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Era comum, há um tempo atrás, ouvirmos alguma história real que nos espantasse, e imediatamente provocar uma reação verbal do tipo: “isso daria um filme”. O que aconteceu com Merhan Karimi Nasseri, um imigrante iraniano que se viu forçado a “habitar” o aeroporto Charles de Gaulle – na região de Paris – após ter seus documentos roubados, uma situação que o deixaria confinado ali pelo período inacreditável de dezoito anos, certamente nos faz pensar imediatamente que tal história daria um filme. Essa deve ter sido a reação de Steven Spielberg, que se inspirou na história de Nasseri para uma de suas obras mais dóceis e injustiçadas: O Terminal, que representa também um raro tipo de filme que Hollywood já não produz com tanta frequência.

Escrito por Sacha Gervasi e Jeff Nathanson, a partir do argumento do versátil Andrew Niccol, a trama nos apresenta Viktor Navorski (Tom Hanks), um turista da nação fictícia da Kravózia, que acaba de aterrissar no aeroporto JFK em Nova York. Porém, enquanto no avião, seu país passa por uma súbita revolução que derruba o governo imposto, fazendo com que os documentos de Viktor sejam inválidos em sua chegada aos EUA – mas, também, impossibilitando seu retorno a um país que tecnicamente não existe mais. Dessa forma, Viktor acaba preso dentro do terminal do aeroporto, e diferentes histórias e pessoas se desenrolam e cruzam seu caminho durante a longa estadia.

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É uma premissa perfeita para que o roteiro de Gervasi e Nathanson possa explorar a correria e diversidade de um aeroporto, afinal, quem já pisou em qualquer um sabe como as mais bizarras e distintas narrativas se desenrolam em paralelo. Não só os turistas, mas também todos os diferentes profissionais naquele ambiente, como seguranças, comissários de bordo, lojistas e operadores, que ganham a maior parte do destaque no texto da dupla. É divertido ver como a relação de Viktor com essas pessoas vai se tornando mais forte com o passar do tempo, na medida em que o excêntrico estrangeiro vai se tornando parte daquele local, da mesma forma como o faxineiro vivido por Kumar Pallana ou o simpático motorista interpretado por Diego Luna. Ambos, assim como Viktor, imigrantes que também acabam presos àquele local, especialmente Rajan por estar ali em uma condição ilegal.

Parece a coisa mais cabeça do mundo, mas a verdade é que esse é o roteiro mais água com açúcar que Spielberg já dirigiu. Todos esses personagens ganham núcleos e interações que beiram o absurdo, como um bobinho casamento baseado em Star Trek, que acaba ocorrendo em pleno terminal, mas isso nunca foge da proposta inicial do filme em oferecer uma comédia leve e romântica. Mesmo quando o autoritário gerente vivido por Stanley Tucci explica um evento político tão complexo e incomum, ele o faz com uma maçã e um saco de batatas; até mesmo pela dificuldade de Viktor com o idioma. É uma linha muito tênue entre o brega e o romântico pela qual Spielberg caminha (assim como na vida real, convenhamos), algo que fica claro no núcleo amoroso com a aeromoça interpretada por Catherine Zeta-Jones, que rende situações inspiradas, como um jantar à luz de velas em frente a pista de aterrissagem, mas também diálogos rasos e uma personagem igualmente desinteressante; é sempre mais empolgante ver a ansiedade de Viktor para encontrá-la, e o apoio de seus amigos, do que os encontros propriamente ditos.

O que faz O Terminal funcionar, porém, é seu implacável senso de imersão. A forma como Spielberg e sua equipe imaginam os cenários, sempre dentro do JFK, passa a imediata sensação de estarmos ali. A começar pelo fabuloso design de produção de Alex McDowell, que recria porções inteiras do terminal do JFK em estúdio; por razões óbvias, seria impossível algum tipo de gravação em um aeroporto, especialmente se considerarmos que a produção do filme vinha apenas alguns anos após os atentados do 11 de Setembro. McDowell acerta nos detalhes, na fidelidade das marcas e em toda a escala daquele ambiente – desde o terminal até as garagens, cozinhas e departamentos internos – que em momento algum transparece como um estúdio. As luzes mais frias do fotógrafo Janusz Kaminski (esse talvez seja o último filme “clean” de Spielberg, que embarcaria no grão pesado no ano seguinte com Munique) também conferem um clima apropriado e autêntico para a atmosfera, que ainda é bem complementada sonoramente pelo excepcional trabalho de mixagem, principalmente ao ouvirmos as diversas conversas paralelas, anúncios de voos em megafones e os carimbos do escritório de Dolores Torres (Zoe Saldana). Uma experiência surpreendentemente imersiva.

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Sempre hábil em escolher seus elencos, é bacana assistir a O Terminal hoje, e ver a quantidade de rostos que viriam a estourar em papéis coadjuvantes. Antes de chegarmos a eles, obviamente temos Tom Hanks, se divertindo com um sotaque cartunesco e uma performance ingênua de um indivíduo confuso, mas cheio de boas intenções; e ideias, como fica bem evidenciado pelo ator ao observar o ciclo de devolução dos carrinhos no terminal, encontrando ali uma forma de obter alguma renda para se alimentar. Mesmo que seja uma personagem rasa, Catherine Zeta-Jones é capaz de oferecer seu carisma habitual, mantendo sua postura simpática até mesmo quando a personagem está agindo do modo oposto. Stanley Tucci também consegue criar um bom antagonista com seu Frank Dixon, em uma postura bem mais séria do que aquela mais alegre que se tornaria seu cartão de visitas em obras como O Diabo Veste Prada e a saga Jogos Vorazes – mas nada assustador como sua virada em Um Olhar do Paraíso. E que ironia do destino que Zoe Saldana interprete uma fanática por Star Trek, visto que ela estrelaria no reboot de J.J. Abrams alguns anos depois. Ainda nas estrelas, o ótimo Diego Luna também merece destaque, e uma década depois estaria na concorrência intergalática com Rogue One: Uma História Star Wars.

O Terminal é um filme adorável. Uma das obras mais despretensiosas de Steven Spielberg, e uma também onde sua intenção principal parece ser o entretenimento e a diversão, oferecendo um olhar caloroso para uma história onde muitos poderiam enxergar apenas a tristeza e o desespero.

O Terminal (The Terminal – EUA, 2004)

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Sacha Gervasi, Jeff Nathanson
Elenco: Tom Hanks, Catherine Zeta-Jones, Stanley Tucci, Chi McBride, Diego Luna, Barry Shabaka Henley, Kumar Pallana, Zoe Saldana, Bob Morrisey
Gênero: Drama, Comédia
Duração: 128 min.

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