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O que faz um filme ser bom? É uma pergunta que muitos aspirantes a roteiristas e diretores devem amarguram por horas quando colocam a cabeça no travesseiro antes de embarcar na melhor fonte de ideias: os sonhos.

Tendo se tornado também uma fonte de sonhos, ideias e ambições, o Cinema sempre viveu de altos e baixos entre diversos lançamentos que conquistaram o público de diversas maneiras. E um dos mestres silenciosos dessa arte fantástica certamente é Giuseppe Tornatore, um dos grandes cineastas da História que apenas consagram ainda mais o cinema italiano como o melhor.

Embora sua carreira não tenho conquistado tantos holofotes depois do sucesso pelo belíssimo Cinema Paradiso em 1988, é inegável que Tornatore conhece e domina os elementos necessários para fazer um bom filme. No caso de O Melhor Lance, seu primeiro longa em língua inglesa, temos um verdadeiro thriller romântico repleto de ganchos surpreendentes capaz de prender a atenção do espectador apenas nos primeiros minutos.

O Mistério da Arte

Mesmo que muitos do campo da crítica especializada discordem da minha convicção em afirmar com tanta firmeza que Tornatore é um mestre de narrativa, a história e os personagens de O Melhor Lance insistem em provar o talento do diretor/roteirista.

Tornatore nos apresenta ao leiloeiro Virgil Oldman (Geoffrey Rush), um dos profissionais mais respeitados e famosos do campo. Entre lances de milhares e milhões, Oldman vive em extremo conforto e em extrema solidão. Obcecado por higiene, o homem sempre vive com luvas nas mãos, evitando contato com diversas pessoas. Porém, sua vida começa a mudar quando uma herdeira ricaça, Claire Ibbetson (Sylvia Hoeks) o contata para ajudar a leiloar todos os móveis velhos, embora a mulher se recuse a encontrá-lo pessoalmente revelando que possui agorafobia – um medo irracional de estar em contato com outras pessoas.

Enquanto Oldman cataloga a mansão dos Ibbetson, pouco a pouco começa a se interessar por Claire por conta de diversas semelhanças entre suas personalidades excêntricas. Além disso, durante as avaliações dos móveis da propriedade, Oldman encontra uma antiga engrenagem que pode ser parte de um valioso autômato do séc. XVIII. Logo, o velho homem se rejuvenescido em uma jornada intrigante, tanto pela mulher quanto pelo prêmio.

O fato de O Melhor Lance ser tão magnético é o ritmo entre pequenas pausas e movimento. Tornatore nos apresenta ao protagonista que realmente é bastante carismático apresentando suas manias, seu temperamento ríspido e também os momentos mais íntimos nos quais vemos Oldman contemplando a própria solidão em seu aniversário. Tornatore usa a decupagem de modo inteligente para o espectador notar como esse problema da solidão realmente perturba o leiloeiro já que enquadra a pequena chama da vela praticamente engolindo todo o rosto pesaroso do personagem – aliás, Geoffrey Rush está impecável neste filme.

As mudanças ocorrem através de pequenos arcos que vivem movimentando o filme, mas nunca o deixando incongruente e pouco digno da própria história. Vemos a rejeição ao primeiro contato com Claire e todas as reviravoltas que ocorrem através da consolidação do negócio enquanto o diretor leva o tempo necessário para estabelecer o protagonista.

Como todo bom personagem, Oldman é mais complexo do que aparenta ser. Tornatore coloca uma ambiguidade ética no personagem ao exercer sua profissão com algumas artimanhas que o favorecem para adquirir obras de arte genuínas, mas anunciadas como falsas para seus clientes enquanto um parceiro, Billy (Donald Sutherland), o ajuda a fazer as ofertas – muito menores do que as obras realmente valem. Logo, ele se torna, de certa forma, um golpista.

Quando enfim Tornatore começa a trabalhar a relação entre Oldman e Claire, o filme se torna bastante interessante pelo tom exótico e nada ordinário que o arco romântico improvável aborda: a jovem mulher com agorafobia com um homem já na terceira idade bastante temperamental. Fora a situação ser interessante, constantemente o roteirista coloca esses personagens em movimento, os levando aos limites do que fariam um pelo outro enquanto o sentimento da paixão aflora entre os dois.

É justamente neste segundo ato que vemos uma das características mais levianas da obra, a inserção do personagem Robert (Jim Sturgess), o mecânico e restaurador de confiança de Oldman que leva as peças do autômato a fim de reconstruí-lo. Conforme o filme avança, a relação entre os dois funciona como um alívio cômico, embora Robert demonstre algumas vezes que não é uma pessoa confiável. A verdade é que o personagem é um apêndice completo na obra, apenas um capricho de Tornatore para realizar toques vaidosos durante as reviravoltas finais do filme.

Durante a história, o roteirista falha em situar a quanto tempo Oldman conhece Robert para confiar tantos segredos a ele. E se o conhece há tanto tempo, a credibilidade da revelação final do filme se torna bastante frágil, quebrando a lógica do acontecimento exigindo demais da suspenção da descrença do espectador.

Enquanto essa ponta bastante presente enfraquece o filme, a história de romance entre Claire e Robert é totalmente eficaz permitindo que Tornatore brinque com voyeurismo, um desaparecimento angustiante e já semeie algumas frases que indicam um mistério maior do que apenas uma doença psicológica que acomete a jovem moça.

Por conta de toda a situação ser bastante original, além do protagonista ser muito intrigante, Tornatore se permite a alguns luxos um pouco clichês, mas eficientes em humanizar Oldman que, como disse, sofre mudanças drásticas em sua jornada. Uma pena, porém, que enquanto Oldman se comunique com Billy ou com Robert, Tornatore dê dicas demais sobre o que pode acontecer com o protagonista na conclusão da obra. Logo, com tantas dicas não muito sutis, o mistério acaba se tornando previsível se o espectador traçar a linha de raciocínio correta.

Síndrome do Terceiro Ato

Infelizmente, O Melhor Lance sofre com a síndrome do terceiro ato, um mal que acomete diversos contadores de histórias por pressa de concluir sua narrativa sem dedicar o tempo correto para certos acontecimentos. O final do longa é bastante apressado para introduzir o nirvana de Oldman e logo introduzir a reviravolta que abala profundamente o protagonista. Pela pressa, toda a conclusão se torna fragilizada, além de Tornatore optar por uma montagem não-linear um pouco confusa para encerrar o filme com um final aberto intrigante.

Excepcional em jogar linhas de diálogo relativamente dúbias, o roteirista se aproveita disso para dar sustento para as escolhas finais do filme, além de fechar perfeitamente um dos arcos envolvendo uma deficiente física e um bar localizado bem em frente à propriedade de Claire.

Na direção, Tornatore continua monstruoso a enquadrar e valorizar todo o design de produção muito atento a questões de estética e artes diversas. O Melhor Lance é mesmo um filme muito bonito de se ver por conta da direção estupenda de Tornatore na condução da câmera e de seus atores. O diretor sempre conta também com o poder das composições belas de Ennio Morricone que sempre conferem um charme absoluto para as cenas.

Nos momentos mais impactantes da obra, o diretor certamente impõe a presença de seu estilo, embora a maioria do filme siga à risca a condução da linguagem cinematográfica clássica. As melhores sacadas, além do já mencionado enquadramento da vela, surgem quando Oldman conversa com Claire por telefone, enquanto está sentando admirando as obras de arte – todas retratos de mulheres.

O diretor captura o olhar já apaixonado do ator contemplando os quadros com inúmeras mulheres, todas olhando para ele. Nesse jogo de campo/contracampo, Tornatore infere que o personagem vasculha em cada olhar pintado, uma face para sua amada que ainda não conhece pessoalmente. Aliás, o diretor maneja a personagem verdadeiramente como um Fantasma da Ópera, com ela se comunicando com Oldman atrás de paredes e salas secretas que impedem seu contato com o protagonista.

A Redenção do Amor

O Melhor Lance é uma das melhores obras de Giuseppe Tornatore, mesmo que contenha alguns tropeços e personagens inúteis, além de uma reviravolta final que, embora interessante, seja absurda demais para acreditar punindo um protagonista que passava longe de merecer um destino tão desafortunado. Um bom drama repleto de mistério com uma mensagem interessante ao nos colocar na pele nada habitual em um filme desse subgênero específico que não devo revelar qual seja.

Na última questão, Tornatore tenta responder se há autenticidade em uma falsificação e se o amor realmente redime tudo. Cabe apenas ao espectador, com as pistas que ele deixa disponíveis, responder essa dúvida torturante.

O Melhor Lance (La migliore offerta, Itália – 2013)

Direção: Giuseppe Tornatore
Roteiro: Giuseppe Tornatore
Elenco: Geoffrey Rush, Jim Sturgess, Sylvia Hoeks, Donald Sutherland, Dermot Crowley
Gênero: Drama, Romance, Suspense
Duração: 131 minutos.

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