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P.T. Barnum talvez seja um dos nomes mais conhecidos da indústria do entretenimento e do empreendimento norte-americana. Foi por causa de sua habilidade de se arriscar e de enxergar à frente de seu tempo que tornou-se o primeiro milionário dentro da vertente do show business, abandonando tudo que o refreava para tornar-se o criador de um dos circos mais bem-sucedidos da história dos Estados Unidos, o Barnum & Bailey. Em uma jornada real perscrutada por inúmeros obstáculos, transformar sua vida em um musical seria, à prima vista, o ideal para fazer jus ao seu legado e para mostrar, de forma poética e até mesmo metafórica, como alguém pode ser movido essencialmente pelo desejo de se sobressair na vida.

Ao menos essa foi a tentativa de Michael Gracey com sua estreia diretorial O Rei do Show. Através de uma clássica investida para a jornada do herói, o cineasta mergulha na vida de Barnum para realizar uma adaptação ao mesmo tempo fiel – ao menos em sua maior parte – e livre o suficiente para entregar uma perspectiva única. O único problema é que, apesar da concepção artística inegavelmente bela, o longa-metragem falha dentro de seu próprio eixo em ser original, funcionando como uma mixórdia gritante de cores e sons da cultura contemporânea e que, vez ou outra, conseguem inclinar-se em homenagens sutis para obras predecessoras e infinitamente superiores.

O musical abre de forma estupenda. Pode-se dizer, que na primeira sequência, minuciosamente bem coreografada e montada, a narrativa já mostre sua identidade: uma ode aos sonhadores, à família e à união, algo que pode até parecer clichê, mas que dialoga de modo coeso com o alegre espírito das festas de final de ano. Aqui, somos apresentados, ao som visceralmente pop de The Greatest Show, ao protagonista, interpretado por Hugh Jackman. Sua performance é envolvente do começo ao fim e, mesmo que traga algumas falhas – seja em trejeitos redundantes ou características um tanto quanto artificiais em cena -, o brilho de seu carisma sempre fala mais alto. No prólogo, também temos a honra de assistir a um mini-espetáculo composto por todos os personagens que marcaram a vida de Barnum, em planos-sequências que permitem os amplos movimentos de câmera, os quais deslizam e mesclam-se entre enquadramentos fechados e abertos, permitindo uma expansão de cenário e até mesmo dos movimentos dos atores.

O showman é a encarnação da utopia: ele se vê dotado de habilidades suficientes para ser muito além do que os outros acreditam desde criança. E não é para menos, visto que sua infância é marcada por duros acontecimentos, incluindo um amor impossível, a morte iminente do pai e a solidão, fatores que o levam a viver nas ruas até conseguir entrar para o circo e juntar dinheiro o suficiente para resgatar sua amada das garras superprotetoras da família. Tudo é orquestrado de forma apaixonante, senão quase clichê, permitindo que até mesmo o jogo de luzes – uma investida relativamente panfletária para o filme – nos leve para as comédias dramáticas dos anos 1990, como Meu Primeiro Amor.

Assim que Barnum e Charity (Michelle Williams) se desprendem das amarras sociais que os mantêm afastados, ambos embarcam numa jornada onírica onde são donos das próprias escolhas e aventuras, ainda que isso signifique abandonar a zona de conforto que núcleos mais abastados poderiam oferecer para a garota. A química entre Williams e Jackman é adorável, e os dois personagens parecem ter sido extraídos de uma das trágicas obras de William Shakespeare e açucarados com flamas de esperança inesgotáveis e que os permitem seguir em frente até mesmo nos momentos mais obscuros. Mas é claro que, como toda odisseia romântica, essa felicidade tem um prazo de validade que torna-se cada vez mais perigoso conforme as ambições do empreendedor aumentam.

Em outras palavras, a artística personalidade do protagonista pode se correlacionar com a alma de inúmeros dramaturgos, cineastas, pintores e escritores que desejam colocar sua marca no mundo. Entretanto, como fica claro após a metade do filme, ele nunca realmente conheceu o gosto do amor pessoal; toda a sua vontade é movida pelo reconhecimento público e pela ascensão social, ainda que os negue com todas as forças. Eventualmente, ele se torna aquilo que sempre repudiou – uma pessoa elitizada e superficial que condena o que foge aos padrões aceitáveis de boa convivência (ou seja, seus próprios colegas de trabalho, as “aberrações” que outrora resolveu abraçar como parte de sua família) e prefere a companhia de seus iguais que o igualitarismo.

Barnum abre o seu circo dos horrores a priori como um museu de cera cujo enfadonho fracasso o leva a investir em algo mais exótico, como ele mesmo diz. Assim, ele passa a recrutar pessoas únicas para comporem seu espetáculo, como o Homem Mais Alto do Mundo, a Mulher Barbada, o Menino Lobo, os Trapezistas e outros. Todo esse pano de fundo já foi visto, por exemplo, na quarta temporada de American Horror Story, mas ao contrário da antologia de terror, que prezou pelos viscerais bastidores dessas apresentações, O Rei do Show prefere engolfar-se em uma visão romantizada em que cada um de seus participantes é adepto a uma ideologia humanista e compreensiva uns com os outros. Isso funciona em determinados momentos, principalmente se levarmos em conta a natureza divina do musical; porém, em sua totalidade, não permite que o público crie uma conexão profunda o suficiente com os personagens, já que eles são perfeitos dentro de seus próprios erros.

O romance proibido permanece como um tapa-buraco para a trama. Mais uma vez, sua necessidade é dispensável, mas a construção dos números musicais é brilhante e muito bem arquitetada. Com movimentos quase surreais, tanto de seus participantes quanto de câmera, o espaço claustrofóbico é transformado em um picadeiro completo e sem limites, permitindo que qualquer um assistindo entre numa sincronia vertiginosa. Aqui, faço menção para o relacionamento que começa a se firmar entre Phillip Carlyle (Zac Efron), dramaturgo que abandona seu nome e seus privilégios para dar uma chance ao circo, e a contorcionista Anne Wheeler, cuja encarnação feita por Zendaya é uma das grandes e emocionantes surpresas do longa. O ápice desse amor emerge na balada pop Rewrite the Stars, rendição que inicia-se com o classicismo musical e que, numa virada brusca, resolve abraçar uma arquitetura essencialmente marcada pelo teclado e pela bateria e que, infelizmente, tira seu potencial.

Apesar da história fechada criada por Jenny Bicks e Bill Condon, é a trilha sonora de Benj Pasek e Justin Paul que pecam mais dentro do próprio escopo narrativo. Estamos falando aqui de uma sociedade mergulhada no conservadorismo e nas crescentes disputas de raça de meados do século XIX, no qual o progresso era inimigo da comodidade. A escolha de manter todas as faixas em um mesmo tom, variando no máximo da lentidão de um solilóquio apaixonado para um hino de autoaceitação estrondoso, é destoante e diversas vezes fala mais alto que a beleza de suas identidades imagéticas. Talvez a opção por elementos mais rústicos e que remontassem às crescentes indústrias e ao sentimento de angústia do homem moderno encaixassem de forma menos forçada para a história de Barnum – apesar de podermos compreender que, como um homem à frente de seu tempo, sua marca é reconhecida até os dias de hoje.

Um dos pontos mais altos é, sem sombra dúvida, a entrada de Rebecca Ferguson como a cantora de ópera Jenny Lind, a qual representa uma mudança drástica na vida do showman. Primeiramente, Jenny parece ter sido extraída de uma pintura renascentista, adornada com uma perfeição que chega a assustar. Os delicados traços fundem-se ao seu poderoso alcance vocal e entram em uma controvérsia muito bem colocada envolvendo traição, tabloides e decepções. Ela também é a principal responsável, ainda que de modo indireto, da irreversível transformação do protagonista: se outrora Barnum despontava com suas caracterizações coloridas em meio a uma massa amorfa e acinzentada, ele gradativamente mistura-se àquilo que sempre repudiou, deixando um vazio na vida da mulher e das filhas, as quais permanecem engolfadas em um mundo vibrante e alegra, ainda que sem a presença do pai.

O filme é teatral. Sua estética, desde a composição dos cenários até a escolhas de enquadramento, relembram os ballets russos clássicos, firmados ante uma estética expressionista e grandiosa, com paisagens marcantes e construções inalcançáveis, e personagens ainda mais memoráveis e que tinham o poder de sobressair-se para o espectador. O roteiro, porém, fica a desejar e muito: ele é satisfatório para aqueles que estão acostumados a histórias que não ousam e que permanecem na “zona de conforto” – um afronte até mesmo aos ideais do circense personagem. Tudo, desde meados do primeiro ato até a conclusão final, é previsível; não há pontas soltas, mas também não há viradas impressionantes, e sim uma paixão pelo ritmo frenético que nos impede de degustar o potencial que oferece.

O Rei do Show não é o melhor espetáculo do mundo. Ainda que faça referências a obras como Moulin Rouge ou Chicago, suas irônicas limitações impedem que alcance de forma concisa o que promete. Em tudo o mais, ele é fofo – e ainda que não seja totalmente satisfatória, é uma escolha interessante para aqueles que procuram por um entretenimento agradável para o final do ano.

O Rei do Show (The Greatest Showman, EUA – 2017)

Direção: Michael Gracey
Roteiro: Jenny Bicks, Bill Condon
Elenco: Hugh Jackman, Michelle Williams, Zac Efron, Rebecca Ferguson, Zendaya, Austyn Johnson, Cameron Seely, Keala Settle, Sam Humphrey, Yahya Abdul-Mateen II
Gênero: Drama, Musical
Duração: 100 min