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Diferente de outros gêneros narrativos, a ficção fantástica é, sem sombra de dúvida, uma das mais exploradas pelos artistas – e não me refiro apenas aqueles da contemporaneidade, mas sim da História. E por incrível que pareça, o motivo é simples: ela talvez seja uma das poucas a trazer consigo uma infinidade de possibilidades a serem exploradas, até mais que o próprio sci-fi. Enquanto outras vertentes restringem-se a se manterem numa realidade palpável, essa verossimilhança é colocada em cheque pela fusão de inúmeras mitologias, pela criação de linguagens complexas, todas parte de um universo vasto e passível de exploração interminável.

Em 1937, o escritor inglês J.R.R. Tolkien terminava as últimas lapidações de um desses mundos fantásticos, conhecidos como Terra-Média. Tal estruturação, dotada de centenas de raças, batalhas, reinos e criaturas inimagináveis, serviria de base para um projeto no qual trabalharia por doze anos, concluindo-o poucos anos após o final da II Guerra Mundial. Apesar do pouco reconhecimento que recebeu à época, o importante legado que deixou para os futuros artistas é inegável e, com a virada do século, chegou às mãos de um até então não tão conhecido cineasta, que envolvera-se com longas controversos como Fome Animal e o esquecível Almas Gêmeas. O grande breakout de Peter Jackson viria apenas em 2001, quando ousou abraçar os romances de Tolkien e adaptá-los para as telonas, num resultado que quebraria inúmeros paradigmas da indústria de entretenimento.

É muito difícil encontrar alguém que não conheça ou pelo menos tenha ouvido falar de O Senhor dos Anéis. A franquia fílmica é uma das mais aclamadas da história e beira a perfeição – e não é por presunção ou superestimação. A concepção de cada um dos longas é tão bem feita que nos envolve do início ao fim nos mais diferentes níveis de catarse, ainda que tragam uma duração assustadora a princípio – apenas a primeira iteração tem três horas (e não estamos falando da versão estendida). Entretanto, Jackson, que fica responsável pelo roteiro ao lado de Fran Walsh e Philippa Boyens, arquiteta um trabalho incrível, mostrando de que modo uma boa adaptação deve ser feita. Ainda que tenha obrigatoriamente cortado parte dos detalhes fornecidos pelo romancista, cada uma das sequências consegue capturar a essência dos personagens, a atmosfera que se deseja criar e a grandiosidade do que presenciamos. Em poucas palavras, essa talvez seja a maior obra épica já realizada desde Ben-Hur.

O pontapé inicial do filme já é assustador e envolvente, ao mesmo tempo. Cate Blanchett, que aparece um pouco mais para a frente como a mística Galadriel, narra de modo sombrio a breve história acerca do Um Anel, forjado pelas mãos da figura mais temida de todas, Sauron (Sala Baker), governante das terras de Mordor e que caiu em mãos humanas após sua derrota. Quase três milênios depois, o maligno objeto retorna para as mãos da mais improvável das raças da Terra-Média, o pequeno hobbit Frodo (Elijah Wood), o qual não tem a mínima ideia de que está prestes a embarcar na última e mais perigosa jornada de sua vida.

Em uma visão superficial, A Sociedade do Anel, como foi chamada a primeira iteração seguindo a cronologia dos livros, é o princípio da tradução máxima da jornada do herói. A fórmula experimentada e comprovada pelo lendário Joseph Campbell é lida e relida até hoje por basicamente todas obras audiovisuais e literárias da esfera artística contemporânea, seja emulando-a com sutilezas dramáticas ou escancarando-a para o público-alvo. Aqui, Jackson escolhe a segunda opção sem saturá-la: é possível observar cada um dos passos descritos por Campbell, desde o Mundo Comum, passando pelo Limiar e chegando até os primeiros obstáculos. A narrativa não vê pressa em acontecer e aproveita a complexidade dos diversos personagens para criar laços que vão além do panorama geral e que permitem brincadeiras cênicas com subtramas importantes e – por que não? – muito empolgantes.

Frodo é a representação do herói, o portador do Um Anel que deve levá-lo em segurança para Valfenda, lar dos elfos, impedindo que caia nas mãos erradas. Não conseguimos entender de cara o porquê dele ser escolhido para uma missão tão perigosa, mas isso na verdade não importa; em um mundo sobrenatural, o acaso é na verdade a força-motriz de uma boa aventura. Como podemos esperar, ele não seguirá sozinho nessa jornada. Seus amigos e companheiros guerreiros, também hobbits, são designados a acompanhá-lo: Sam (Sean Astin), o arquétipo do confidente e ajudante, e Merry (Dominic Monaghan) e Pippin (Billy Boyd), responsáveis por amenizar a tensa atmosfera que se constrói ao longe com suas irreverências fabulescas e suas frases cômicas. O quarteto é auxiliado por um guardião mítico, lendário, que aqui insurge na figura de Gandalf, o Cinzento, interpretado pelo icônico e irreconhecível Ian McKellen em um de seus melhores papéis – para aqueles que não se lembram, McKellen havia acabado de participar de outra grande franquia um ano atrás, X-Men.

Desde os diálogos bem incrementados e caprichosos na medida certa até a dinâmica do elenco, tudo flui de modo natural e interessante. A jornada não é fácil, como podemos imaginar, e já mostra seus ares mortais com a chegada dos Cavaleiros Negros, reis caídos a serviço de Sauron que desejam recuperar o anel e matar quem o estiver carregando. Aparentemente, as forças das trevas precisam do objeto para ressuscitar seu mestre – e até mesmo supostos aliados se convertem. Saruman (encarnado pela presença aplaudível de Christopher Lee), antigo companheiro de Gandalf, cede a uma presença maior e à necessidade de se proteger e até mesmo o mantém prisioneiro para impedi-lo de ajudar os hobbits.

Outras figuras cruzam seu caminho e contribuem para deixar o ritmo ainda mais orgânico e dinâmico. Seja na presença não tão bem explorada de Legolas (Orlando Bloom), mas que seria corrigida no próximo filme, ou na insurgência de Aragorn (Viggo Mortensen), um guerreiro que mais se assemelha a uma figura paternal dos pequenos ao lado de Boromir (Sean Bean), cada um desenrola um papel importante na epopeia. Jackson alcança um sucesso inenarrável ao tratar dos mais diversos temas, buscando inspiração direta de Tolkien. Simbologias para as aspirações e condições humanas em tempos de crise são encontradas em todo lugar, bem como respaldos deterministas que explicam a transformação irreversível sofrida pelos protagonistas e que, eventualmente, são a principal característica que nos une a eles.

Dentro de uma produção tão épica quanto essa, a narrativa não se sustentaria sozinha. Não tiro mérito algum do roteiro ou do romance original, mas abro uma discussão aqui que reflete a importância imagética e sonora – afinal, estamos falando de um filme, um produto que mexe com todas as sensações do indivíduo. A harmonização é encontrada em diversos momentos, principalmente na combinação on point da direção de arte com a fotografia: cada um dos microcosmos da Terra-Média é dotado de uma característica própria que, apesar de redundantes – Valfenda é baseada numa paleta iluminada enquanto Mordor cede à escuridão constante -, funcionam. A maestria com a qual o jogo de luzes é tratado é inegável, principalmente oscilando entre algo mais concreto e onírico (para o bem ou para o mal).

As técnicas também não deixam a desejar e refletem um novo jeito de se contar uma narrativa épica. Jackson não se restringe a uma investida panfletária, que parte do princípio geral-campo-contracampo, e sim expande todo seu repertório para planos-sequências maravilhosos, cortes ritmados nas cenas de ação e um paralelismo inacreditável que prevê possíveis furos ou refutações de roteiro. Os enquadramentos fogem do convencionalismo e resolvem orquestrar distorções propositais que abrem margem para a pluralidade de perspectivas e significâncias dentro de um mesmo contexto – principalmente no tocante às conversas entre humanos, elfos e hobbits.

A Sociedade do Anel é o princípio perfeito para um fim ainda mais icônico. Definitivamente, o diretor mostrou todo o seu talento no que podemos considerar um dos melhores filmes da História, e manteve-se fiel tanto à obra original quanto à sua identidade própria para dar vida a um dos universos mais extensos e envolventes já criados pelo ser humano.

O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel (The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, EUA, Nova Zelândia – 2001)

Direção: Peter Jackson
Roteiro: Peter Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens, baseado no romance de J.R.R. Tolkien
Elenco: Elijah Wood, Cate Blanchett, Ian McKellen, Christopher Lee, Viggo Mortensen, Sean Bean, Orlando Bloom, Dominic Monaghan, Sean Astin, Billy Boyd
Gênero: Aventura, Fantasia, Ação
Duração: 178 min.

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