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O Mundo Sombrio de Sabrina definitivamente veio para abalar nossas estruturas. Afastando-se de modo considerável da série original, uma espécie de sitcom tragicômica fantástica, a nova investida da Netflix não apenas nos presenteia com uma perspectiva mais sombria e macabra, como também se respalda em vários elementos nostálgicos que homenageiam a protagonizada por Melissa Joan Hart. É fato dizer que a primeira temporada tornou-se bem controversa, principalmente por tratar sem qualquer tipo de tabu várias questões complexas, incluindo machismo, racismo e doutrinações religiosas. Ademais, a diversão e as inocentes alfinetadas são divertidíssimas e complementam atuações e diálogos bastante envolventes.

A profundidade do show já se inicia com a abertura à la anos 1960, retomando as HQs clássicas de Roberto Aguirre-Sacasa, que também fica responsável pela própria adaptação. O retorno às tramas de terror já nos é entregue nesses dois minutos de introdução antes da verdadeira narrativa ganhar forma, sem pressa alguma em relação à ocorrência dos eventos. Como já dito nas primeiras impressões, o início pode parecer um tanto coreografado demais; entretanto, a atitude é compreensível, visto que precisamos entender e mergulhar de cabeça no cosmos de Greendale e em todos os seus mistérios mais ocultos.

Sabrina Spellman (Kiernan Shipka em uma deliciosa rendição ao mesmo tempo amargurada e delicada) está prestes a fazer dezesseis anos e deve decidir entre permanecer em sua vida mundana ou entregar-se ao Lorde das Trevas e assinar seu livro, juntando-se ao clã de bruxas e trilhando o caminho de seu pai, ex-sumo sacerdote da Igreja da Noite. Porém, por ser mestiça e constante alvo de injúrias, ela renuncia e não renuncia a seus poderes, recusando-se a ceder às pressões dos que vivem à sua volta e utilizando seu livre-arbítrio, ainda que passe a ter inúmeros inimigos, incluindo a presença obscura e nada acolhedora do Padre Blackwood (Richard Coyle) e das Irmãs Sinistras conhecidas como Prudence (Tati Gabrielle), Agatha (Adeline Rudolph) e Dorcas (Abigail Cowen).

Uma das maiores conquistas da série é sua estruturação. Além de desenvolver um grandioso arco para cada um de seus personagens, alguns núcleos fecham-se em si próprios e partem da construção de Sabrina – A Aprendiz de Feiticeira. Em outras palavras, é possível entender a história de um capítulo sozinho, mas deve-se acompanhar desde o início para ter uma visão mais ampla. Aguirre-Sacasa, em colaboração com uma aplaudível equipe criativa, não se equivale de subtramas clichês, buscando sempre pela originalidade e pelo choque. Não é surpresa, pois, que Mundo Sombrio seja explícito e tangencie o gore, com sequências explícitas de morte e de tortura. A discrição cênica é abandonada pelas “leis” do terror, incluindo cenas de possessão demoníaca, encontro com o próprio Satã e lutas com demônios tão horríveis quanto a própria natureza humana.

A narrativa também preza pelo sentimentalismo teatral, mas não se valendo do melodrama desnecessário. Os personagens têm problemas pessoais que são obrigados a enfrentar ao longo das jornadas: Sabrina, por exemplo, cresce sem o apoio dos pais e tem a vida moldada pela presença de suas tias, Zelda (Miranda Otto) e Hilda (Lucy Davis), as quais mantêm segredos acerca de seu nascimento e seu batismo. A partir disso, ela lida com o luto de forma diferente, recriando características de sua família dos sonhos a parti da menção que outras pessoas fazem. Sua personalidade altruísta muitas vezes é contestada pelos membros do coven, e admirada em segredo pela Zelda, cuja performance se entrega de corpo e alma a uma das personas mais encantadoras da série (sem trocadilhos).

Cada um dos protagonistas e coadjuvantes, por mais que lute para viver uma vida normal dentro de suas concepções próprias, vê-se em um ciclo compulsório de enfrentar seus maiores medos e colocar à prova o que realmente acreditam. A única exceção, talvez, insurja na figura da Srta. Wardell (Michelle Gomez), a encarnação de Lilith que em momento algum deixa de dar ponto sem nó. A mãe de todos os demônios aproxima-se da heroína fingindo ajudá-la, mas arquitetando provações mortais para aproximá-la do Lorde das Trevas e deixá-la pronta para ser abraçada pelo próprio Satã. Gomez e Otto são as que mais dividem os holofotes, deixando-se levar por encenações teatrais dramáticas propositalmente floreadas, ainda que, às vezes, tangenciem a canastrice – nada que não seja varrido facilmente para debaixo do tapete com um estalar de dedos.

Ainda que seja, no geral, uma ótima iteração, algumas lapidações se mostram necessárias, principalmente levando em conta o ótimo cliffhanger para a próxima temporada. Hilda e Ambrose (Chance Perdomo) vêm como os escapes tragicômicos que suavizam a tenebrosa atmosfera, mas poderiam ser melhores utilizados; por vezes, ambos são esquecidos em prol da continuidade cênica da arquitrama, desvalorizando-os sem qualquer motivo aparente. Além disso, alguns diálogos soam falsos e autoexplicativos demais, mesmo que não tirem o peso dramático da obra.

As inúmeras referências, também mencionadas no texto anterior, permeiam constantemente o show. As mais sutis residem em valorizar a importância do julgamento de Salem para a ambiência histórica e política tão defendida pela comunidade bruxa, enquanto as mais óbvias expandem-se para as referências fotográficas e artísticas de O Exorcista, A Bruxa e outros clássicos do suspense psicológico. Em uma determinada cena, Aguirre-Sacasa faz questão de estampar na cara do público suas aspirações e sua tentativa de conexão com o máximo de fãs do gênero possível.

O Mundo Sombrio de Sabrina superou as expectativas e mostrou que a Netflix ainda tem muito conteúdo interessante a oferecer. E as coisas apenas melhoram quando pensamos nas infinitas possibilidades para a próxima temporada – e como os Spellman irão vencer dificuldades ainda mais mortais.

O Mundo Sombrio de Sabrina – 1ª Temporada (Chilling Adventures of Sabrina, EUA – 2018)

Criado por: Roberto Aguirre-Sacasa
Direção: Lee Toland Krieger, Rob Seidenglanz, Maggie Kiley, Viet Nguyen, Craig William Macneill
Roteiro: Roberto Aguirre-Sacasa, Donna Thorland, Matthew Barry, baseado nos quadrinhos da Archie Comics
Elenco: Kiernan Shipka, Richard Coyle, Miranda Otto, Lucy Davis, Tati Gabrielle, Michelle Gomez, Ross Lynch, Chance Perdomo, Bronson Pinchot, Jaz Sinclair
Emissora: Netflix
Episódios: 10
Gênero: Fantasia, Terror, Drama
Duração: 60 min. aprox.

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