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Sempre que se comenta sobre os filmes de monstros da Universal, as décadas costumeiramente mencionadas são as de 1930 e 1940, período em que os principais clássicos como Drácula, Frankenstein, A Múmia, O Homem Invisível, A Noiva de Frankestein, O Lobisomem e O Fantasma da Ópera foram produzidos e lançados. No entanto, mesmo ignorando o fato de que a maioria dos filmes feitos nos anos seguintes não se igualam aos mencionados, não podemos deixar de também louvar a década de 1950. Afinal, se, por um lado, ela não teve a opulência das duas anteriores, por outro, foi nela em que o ótimo O Monstro da Lagoa Negra ganhou vida.

Escrito por Harry Essex e Arthur Ross (a partir de um argumento desenvolvido por Maurice Zimm, o qual, por sua vez, se baseou numa história concebida por William Alland), o roteiro tem início quando o arqueólogo Carl Maia (Antonio Moreno) encontra um fóssil misterioso no meio da floresta amazônica. Depois de levar o achado para o biólogo marinho David Reed (Richard Carlson), uma expedição formada também por outros cientistas é enviada ao local para realizar investigações científicas. No entanto, eles nem imaginam que na região habita uma estranha criatura (na água, o monstro é interpretado por Ricou Browning, e na terra, por Ben Chapman).

Assistindo a O Monstro da Lagoa Negra, um dos elementos que mais chama atenção são as  várias similaridades existentes entre a obra e outras lançadas nas décadas anteriores e posteriores. No caso dos filmes produzidos antes de 1954, ano de produção do longa, é impossível não enxergar no amor que a criatura passa a sentir pela cientista Kay (Julie Adams) ecos de filmes como King Kong, de 1933, e A Bela e a Fera, realizado em 1946, oito anos antes. Já em relação aos longas feitos nos anos seguintes, é evidente que coisas como a caracterização dos cientistas que participam da expedição, a existência de criaturas monstruosas na floresta amazônica e a concepção plástica e sonora de algumas cenas influenciaram os filmes Alien, O Oitavo Passageiro, Anaconda e Tubarão, respectivamente.

No entanto, mesmo levando em conta o fato de que tanto o espectador atual quanto aquele que viu o longa no ano de seu lançamento sente que a história não é uma das mais originais, o longa, ainda assim, consegue manter um frescor irresistível. Não importa o momento em que o espectador assista ao filme, este sempre resultará numa experiência prazerosa. E isso se deve a vários fatores, que vão desde o trabalho realizados pelos roteiristas, até as opções feitas pelo diretor e a sua equipe , passando, é claro, pelo charme da própria criatura.

No que diz respeito ao roteiro, é preciso ressaltar a maneira com que Essex e Ross (dois roteiristas acostumados aos filmes de horror e fantasia) definem os personagens por uma única característica. Hoje em dia, isso se tornou convencional, mas, na época em que o longa foi lançado, não existia esse costume. Nas histórias em que há um número grande de personagens, esse recurso, se for tão bem empregado quanto é aqui, se transforma numa poderosa ferramenta, já que possibilita ao roteirista discutir diferentes temas a partir das diversas características que delineiam os personagens.

Em O Monstro da Lagoa Negra, os temas sobressalentes são a ambição humana e a curiosidade científica, cuja representação se dá através dos personagens David e Mark (Richard Denning). Enquanto o primeiro se contenta com o simples fato de uma criatura como aquela existir, o segundo sonha com a glória que gozará em razão de sua descoberta. Aliás, vale lembrar que a maior parte dos filmes de monstros da Universal abordam essas duas questões e as consequências desastrosas que delas provêm. Sendo assim, é natural que, na obra de Jack Arnold, elas ressurjam.

Do ponto de vista técnico, o destaque vai para as cenas aquáticas. Filmar debaixo d’água é um desafio que existe até hoje. Se lembrarmos que, em 1954, não existia metade das tecnologias disponíveis atualmente e que 50% da narrativa de O Monstro da Lagoa Negra se passa abaixo da superfície das águas, esse desafio se torna ainda mais assustador. É por isso que a coragem dos realizadores e a qualidade das cenas submarinas, cuja lucidez e claridade (méritos do soberbo William Snyder) são embasbacantes, merecem ser louvadas para sempre (inclusive, o longa foi filmado em 3D e usava o método de luz polarizada em suas projeções). Por fim, não podemos nos esquecer de mencionar o quão inteligente foi a decisão dos responsáveis de justificar a figura parcialmente humana da criatura através de sua própria concepção, uma vez que ela é a mistura de um Homem com anfíbio.

Último grande filme de monstro da Universal, O Monstro da Lagoa Negra influenciou diversos cineastas e filmes futuros, além de ser  divertido na medida exata, como todo filme dessa natureza deve ser. Retornar a ele nunca é uma experiência maçante ou desinteressante. É uma pena que o estúdio nunca mais tenha feito um filme de monstro tão bom quando este ótimo longa de Jack Arnold.

O Monstro da Lagoa Negra (Creature From The Black Lagoon, EUA – 1954)

Direção: Jack Arnold
Roteiro: Harry Essex e Arthur Ross
Elenco: Richard Carlson, Julie Adams, Richard Denning, Antonio Moreno, Nestor Paiva, Whit Bissell, Bernie Gozier, Ricou Browning, Ben Chapman
Gênero: Terror 
Duração: 79 min 

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