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Já no início de sua carreira cinematográfica, Yorgos Lanthimos, através de seu terceiro longa-metragem, Dente Canino, começou a ganhar a atenção do público internacional. De origem grega, essa sua obra foi indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e esse devido reconhecimento, naturalmente, ajudou a colocar O Lagosta, seu imperdível filme, lançado em 2015, no mapa – ainda que estejamos falando de uma presença bem limitada no circuito, dominado, principalmente, por blockbusters e afins.

Desde então, já se tornara notável a identidade do diretor, que constrói mundos e personagens pautados na idiossincrasia, com peculiaridades, estranhezas, visíveis, como se a relação entre um ser humano e outro fosse algo extremamente desconfortável – questão que ele chega a utilizar como cerne do já citado O Lagosta. O mesmo pode ser observado em O Sacrifício do Cervo Sagrado, obra baseada na peça Ifigénia em Áulide, de Eurípedes, que cria uma tensa atmosfera, que chega a ser aterrorizante, mas ocultando, por boa parte do filme, o que, de fato, há de errado.

É esse incômodo, de não saber exatamente o que está fora do lugar, que nos preenche durante os primeiros trechos desse novo longa do diretor. Acompanhamos Steven (Colin Farrell), um cardiologista, enquanto ele nutre uma estranha relação de paternidade com o filho, Martin (Barry Keoghan), de um de seus pacientes que morreu durante uma cirurgia. O subtexto da culpa do médico, de ter perdido a vida do homem, está ali, mas nunca é trazido à tona – ele diz não se julgar culpado, mas por qual outra razão manteria um contato tão próximo com o filho do paciente falecido?

O texto de Lanthimos e Efthymis Filippou brinca com essa dúvida e com a própria estranheza do modo de falar dos personagens – a já citada marca do diretor – para passar a impressão de que ambos estão tendo um caso. De fato, o desenvolvimento da trama busca criar essa sensação ao primeiro introduzir os dois e, em seguida, a família do médico. Assim sendo, antes de propriamente nos mostrar qual é a problemática central da obra, o texto nos mantém presos através desse ponto, apenas para subverter toda essa construção mais adiante, quando descobrimos que a família de Steven é atingida por uma estranha condição que os deixa paralisados nas pernas e que Martin, provavelmente, tem algo a ver com isso.

Já no meio do filme podemos ter a ideia do que irá acontecer – o próprio título deixa isso bem claro. Mas Lanthimos não constrói seu filme através de grandes plot twists e sim pela já citada tensão, que segue de forma crescente, tomando conta do espectador. A grande pergunta que nos acompanha não é “o que acontecerá” e sim “como acontecerá”, enquanto a agonia dos personagens centrais aumenta cada vez mais.
Interessante é observar como o diretor nos mantém sempre no estado de observador – ele quer que mantenhamos a devida distância dessa história e consegue através dos constantes planos distantes, alguns bastante abertos, como se não quisesse que nos aproximemos demais desses personagens. Isso, claro, contribui para a sensação de estranheza que permeia todo o longa e, desde cedo, nos deixa com aquela pulga atrás da orelha – a já falada sensação de ter algo errado nessa história.

Tal escolha na decupagem, claro, pode refletir o caráter da obra – adaptada de uma peça. Mantendo a câmera mais distante dos personagens a linguagem assume um caráter até mais teatral – não, não há teatralidade por si só no filme, mas sim uma visão mais clara daquelas pessoas como personagens, como se um pouco do ilusionismo do cinema fosse embora. Ironicamente, ao mesmo tempo, tudo se torna mais real, nos pegamos como figurantes, meramente observando o que se passa ali – assim sendo, os personagens ganham vida, apesar de suas peculiaridades.

Claro que toda essa bastante diferente construção deve muito ao trabalho realizado pelos atores centrais. Colin Farrell, que já trabalhou com o diretor em O Lagosta, não foge muito do que vimos nesse outro filme. Ele é praticamente robótico, como estudasse cada palavra e, por incrível que pareça, isso não é um defeito – muito pelo contrário. Farrell, mesmo com as idiossincrasias de seu personagem passa a impressão de ser, de fato, daquele jeito – não há artificialidade em sua representação, trata-se apenas de um personagem estranho, algo que se estende para sua esposa, vivida por Nicole Kidman, no segundo recente trabalho conjunto com Farrell (ambos atuaram em O Estranho que Nós Amamos).

Essa proposital ausência de qualquer calor humano, de química não só entre o casal, mas como entre qualquer indivíduo do longa, dialoga diretamente com a própria “escolha de Sofia” que vai tomando conta da trama. Voltamos para o almejado afastamento nosso dessas pessoas, que possibilita que enxerguemos tudo como uma grande ironia, captando todo o maldoso sarcasmo do texto de Lanthimos e Filippou, que, aliás, chega a brincar até com o nome do protagonista, Steven, referenciando claramente a expressão “even-steven”, que diz respeito à igualdade, “estar quites” – ponto central do roteiro, a partir do momento que o grande problema da história é revelado.

Não podemos esquecer, também, da perturbadora interpretação de Barry Keoghan como Martin, que desde cedo nos faz desconfiar do relacionamento entre ele e o médico. Keoghan dá vida a um perfeito psicopata, que, mesmo na sua simplicidade, provoca medo no espectador. Aliás, pontuais efeitos sonoros, não diegéticos, contribuem para nosso desconforto, como se tudo alertasse para o perigo iminente, outra marca de Lanthimos, que utiliza o som quase como um personagem externo, que aparece pontualmente, na hora certa.

Podemos dizer, no entanto, que parte da força desse intrincado cenário acaba indo embora em razão da duração do filme, que é mais longo do que deveria ser. Determinados trechos claramente poderiam ser encurtados ou cortados plenamente, visto que, alguns deles, meramente repetem o que já sabemos. Toda a maldosa excentricidade da trama não deixa de divertir, mas funcionaria muito melhor com alguns minutos a menos, evitando de provocar um nítido cansaço no espectador.

Ainda assim, O Sacrifício do Cervo Sagrado não deixa de ser mais um grande acerto de seu diretor, que, mais uma vez, nos entrega uma história diferente de tudo com o que estamos acostumados. Verdadeiramente angustiante, esse longa-metragem de Yorgos Lanthimos demonstra sua forte identidade, enquanto somos mergulhados nesse mundo tão carente de calor humano e que, ironicamente, lida justamente com a perda. Sarcástico e perturbador, temos mais um filme do diretor que merece nossa atenção.

O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer – Reino Unido / Irlanda / EUA, 2017)

Direção: Yorgos Lanthimos
Roteiro: Yorgos Lanthimos, Efthymis Filippou
Elenco: Colin Farrell, Barry Keoghan, Nicole Kidman, Barry G. Bernson, Herb Caillouet, Bill Camp, Raffey Cassidy, Denise Dal Vera
Gênero: Drama
Duração: 121 min.

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