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Vez ou outra, um trecho essencial de O Sucesso a Qualquer Preço viraliza nas redes ou em cursos de empreendedorismo. Fora do contexto crítico da escrita repleta de sarcasmo de David Mamet, vemos a cena icônica do discurso (des)motivacional de Alec Baldwin para uma porção de vendedores fracassados que precisam mudar de atitude para não serem demitidos até o final da semana.

Enquanto diversos empreendedores da vida real buscam inspiração no discurso inescrupuloso de Baldwin sem compreender exatamente a moral que o filme evoca, é um fato completo de que Mamet provavelmente realize a melhor adaptação de uma das suas impressionantes peças teatrais. Confiando a direção a James Foley, o famoso roteirista conquistaria mais prestígio ao emplacar esse relativo clássico que sempre consegue atrair a atenção de desavisados na internet.

Homens Desesperados

Mamet adapta sua peça original nos mesmos moldes como havia feito com American Buffalo, evitando desviar excessivamente do material original, ainda apoiando todo o espaço temporal no decorrer de um dia de trabalho de alguns vendedores decadentes. Com o escritório comprado por uma empresa maior e muito mais agressiva contra resultados negativos, Rick Roma (Al Pacino), Shelley Levene (Jack Lemmon), George Aaranow (Alan Arkin) e Dave Moss (Ed Harris) são intimados pelo representante da empresa a gerarem melhores resultados ou acabarão demitidos até o fim da semana.

Para motivá-los, entra em disputa um prêmio para quem vender mais durante a semana, mas como os empregados estão todos revoltados pelo tratamento desumano, passam suas horas restantes lidando com o desafio. E também considerando meios escusos e indignos para driblar o problema, já que os melhores contatos para as vendas estão trancados na sala do chefe John Williamson (Kevin Spacey).

Tradicionalmente, longas que trazem peças para as telas, geralmente sofrem da ilusão de não serem visualmente interessantes ou até mesmo cinematográficos, já que a abrangência da ação é restrita em tempo, espaço e situações. O conflito central tem um peso tão gigantesco nos personagens que permitem a revelação parcial sobre quem realmente são. De muitas maneiras, portanto, O Sucesso a Qualquer Preço é um filme que exige a completa atenção do espectador ao diálogo, já que toda a encenação é firmada através da verborragia conflituosa e da intensidade da performance do elenco fenomenal.

O tema em si próprio já é bastante desafiador, pois Mamet trata da vida repleta de reviravoltas entre vantagens, desvantagens e predação que os vendedores sofrem em questão de minutos. Logo, apesar das semelhanças indiscutíveis por evocar a memória do exemplar Doze Homens e Uma Sentença, um dos maiores clássicos do Cinema por Sidney Lumet, Mamett cria uma história mais intrincada por se tratar de um drama realista bastante pessoal sem se apoiar com firmeza em um acontecimento crucial de fácil guião moral como um assassinato ou um caso de traição em um casamento.

Com personagens desconhecidos e o conflito pela sustentabilidade do emprego, os diálogos realmente precisam ser extraordinários. Felizmente, o que Mamet realiza aqui é de um nível tão estupendo que até mesmo Aaron Sorkin teria orgulho. Na divisão tripla da jornada dos vendedores, cada núcleo comporta um gênero específico: uma tragicomédia, um drama e, por fim, o foco narrativo da lábia dos vendedores para concretizar vendas.

A tragicomédia centrada em Moss e Aaronow certamente é a menos eficaz ou interessante devido a repetição intensa de argumentos e reclamações que os dois trocam entre si elaborando críticas por vezes justas enquanto outras apenas justificam a preguiça de ambos no trabalho. A desmotivação que os personagens sofrem em geral funciona como um panorama analítico de Mamet sobre as próprias condições do mercado ao se “rejuvenescer” enquanto funcionários mais velhos e experientes são escanteados e submetidos a reformas para compreender novos modelos de negócios nos quais os jovens são especializados e, consequentemente, melhores pagos.

Mamet basicamente prenunciou uma realidade que afeta muitos trabalhadores hoje em 1992. Isso vem a tona com o núcleo solitário de Shelley Levene, outrora o melhor vendedor da companhia, hoje não mais que um fracassado qualquer com pendencias bancárias problemáticas envolvendo pagamentos da clínica na qual sua filha é internada. Pela performance vulnerável de Jack Lemmon, em primeiro momento este é o personagem mais próximo do espectador por gerar grande empatia – isso é subvertido de modo brilhante no terceiro ato quando o vendedor consegue fechar um loteamento valioso para a companhia.

Seu drama palpável mostra a plena decadência do tratamento do mercado com seus funcionários mais leais, além de apresentar algumas motivações mais genuínas para Shelley apelar a métodos escusos para conseguir vantagens no trabalho. Ele já é apresentado como corrupto – todos os personagens são, mas como seu drama é bem mais palpável e menos abstrato, a balança pende favoravelmente.

Já com Roma, o melhor vendedor do escritório, Mamet elabora a persuasão cáustica e inescrupulosa da profissão em empurrar produtos e loteamentos de qualidade duvidosa para pessoas de índole, muitas vezes, inocente, apenas seduzidas pelas propostas deliciosas da prospecção do lucro fácil. Novamente, os diálogos de Mamet são fascinantes por evocar questionamentos de persuasão muito válidos, além do próprio Al Pacino oferecer outro espetáculo em cena com seu estilo despojado e meio desinteressado enquanto analisa friamente o cliente, sua presa.

Novidades rolam soltas ao decorrer das consequências da reviravolta principal da narrativa com mais carga de texto em estruturar críticas ao exibir a verdadeira natureza de todos os homens que, apesar de vulneráveis e derrotados, ainda são lobos disfarçados de ovelhas. No fel da balança, todos são condenáveis por traírem quaisquer pessoas que os orbitem. Levar vantagem é a vitória, independente do quão cruel ela possa ser.

Medidas Desesperadoras

Apesar do texto e do elenco sustentarem O Sucesso a Qualquer Preço com firmeza e bastante fluidez, há de se levar em conta o empenho de James Foley em trabalhar excessivamente com a montagem para dinamizar os diálogos – principalmente quando acompanhamos Moss e Aaronow. Sem remover a característica primordial de um longa centrado em uma peça de teatro, o cineasta aplica longos diálogos apenas com planos abertos e bastante duradouros nos quais a marcação da movimentação do ator, apesar de totalmente natural, remete a vista em um palco teatral.

Esforços cinematográficos de atmosfera também são muito empregados na primeira metade concentrada na derrocada do grupo deprimido. Isso é refletido pela abundancia da chuva incessante, além do tratamento fotográfico de iluminação mais sombria com contrastes poderosos entre cores azuladas e avermelhadas denotando a divisão moral suicida que alguns deles enfrentam no decorrer da jornada.

Dinamizando a montagem entre cortes rápidos ou de junção perfeita para a movimentação dos atores, além de inserir closes em momentos cruciais de ápice das atuações do elenco, Foley intensifica as cenas mais importantes justamente com sutilezas mínimas a ponto de conseguir equilibrar o caos quando cinco personagens estão disparando bravatas ao mesmo tempo enquanto dois conflitos importantes acontecem.

Apesar de não ser visualmente poderoso, O Sucesso a Qualquer Preço traz um dinamismo raramente visto em filmes diretamente adaptados de peças com poucos cenários. É evidente que se o drama centrado em conflitos majoritários realistas dessa natureza, envolvendo toda a complexidade moral da fabricação das relações comerciais humanas, será difícil que Mamet lhe conquiste com seus diálogos primorosos caso não haja interesse do espectador.

Assim como seus personagens, o roteirista tenta desesperadamente te vender um filme. Mas no caso, a vantagem nossa é que certamente saímos com um lucro bastante positivo no repertório.

O Sucesso a Qualquer Preço (Glengarry Glen Ross, EUA – 1992)

Direção: James Foley
Roteiro: David Mamet
Elenco: Al Pacino, Alan Arkin, Jack Lemmon, Ed Harris, Alec Baldwin, Kevin Spacey, Jonathan Pryce
Gênero: Drama, Crime
Duração: 100 minutos.

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