» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Recentemente, a Netflix vem investindo em um número considerável de animações, muitas delas de aprazível satisfação – bem acima da média em alguns casos. Nas últimas semanas, Matt Groening fechou contrato para entregar-se a mais uma de suas irreverências com (Des)Encanto, e dias depois uma homenagem ácida às ficções científicas ganhou seu espaço na forma de Final Space. Agora, a plataforma resolveu expandir ainda mais o conteúdo original voltado para um público infanto-juvenil, mas que também mantém relações com as nostálgicas produções que fizeram parte da geração millenial – incluindo os desenhos de emissoras como Nickelodeon e Cartoon Network.

O Príncipe Dragão, pelo próprio título, já emula inúmeras obras de fantasia das últimas décadas e séculos – e confesso que, antes de começar a assistir, pensei que a trama giraria em torno de um príncipe transformado na lendária criatura. Entretanto, Aaron Ehasz resolveu levar a série à conotação literal, iniciando o episódio piloto com um prólogo muito interessante: de acordo com a mitologia que criou, o mundo vivia em harmonia até que um humano corrompido pela ambição deu origem à Magia das Trevas levou as raças mágicas a banirem os homens para uma terra longínqua, separada por um rio escaldante de lava guardado por um temível dragão. Entretanto, o frágil acordo de paz acabou quando seu herdeiro, ainda dentro do ovo, foi aparentemente assassinado, marcando o início de uma guerra que ainda alcançaria proporções drásticas.

Logo nos primeiros minutos, é possível mergulhar num cosmos totalmente nostálgico e envolvente, o qual primeiro nos mostra as cartas do jogo, apresentando os cenários, os futuros embates e as questões políticas e sociais que envolvem cada um dos grupos. De um lado, temos os humanos, cujas províncias são lideradas pelo rei Harrow de Katolis (Luc Roderique), ciente da batalha que se aproxima e aconselhado pelo misterioso Viren (Jason Simpson), um mago que esconde muito mais do que aparenta. De outro, temos o avanço élfico comandado por Runaan (Jonathan Holmes), chefe do clã assassino que pretende vingar a morte do príncipe herdeiro. O roteiro e a direção combinam-se em essa fragmentação dupla que arquiteta uma atmosfera densa, complexa e, por vezes, aterrorizante por inúmeros motivos. É claro que, sendo esta a primeira temporada, os levantes catárticos ainda se contêm para melhor explicar ao público o que está acontecendo.

Seguindo uma lógica compreensível e que nem ao menos ousa tangenciar acontecimentos ocasionais, os dois mundos se cruzam nas figuras dos filhos do rei, Callum (Jack de Sena) e Ezran (Sasha Rojen), e na da jovem aprendiz elfa Rayla (Paula Burrows num sotaque escocês delicioso e inebriante). Ainda que o encontro não seja um dos melhores, seus objetivos em comum de cessar os conflitos e retornar o ovo (escondido em segredo durante todo esse tempo nas masmorras do castelo) dão força para o fortalecimento de laços de confiança e de uma amizade imprevisível. Basicamente, o time criativo vale-se muito do confronto de personalidades para fornecer ritmo e orquestrar cada um dos atos com a maestria necessária para nos satisfazer.

A ambiência nostálgica não é mera coincidência: Ehasz é responsável por uma das séries mais aclamadas da década passada – Avatar: A Lenda de Aang -, e é óbvio que usaria de vários elementos miméticos para compor sua mais nova aventura. Desde o prólogo até a concepção imagética mantêm paralelismos estruturais – por exemplo, a separação das raças e as vestimentas entre os clãs dos elementos em Avatar e em O Príncipe Dragão são praticamente as mesmas. Entretanto, aqui o showrunner vale-se de uma fórmula clássica e contínua em detrimento de acontecimentos episódicos, o que se afasta do revestimento antológico para uma progressão seriada. Não estou falando que uma opção é melhor que outra, mas sim que ambas funcionam em suas respectivas obras, ainda mais levando em conta que o intuito de cada uma é relativamente diferente.

A primeira temporada é bem mais dinâmica e profunda do que lhe damos crédito: o trio protagonista lida com inseguranças próprias, ilusões acerca de sua própria história, mentiras, descréditos e ilusões que podem ser tanto positivas quanto negativas para o fomento dos arcos. Tudo isso, ainda que peque um pouco em diálogos excessiva e desnecessariamente cômicos, é respaldado por sequências bem coreografadas de luta e de magia, contribuindo para a manutenção da atmosfera fantástica. Além disso, é notável o amadurecimento dos personagens principais à medida que se aproximam de seu destino – e como o mais otimista dos sentimentos não é páreo para o que está por vir. Tal premissa inclusive serve de cliffhanger para uma quase confirmada continuação que tem tudo para ser tão boa quanto ou melhor que a primeira iteração.

As técnicas de animação estranham à prima vista, visto que se aproximam muito de uma linguagem 2D dos videogames clássicos. Entretanto, é compreensível sua utilização para nos manter vidrados em um cosmos com traços de RPG e que permitem a conexão entre público e série. A fluidez, por muitas vezes, dá lugar a uma truncada delineação que, por mais bizarra que pareça, aumenta o clima nostálgico de modo inenarrável.

O Príncipe Dragão pode não ser perfeito, mas é certamente um produto audiovisual com gigantesco potencial. Ainda que satisfatório, penso duas vezes antes de falar que já vimos tudo o que a nova série teve a oferecer: a jornada de Rayla, Callum e Ezran acabou de começar, e diversos perigos ainda espreitam o caminho dos jovens heróis.

O Príncipe Dragão – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2018)

Criado por: Aaron Ehasz, Justin Richmond
Direção: Villads Spangsberg, Giancarlo Volpe, Meruan Salim
Roteiro: Aaron Ehasz, Justin Richmond, Devon Giehl, Iain Hendry
Elenco: Jack De Sena, Paula Burrows, Sasha Rojen, Racquel Belmonte, Jason Simpson, Jesse Inocalla, Jonathan Holmes, Luc Roderique, Adrian Petriw
Emissora: Netflix
Episódios: 09
Gênero: Animação, Fantasia, Aventura
Duração: 24 min. aprox.

Comente!