» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Algumas parcerias provam que não há limite para o talento. Com Brian De Palma e Al Pacino, a parceria gerou dois resultados substanciais para o vasto catálogo de filmes gangster pós-Nova Hollywood. Com Pacino já atingindo extrema fama ao convergir em papeis inesquecíveis como em O Poderoso Chefão e Serpico, De Palma foi bastante esperto em apresentar o ator em um gangster de formato clássico como Scarface para depois reaproveitá-lo, já mais velho, em O Pagamento Final.

Talvez sua grande-obra prima, De Palma faz o cinema dos anos 1970 com O Pagamento Final, muito interessado em contar uma história extremamente pessoal a favor de diversas subversões do gênero. Isso, já nos anos 1990, quando a era do blockbuster já estava basicamente estabelecida, repleta de finais felizes e decisões comerciais. Sem abalar o mundo cinematográfico com um excelente trabalho desde em Os Intocáveis, De Palma pegou muita gente de surpresa com este que considero seu melhor trabalho até agora.

Aos Amigos, tudo

A razão disso é bastante evidente: não se trata de uma história original de De Palma, mas a adaptação do ótimo Dave Koepp de dois romances de Edwin Torres. Como disse, ao contrário dos filmes gangster tradicionais, Koepp e De Palma trazem a história perfeita do ex-criminoso que faz de tudo para enterrar seu passado e perseguir seus sonhos em um lugar distante, começando novamente do zero.

Condenado com 30 anos de pena, Carlito Brigante (Al Pacino), um importante traficante de cocaína, consegue uma revisão de seu caso, após cumprir cinco anos na prisão. Graças aos esforços de seu grande amigo advogado Kleinfeld (Sean Penn), Carlito consegue ganhar sua liberdade de volta, convicto que não retornará a sujar suas mãos no crime para realizar seu módico sonho de viver nas Bahamas. Entretanto, as ruas de Nova Iorque e seus habitantes noturnos farão de tudo para jogá-lo de volta ao crime.

Ou seja, basicamente, temos uma história de contramão no cinema do gênero – algo simplesmente não convencional. Koepp já inicia a narrativa com um grande cinismo para o espectador, entregando o final da obra de bandeja, além de já apresentar a narração over de Carlito que nos guiará durante todo o enorme flashback que é O Pagamento Final.

A adaptação de Koepp é simplesmente brilhante. Ela funciona em todos os níveis, pois, além de trazer uma história muito interessante, é repleta de personagens marcantes, bem cadenciados em seu desenvolvimento e muito marcantes. Obviamente, Carlito é um protagonista excepcional que nos convida, pouco a pouco, para descobrir mais de sua vida – menos a do crime. O que é, de fato, algo genial, já que toda a história é narrada sob o ponto de vista dele, nada mais natural do que esconder toda a sujeira feita nos seus anos como criminoso.

Carlito é ao mesmo tempo misterioso e apaixonante. Al Pacino entrega uma performance tão visceral que nos faz acreditar em sua busca verdadeira por um futuro melhor. Koepp é bastante inteligente em definir Carlito no limite da hipocrisia. De fato, o protagonista tenta ao máximo não entrar nos esquemas criminosos de seus antigos parceiros, porém usa a experiência criminal das ruas a seu favor sabendo quem irá lhe favorecer legalmente. Ou seja, aproveitar da situação de terceiros em situações de risco com o crime para trabalhar honestamente. É desse modo que temos a presença massiva do local de trabalho de Carlito, um bar chamado, não por acaso,  Paradise.

Lá conhecemos novas figuras que acabam trazendo o crime para perto de Carlito, como se fosse uma enorme doença da qual ele nunca iria se curar. Esse foco estabelece alguns personagens que surpreendem positivamente no uso futuro que o roteirista planeja. Em especial, temos Benny, um traficante em início de carreira que simplesmente se trata de uma personificação do passado tenebroso de Carlito. Obviamente, o protagonista projeta todo seu ódio pelas perdas que o crime provoca diretamente no rapaz, desafiando a nova linha moral que ele impôs para si mesmo.

E olha que só estou comentando de apenas um núcleo. O roteiro de Koepp é magistral em trazer mais duas narrativas inteligentes, as interligando com primor a principal.

A mais perturbadora delas é a decadência ética que o advogado de Carlito passa, se tornando cada vez mais um viciado agressivo que quer entrar no mundo do crime, apesar de ser totalmente adequado à vida regrada de seu cotidiano. Como Carlito preza a lealdade acima de tudo, essa amizade se sustenta até o limite trazendo consequências drásticas para ambos em uma clássica tragédia de erros.

A terceira narrativa se trata, evidentemente, do interesse romântico tão obrigatório em narrativas clássicas. Como se trata de uma história sobre os reencontros com o passado, esse núcleo é o mais difícil para Carlito, pois se trata do grande amor de sua vida, Gail.

Koepp traz muita dor e ressentimento nesse núcleo de vidas frustradas que nunca atingiram o ápice de suas carreiras, optando por escolhas mais trágicas que rendem surpresas excelentes para o espectador.

O lance inicial é a apresentação muito romântica de Gail, com Carlito reunindo coragem para falar com ela enquanto a observa em uma aula de dança no terraço do prédio ao lado. Com tanta graciosidade e elegância, é esperado que Gail seja uma mulher de padrões normais o que é logo subvertido de tal modo que até o protagonista fica chocado. Simplesmente genial.

Felizmente, apesar de não ser imediato, Koepp não enrola excessivamente para evoluir a relação dos dois, puxando com mais força nossa empatia pelo sonho que Carlito nutre em se livrar de toda essa corrupção. Mesmo simplificada, Gail oferece o contraponto poderoso pelas decisões orgulhosas que Carlito acaba tomando de todos os modos, incluindo uma ajuda policial muito necessária (e também perfeitamente justificada). Esse é basicamente o único núcleo que Koepp se dá ao luxo de trabalhar com um único clichê para conferir ainda peso dramático para a conclusão da obra. E é uma escolha muito acertada já que o final do filme é tristíssimo.

Koepp simplesmente trouxe um dos seus melhores trabalhos aqui, apresentando uma crise social urbana amaldiçoada pelo crime organizado ou o corriqueiro, além de personagens consistentes que evoluem de modo orgânico, sem pular estágios necessários. Tudo isso é complementado com diálogos poderosos que se comportam naturalmente, além da inserção eficiente da narração over para conferir o toque neo noir repleto de charme.

O Ápice de um estilo

De Palma finalmente já havia começado a andar com as próprias pernas cunhando duas fantásticas obras com Scarface e Os Intocáveis naquela altura. Sua obsessão hitchcockiana havia cessado depois de terminar a trilogia temática com Um Tiro na Noite, Vestida para Matar e Dublê de Corpo. Apesar da direção de De Palma ser virtuosa com esses filmes-homenagem, replicando com perfeição a estética cinematográfica de Hitchcock, nada se compara com as fabulosas que ele traz em O Pagamento Final.

É simplesmente Brian De Palma por Brian De Palma. Já na abertura dos créditos iniciais, o diretor fornece um pequeno espetáculo ao passear com a câmera pelos ângulos mais inusitados em um plano bastante longo. O uso do preto e branco, já inferindo a inspiração noir gangster oferece o contraste absoluto quando Carlito observa uma propagando turística sobre o “Paraíso”, único elemento com cor na cena, iniciando o flashback.

Depois, há um festival de cenas marcantes inteligentíssimas ao longo do filme inteiro. A primeira delas não demora nada a chegar, exibindo um amadurecimento notável na direção de De Palma. Preparando um excelente clima, ele nos traz uma cena de tiroteio bastante esperta, mesmo que já consiga antecipar o forte sentimento de que as coisas darão errado.

Aliás, essa preparação que antecipa o sentimento pessimista e premonitório de Carlito é simplesmente uma extensão da experiência que o personagem adquiriu na sua vida criminosa, já se antecipando para agir e salvar sua pele. Apesar de mostrar o protagonista como alguém inteligente, De Palma consegue sempre alterar essa atmosfera premonitória apresentando versões distintas em triunfo, arrependimento e medo. Ou seja, mesmo preparado para o pior, Carlito terá que ultrapassar desafios que colocam sua vida no mais absoluto risco – e Al Pacino oferece uma dimensão de expressões amedrontadas em todas elas, reconhecendo que o sonho fica cada vez mais distante quando se mete em confusões do tipo sem querer.

Nesse primeiro tiroteio, portanto, além da construção do clima, De Palma é adequadíssimo com sua encenação inteligente aproveitando as principais características autorais que o consagram: o uso perfeito de reflexos em superfícies espelhadas. O reflexo aqui marca justamente o ponto da virada, obrigando Carlito a agir e assassinar uns traficantes de meia tigela que matam seu ingênuo sobrinho, deslumbrado pelo lucro que o crime fornece, em frente aos seus olhos.

Essa é uma das abordagens mais violentas de De Palma com a ação – próxima a Scarface, removendo todo o glamour dos tiroteios caóticos que captura aqui. Tudo é absolutamente muito humano e, portanto, cheio de erros e trapalhadas.

Sobre a extensão da câmera como uma projeção do ponto de vista de Carlito, temos, inclusive, cenas que De Palma simplesmente adota uma visão subjetiva. Isso já ocorre quando conhecemos a boate Paradise em um excelente plano bastante longo na qual o diretor faz a câmera flutuar pelo cenário a fim de exibir um local semelhante a um refúgio de prazeres: limpo, isolado e onírico. Não à toa que todo o design de produção do lugar se assemelha a estrutura de um navio – principalmente o escritório de Carlito.

Em outra jogada genial, De Palma realiza um jogo de plano/contraplano com Carlito e uma das dançarinas do lugar. O fato da atraente mulher estar em completo escanteio no enquadramento enquanto olha atentamente para câmera, praticamente quebrando a quarta parede, é logo justificado na profundidade de campo, onde vemos uma bela moça loira dançando e atraindo a atenção de Carlito – há até mesmo um zoom in para repararmos no detalhe.

Tudo isso serve como uma evocação de memória para Carlito, como um flashback onírico sem nunca efetivamente o ser, para compreendermos a forte paixão que o personagem sente por Gail, a personagem que é muito parecida com a dançarina observada. Não é preciso ser nenhum gênio para entender o que De Palma pretende ao arquitetar essa pseudo apresentação de Gail, já que em questão de pouco tempo conhecemos efetivamente a personagem.

De Palma realiza um jogo parecidíssimo de voyeurismo no qual Carlito novamente se encaixa na posição de observador secreto. Em uma cena belíssima, vemos o maior medo que o duro personagem sente em se aproximar novamente do amor de sua vida. Em um cenário chuvoso, Carlito fica no terraço de um prédio vizinho a observando dançar balé com diversas outras mulheres em uma aula. A elegância daquele cenário e do refinamento musical clássico nunca são experimentados de fato por Carlito, pois De Palma nos diz através de imagens que ele não pertence ao luxo, mas sim na sarjeta. Que todo o glamour da boate não passa apenas de uma ilusão.

Porém, apesar da mensagem ser eficiente nessa fina apresentação de Gail, De Palma consegue ser ainda mais genial ao apostar tudo no contraste absoluto daquela situação no segundo encontro de Carlito com a moça. Novamente a câmera adota o ponto de vista subjetivo em outro plano bastante longo que passeia pela boate tão artificial e isolada quanto a Paradise. Em pouco tempo, Carlito descobre uma verdade indesejada que nivela Gail a um nível pouco melhor que o seu.

Todo esse pequeno ensaio sobre a aproximação da câmera com a visão subjetiva na verdade se trata de uma profunda característica dos trabalhos de De Palma. Ele praticamente quer e força que a câmera se comporte com a naturalidade do olho humano e dos movimentos do corpo. É justamente por isso que temos o realismo tão cuidadoso e apurado em seus trabalhos, transformando seus filmes em seletos fragmentos da nossa realidade.

É por isso que De Palma também gosta tanto de trabalhar ferrenhamente com a profundidade de campo. Tudo se movimenta e é vivo, nunca transparecendo qualquer intenção de ser artificial, de ser um cinema rasteiro e falso. Basta repara a importância do que acontece no fundo da ação, vemos a tentativa de dois assassinatos, das danças das mulheres que chamam a atenção de Carlito e, por fim, toda o brilhante trabalho que De Palma constrói na perseguição final do filme, estabelecendo a geografia dos espaços como um verdadeiro mestre, mostrando de modos inteligentes o espaço entre perseguidor e perseguido, além de um tiroteio final poderoso.

Apesar da profundidade de campo estar muito relacionada à perdição de Carlito e do crime, De Palma também elabora usos mais românticos. No caso, em tom quase paródico a uma cena inesquecível de O Iluminado, De Palma retoma o lance voyeur do protagonista quando visita Gail em sua casa. Ela seduz e provoca o protagonista, não permitindo a entrada em sua casa, mas o provoca pela fresta da porta. Nesse raio limitado de visão, De Palma expande a tensão sexual ao usar, como de praxe, um espelho, exibindo Gail se despindo para Carlito, o provocando, fazendo com que seus instintos animais floresçam.

Perdição dos Redimidos

O Pagamento Final é um clássico indiscutível. São diversas cenas memoráveis para potencializar uma história fortíssima e trágica, que pega nossas emoções e as pisoteia em um jogo de ilusões arquitetadas mesmo depois de mostrar, primeiramente, o choque da violência inescapável.

Em suma, De Palma está um monstro nesse filme. É muito provável que seja sua obra-prima máxima na qual ele consegue explorar todas as técnicas que o consagraram como um fantástico mestre do cinema, provando, de uma vez por todas, que, com algumas parcerias, não há limite para o talento.

O Pagamento Final (Carlito’s Way – EUA, 1993)

Direção: Brian De Palma
Roteiro: David Koepp (baseado no romance de Edwin Torres)
Elenco: Al Pacino, Sean Penn, Penelope Ann Miller, Ingrid Rogers, John Leguizamo, Luis Guzmán, James Rebhorn, Joseph Siravo, Viggo Mortensen
Gênero: Drama
Duração: 144 min.

Comente!