nota-3,5

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Seguindo a identidade narrativa apresentada a nós no primeiro episódio deste novo ano, Dark Waters opta por revelar a história não-contada de Hook (Colin O’Donoghue), cujas aventuras em alto-mar englobam os incidentes incitantes para várias subtramas, incluindo sua jornada incansável atrás de Rumplestiltskin, o Senhor das Trevas. A premissa, apesar de interessante, tinha tudo para dar errado – afinal, a presença de mais personagens desconhecidos poderia saturar e cair nos deslizes das últimas temporadas (e até do último episódio). Felizmente, não foi isso que aconteceu.

Aqui, Hook é raptado de forma relativamente arrítmica por um marujo desconhecido e levado vinte mil léguas abaixo do mar. Já sabemos que figura conhecida veremos aqui – uma das criações mais famosas da literatura mundial: o capitão do Náutilus, Nemo, da obra Vinte Mil Léguas Submarinas (escrito por Júlio Verne). Confesso que sua presença destoa da essência da série, principalmente pelo fato da Floresta Encantada e reinos adjacentes não possuírem uma tecnologia avançada. Mas até aí, Frankenstein e O Médico e o Monstro tiveram seus arcos em Once Upon a Time e harmonizaram com a transgressão narrativa própria da série. É notável aqui – e não posso deixar de mencionar esse crédito – a ambição e a aventura em territórios desconhecidos. Sabíamos que essa ideia era uma faca de dois gumes e que, caso o desenvolvimento não fosse muito bem pensado, poderia cair na mesma ruína das últimas duas temporadas.

Hook descobre que Nemo o havia capturado para tentar abrir seus olhos e mostrar que a vingança nem sempre é um caminho agradável. Afinal, a eterna busca pelo Senhor das Trevas levara o capitão para perigos inimagináveis e para terras mortais – como a Terra do Nunca. Mas vamos pensar: Hook perdera o pai, a mãe, o irmão e Milah (Rachel Shelley), o amor de sua vida. Todos esses momentos foram cruciais para a construção de sua personalidade e para o estabelecimento de suas motivações. Ao contrário da representação arquetípica que temos dos heróis, ele não suportou o sofrimento e canalizou os sentimentos negativos para um dos indivíduos responsáveis pela sua dor – Rumple. Ele escolheu se martirizar eternamente, mas estava tão cego pelo controle que esqueceu-se do perdão. Claro, as coisas seguiriam em um caminho muito diferente – e talvez nunca tivesse conhecido Emma, por exemplo.

Em Storybrooke, Edward Kitsis e Adam Horowitz decidem aprofundar a relação entre Hook e Henry (Jared S. Gilmore), uma escolha que merece uma atenção especial: há tempos Once Upon a Time não nos deliciava com tramas desse tipo. A afetividade familiar, ainda que simbólica. Desde sua temporada de estreia, tivemos Rumple e o falecido Baelfire (Michael Raymond-James), cujas metáforas se relacionam inclusive com o surgimento de Storybrooke e os eternos conflitos entre o bem e o mal; Emma, Henry e Snow fazem parte de um relacionamento complicado – afinal, imaginem estar ao lado de sua mãe sem ao menos reconhecê-la; até mesmo a crise ideológica entre Regina e sua mãe, Cora (Barbara Hershey) foi de essencial importância para temas como poder, ambição e amor.

Tudo bem, Dark Waters não se aprofundou de forma abrupta no aspecto supracitado, mas deu cartas ao jogo e nos preparou para o que pode ser uma das melhores subtramas da temporada. Henry sempre conviveu dentro de um círculo de mentiras protagonizado por figuras femininas fortes – Emma e Regina – e talvez sinta falta de uma presença paternal em cena. Não para lhe guiar, mas para completar um possível vazio existencial. Baelfire, também conhecido como Neal, foi vítima da circunstância e nunca esteve presente em sua vida; Rumple, seu avô, coloca o poder e a magia acima de qualquer coisa. E agora temos Hook, cujo relacionamento com Emma vem se aprofundando a cada dia que passa.

Mas obviamente nem tudo são flores: não podemos nos esquecer do plano não revelado da Rainha Má. A cada episódio, seus valores destrutivos almejam a destruição da família Charming – e o mais incrível é que ela não precisa utilizar de feitiços para separá-los. Todos ali têm segredos e ela espera que a exposição de algum deles seja crucial para a concretização de seu sonho. E aqui, seu alvo é o próprio filho: quanto tempo vai levar até que aquele pirata destrua tudo?, ela o questiona. Henry acabou de reatar laços com sua mãe e quase a perdeu mais de uma vez. Não vai ser agora que alguém que nem sequer faz parte da família irá levá-la para longe de novo. Sem falar que Hook parece se preocupar mais com a própria segurança que com Emma.

Um dos pontos fortes do episódio – além da incrível evolução dos efeitos especiais – foi a volta de Aladdin e Jasmine. Todos nos lembramos do desperdício narrativo de suas aventuras em Agrabah, mas felizmente aquilo só foi o início: uma preparação para algo muito maior. Ao que tudo indica, depois do sumiço e Aladdin e da incessante busca da princesa pelo Salvador, o reino em que viviam simplesmente desapareceu. Mergulhada num desespero profundo, não encontrou alternativa a não ser fugir para a Terra das Estórias Não-Contadas e permanecer lá até uma outra oportunidade surgir. A nós, resta descobrir o que aguarda pelos personagens nos próximos capítulos.

Ainda que não totalmente, Dark Waters mostrou-se muito mais eficaz que seu predecessor. Aqui, já é possível entender que mais e mais personagens irão aparecer – e que eles entrarão como catalisadores para os protagonistas. Assim como Cinderella serviu como suporte para a crise de Emma e Dr. Jekyll e Mr. Hide para Regina, Nemo veio como resolução para Hook (podemos respirar aliviados). As tramas ocultas terão um propósito maior – e parece que o retorno às raízes de Once Upon a Time virá de forma implacável (sim, a Rainha Má e Snow voltarão a se enfrentar!).

A potencialidade da sexta temporada está começando a ser explorada. E mal posso esperar para a chegada do grande clímax – e descobrir quem está por debaixo do capuz.

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