» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Fatos são fatos, não é de hoje o infame trade de estúdios de buscarem realizar remakes de clássicos consagrados para angariar uma graninha fácil e talvez iniciar uma potencial nova franquia. E Planeta dos Macacos teve esse destino sendo realizado bem aqui no também infame filme do consagrado Tim Burton. E lhes juro, que o filme não consegue passar mesmo de um perfeito caça níquel vazio que busca um novo tipo de sucesso, não importa quão boas sejam suas intenções.

Aliás, não duvido nada que de fato há sim um leque de boas idéias e intenções por parte dos diretores e roteiristas que são convocados para realizar remakes com essa proposta que praticamente esse filme criou, o de “reinventar” ou “reimaginar” o clássico original, ou franquia, em novos percursos e caminhos sem claro buscar desrespeitar o original (um apelido bonito para remake). Ou pelo menos foi essa a desculpa que Tim Burton deu na época quando fora contratado após o projeto ter sido passado de mão em mão, indo desde Oliver Stone, James Cameron, Peter Jackson e o próprio Michael Bay. Afinal esse seria um remake para um dos maiores clássicos de todos os tempos, merecia ser um evento, merecia um diretor consagrado para acertar bem no trabalho!

E assim foi o trabalho de Burton, afirmando o quanto o filme original de 68 de Franklin Schaffner o marcou fortemente como cineasta, e que sua versão tentaria se afastar em novos caminhos e nunca desrespeitar o seu legado. E pode-se dizer que ele o assim faz. Inofensivo e de certa forma despretensioso em suas ambiciosas, porém um tanto esquecíveis intenções. Na verdade o filme é sequer lembrado hoje seja só pelo simples motivo de ter o nome de Tim Burton estampado em cargo da direção, porque de resto…

Bem, vamos por partes aqui!

Um Novo Começo?

A trama logo de cara já busca se afastar o tico possível da do filme original quando nos deparamos com uma central espacial de exploradores da Nasa que treinam macacos para serem astronautas, quando uma estranha tempestade eletromagnética é identificada e o pequeno chimpanzé do Capitão Leo Davidson de Mark Wahlberg é mandado para averiguar e é sugado por ela. Davidson segue logo atrás para salva-lo e se vê arremessado no espaço contínuo para um planeta primitivo onde humanos são dominados por Macacos. E agora se vê na missão de fugir do planeta enquanto enfrenta uma temível perseguição do cruel general Thade de Tim Roth e seu exército, ao mesmo tempo que descobre misteriosos segredos sobre a origem do Planeta.

Como podem ver, nada não familiar com a trama original, mas com algumas mudanças significativas como inserir viagem no tempo e a suposta revolução dos humanos contra o domínio macaco liderados pelo errante herói americano. E ainda revestido de várias referências e call backs para o filme original como releitura de frases (“Tire suas mãos imundas de mim, seu maldito humano!”), incluindo a breve cameo de Charlton Helston como o pai macaco de Thade proferindo sua clássica frase do filme original, só que direcionado de forma pejorativa aqui para o destino dos humanos (“Maldito sejam vocês para o inferno!” – tradução livre minha).

Mas nada que isso seja algo de propriamente negativo do filme, mas o que me desagrada aqui é como tudo é lidado de forma tão fraca e até preguiçosa.

Burton é um exímio diretor e nunca vou deixar de gostar dele ou o vangloriar por seus melhores e autorais trabalhos. Mas parece que Planeta dos Macacos não era mesmo algo que servia para ele vir a dirigir. Não que ele estivesse com ânsia ou não bem intencionado ao comandar o filme, o que até parece que ele estava sim. Trouxe um elenco de estrelas para os papéis de símios; o visual do filme é ótimo; o trabalho de maquiagem de Rick Baker para os macacos é EXTRAORDINÁRIO, ainda mais do que em todos filmes originais ouso dizer; o ritmo é até bem coeso sem nunca se apressar ou se alongar demais. Mas nada me convence de o que se tem aqui é uma história fraca sendo preguiçosamente mal contada!

O aprecio técnico é notável e louvável, mas a essência por dentro dela é quase vazia e oca, capaz de provocar ecos de boas idéias desperdiçadas.

Uma embalsamada confusão

Pra começar é interessante como o roteiro realmente sugere a idéia de existir mesmo um planeta em cenário distópico, que não é a terra, sendo o lar dos símios exercendo domínio sobre os humanos. E mesmo assim, as suas origens sendo relacionadas com influência do homem (só que sem armas nucleares dessa vez), envolvendo as realidades paralelas que a linha do tempo difusa é distorcida (cooperem comigo).

Cuidado com spoilers aqui mais a frente. Pois aparentemente quando o Davidson de Walhberg adentra na tempestade eletromagnética, ele é enviado para anos no futuro desse planeta, onde a nave original com a tripulação havia adentrado também a sua procura e caído no mesmo planeta, milhares de anos antes dele chegar. O que aparentemente ocasionou na revolta dos macacos “mais inteligentes que o normal”, subjugando os humanos e iniciando uma nova linha de evolução e domínio.

Conseguiu seguir o raciocínio? Não lhe culpo, nem muito menos o filme se preocupa em querer explicar como o fator da viagem temporal presente no filme funciona, deixando mais para base de própria interpretação ou apenas preguiça de roteiro. Preguiça essa que ainda se reflete em construir uma linha de narrativa quase sem graça alguma.

E isso logo de início, assim que Davidson põe os pés no planeta e vemos a versão de Burton para a “intensa” caça dos macacos por escravos humanos, com um uso irritante de planos fechados enclausurados nas cenas de ação no meio de uma montagem bem dinâmica e energética. E ao próprio decorrer do filme onde o diretor nem sequer se atreve a valorizar em cena um tico dos cenários de fundo, estes também bem sem inspiração se limitando a uma floresta savana, uma cidade/castelo e um deserto árido apenas funcionais. Não que o filme original tivesse o melhor cenário de todos, mas a direção sempre valorizava o espaço e entregava um escopo grande e épico de forma bem sutil e natural para o árido planeta dominado pelos símios.

O que me leva a outro problema também presente na narrativa. O que exatamente estabelece a origem dos macacos aqui? No filme original ocasionava-se da auto destruição dos humanos após anos de corrida militar, com os macacos subdesenvolvidos criando uma nova linhagem de evolução e criação na terra. Sempre carregada de um intenso e complexo mistério, que viria a ser explicado esmiuçada parcialmente nas continuações. Enquanto aqui tal origem se limita a apenas um breve diálogo dizendo que os macacos eram “mais espertos do que pensavam”, o que ocasionou uma revolta entre eles subjugando os humanos e iniciado a nova hierarquia. Ok que o filme não precisa exatamente se auto explicar de forma expositiva a todo o tempo, mas as idéias deixadas implícitas sobre domínio e evolução são entregues de forma tão fraca o que deixa o resultado final apenas confuso.

Afinal, alguém realmente entendeu o que raio é o final do filme? Era o planeta em que Davidson estava era mesmo a terra o tempo todo, e o que ele só fez foi avançar nas linhas temporais diferentes até o momento em que Thade voltou a exercer domínio sobre o planeta e extinguir a raça humana por completo? Está longe de ser como no subestimado Fuga do Planeta dos Macacos de Don Taylor onde o conceito de viagem no tempo lá fora, em minha opinião, inteligentemente bem empregado na história e sucitando a origem dos símios dominantes a partir do casal Cornelius e Zira voltando no tempo. Enquanto aqui, é mais jogado na história, e quase sem nexo algum.

Dou crédito ao filme por ter coragem em terminar o filme em uma nota tão pesada e sombria em sua catarse, mas essa tentativa um tanto fútil de querer emular o efeito reviravolta mirabolante e inesperada do filme original, apenas deixa o final um tanto bizarro e vergonhoso. Ah, e ponha “vergonhoso” como perfeita definição de algumas caracterizações aqui.

Macacada Pistola e Humanidade sem carisma

Não bastava termos um ótimo elenco aqui reunido em papéis fraquíssimos, sem densidade ou propósito individual estabelecido, somos ainda obrigados a ver atores como Tim Roth; Helena Boham Carter e Paul Giamatti surtando que nem macacos animalescos aqui e ali, enquanto ainda tentam convencer que são símios humanóides inteligentemente evoluídos. Mas não que seja algo realmente irritante pois, embora pareça realmente ridículo, entrega certa personalidade a seus personagens, mesmo estes sendo os usuais clichês que pode se esperar. O Limbo de Giamatti sendo o (bom) alívio cômico; a Ari de Boham Carter a suposta realeza humilde defensora dos fracos e oprimidos; e Thade de Roth o antagonista extremista em seu ódio contra humanos.

E do outro lado da esfera temos o terrível elenco de humanos, que se limitam a Estella Warren fazendo a mesma expressão de garota tristonha e perdida, e Mark Walhberg como o suposto herói de ação aventureiro másculo sem demonstrar um pingo de carisma so longo de todo o filme. Ele não está ruim mas nem bom, apenas em uma nota sem graça alguma. E o resto…nossa, tem resto aqui?

Outra coisa que aparenta quase sem um ponto nexo coerente é o tom que o filme quer ter para si. Tanto na forma que, tenta, lidar com temáticas “políticas” de poderio e subjugação, quanto seu inevitável lado blockbuster.

Se de um lado temos o lado cineasta de Burton dando fisgadas de aparecimento quando este procura se assumir em sua direção como um filme B de ação e aventura, tentando se aproximar de alguma forma com os originais, e usando bizarras tiradas de humor quando vemos um casal símio prestes a se acasalar com uma das mais bizarras cenas de sedução que você verá na vida. E do outro temos símios humanóides dialogando sobre política e “direitos humanos”.

Sem falar quando vemos o personagem descartável, mas legal, Attar de Michael Clark Duncan sendo caracterizado ao longo do filme como o comparsa leal de Thade, que mata a sangue frio dois personagens da turma dos mocinhos do longa (Karubi de Kris Kristofferson, é nem eu lembrava que ele tava nesse filme, e Krull de Cary-Hiroyuki Tagawa, o gorila velho rabugento do bem). E depois perto do final ele fica do bem quando os humanos e macacos se apaziguam após um evento “milagroso” com um macaco astronauta (não perguntem, apenas vejam), sem ressentimentos. Então o filme também está tentando ser moralmente complexo ou apenas outra das preguiças de escrita?

Uma realidade sombria felizmente alterada

Há quem defenda que o filme se propõe exatamente a seguir essa vertente galhofa filme B de ação e aventura, e até que pode funcionar em partes com isso. Mas porque raio então tenta ser sério, complexo e dramático em outros momentos? Seja como for, nenhuma das vertentes realmente me convenceram.

Bom, de certa forma você pode encarar o filme aqui como um bom passatempo para quando não se está fazendo nada. Mas é um tanto decepcionante ter que encarar um filme com potencial tão tediosamente feito. Pelo menos Burton voltou hoje a fazer o que ele é bom que é…, bem, não muita coisa (quase nada). E ainda bem que vimos a franquia se revitalizado com a nova trilogia de Macacos acompanhando a jornada de César e a criação do Planeta símio. Porque se não a franquia estaria aqui deitada na praia fraquejada sem rumo gritando aos céus: HOLLYWOOD SEUS MANÍACOS, VOCÊS NOS DESTRUIU. MALDITOS…MALDITOS SEJAM!

Não mais!

O Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, EUA – 2001)

Direção: Tim Burton
Roteiro: William Broyles Jr, Lawrence Konner e Mark Rosenthal; baseado no livro de Pierre Boule
Elenco: Mark Wahlberg, Tim Roth, Helena Bonham Carter, Michael Clarke Duncan, Paul Giamatti, Estella Warren, Cary-Hiroyuki Tagawa, David Warner, Kris Kristofferson, Erick Avari
Gênero: Ficção Científica, Ação, Aventura
Duração: 119 minutos.

Leia mais sobre Planeta dos Macacos

Comente!