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O mito envolvendo toda a trajetória única de Santa Joana d’Arc é poderoso o suficiente para atravessar fronteiras no Cinema, apesar da primeira adaptação relevante dessa história ter surgido com A Paixão de Joana d’Arc do dinamarquês Carl Theodor Dreyer. Conhecido como um dos maiores marcos do cinema silencioso, o longa foi visto por diversos cineastas que, por sua vez, trariam novas obras inspiradas na história da heroína francesa na Batalha de Orleães.

Como a jornada, prisão, processo e morte de Joana tem relação direta com a Igreja Católica em um dos episódios mais polêmicos de sua História, era questão de tempo que Robert Bresson, cineasta minimalista francês profundamente católico, explorasse o tema. Possuindo um estilo completamente antagônico ao de Dreyer, Bresson deixou bem claro que achava toda a adaptação de grande mau-gosto. Para a infelicidade de Bresson, O Processo de Joana d’Arc  funciona muito bem em uma visita dupla a estes dois clássicos do Cinema.

Fome de Injustiça

Nessa altura de sua carreira, Bresson já havia encontrado seu estilo autoral se guiando ferrenhamente pelo minimalismo. A cada filme, sua estética ficava cada vez mais racionalizada e fria e no caso de O Processo de Joana d’Arc, o cineasta fez o impossível ao encontrar os papéis originais das audiências do processo contra Joana d’Arc e adaptou fielmente para a tela.

É bem óbvio que poucos processos, ainda mais de uma ação penal católica no século XV, rendem material verdadeiramente cinematográfico e certamente essa falta de romantização para não sacrificar o grau de realismo que Bresson desejava é prejudicial para a obra que, felizmente, é bastante curta.

Bresson está interessado apenas nos últimos instantes do processo e na execução de Joana. Como tudo segue o padrão autoral dele, as atuações se mantem frias e pouco expressivas em geral, apenas com a interprete de d’Arc (Florence Delay) arriscando um choro solene em alguns momentos mais tenebrosos do julgamento. Embora ele traga tudo em detalhes do processo, dando bastante destaque do contato da protagonista com o divino e trazer retratos invejosos e esnobes dos bispos e padres que a julgavam, não há muita tentativa em guiar o longa um pouco fora do conceito empregado.

O diretor usa os recursos cinematográficos da forma mais fria possível a ponto de congelar a decupagem do filme inteiro recorrendo a um jogo matemático e padronizado de enquadramentos – planos próximos em grande maioria, para mostrar todos os diálogos da inquisição instalada ao redor da protagonista. E como essa estrutura narrativa também não se altera, pulando de interrogatório para interrogatório, rapidamente há um esgotamento que incentiva a perda de interesse do espectador.

Para apreciar O Processo de Joana d’Arc é preciso certa dose extra de vontade do espectador e algum conhecimento prévio sobre a história da santa, além de estar bem preparado para a estética bressoniana que certamente não é famosa por agradar muita gente. Entretanto, apesar desses desafios encontrados ao longo do filme, há muito mérito por parte de Bresson na condução muito bela do clímax.

A execução de Joana d’Arc, mesmo sendo igualmente gélida, possui a beleza do tratamento divino que Bresson já havia explorado bem com Diário de um Pároco de Aldeia. Bresson consegue capturar a serenidade da moça antes depois da execução e das máculas de ter desapontado Deus até clamar por Jesus e morrer subitamente antes de sofrer o ardor do fogo. Isso, intercalando com imagens de um crucifixo envolvido pela fumaça das chamas assassinas, marcando a vergonha que a Igreja passou naquele momento se tornando totalmente assassina. Bresson também atinge outro momento de pura poesia quando mostra duas pombas voando, associando à liberdade que Joana experimentará na morte, no Reino de Deus.

Também vale destacar a forma majoritariamente ambígua que trata Joana d’Arc, mesmo sendo bastante favorável a figura dela contra a Igreja. Isso se dá a partir dos contrastes estabelecidos com os momentos de intimidade da protagonista totalmente fragilizada contra os interrogatórios nos quais sempre aparece com a resposta na ponta da língua, se mantendo irredutível e calculista em seus raciocínios, desafiando os homens que desejam as maiores perversidades para ela.

Logo, com essas duas personalidades, o diretor permite que o espectador busque inconsistências na personagem, se ela de fato falava com santos e anjos, entre outros elementos sobrenaturais, pois em certo momento Joana recorre a Lei dos homens para se salvar, não utilizando alguma orientação dos espíritos como acontecia diversas vezes antes.

Um Manifesto Moral

Longe de ser a melhor obra de Robert Bresson, mas tampouco a pior, O Processo de Joana d’Arc é, querendo ou não, uma grande experiência para ser conferida. O estilo do diretor se faz presente de modo ferrenho e quase tão inflexível quanto em O Dinheiro, mas há bons momentos repletos de poesia e redenção para a personagem histórica que claramente possuiu grande influência na vida do cineasta francês. Nessa história de injustiça bastante difícil, Bresson trouxe um dos maiores manifestos morais em sua carreira.

O Processo de Joana d’Arc (Procès de Jeanne d’Arc, França – 1962)

Direção: Robert Bresson
Roteiro: Robert Bresson
Elenco: Florence Delay, Jean-Claude Forneau, Roger Honorat, Marc Jacquier, Jean Gillibert
Gênero: Drama, Biografia
Duração: 65 minutos

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