Il gattopardo – Itália – França, 1963)

Direção: Luchino Visconti
Roteiro: Luchino Visconti, Suso Cecchi D’Amico, Pasquale Festa Campanile, Enrico Medioli e Massimo Franciosa (baseado na obra “Il Gattopardo” de Giuseppe Tomasi di Lampedusa)
Elenco: Burt Lancaster, Alain Delon, Claudia Cardinale, Romolo Valli, Paolo Stoppa, Rina Morelli, Terence Hill, Pierre Clémenti, Lucilla Morlacchi, Giuliano Gemma, Ida Gali, Ottavia Piccolo
Gênero: Drama, Épico
Duração: 185 min.