nota-5

Once Upon a Time finalmente voltou às suas origens!

Depois de uma sequência de episódios medianos e um desperdício de narrativa com a história não contada de Aladdin e Jasmine, Edward Kitsis e Adam Horowitz parecem ter reencontrado a paixão pela transgressão e pelos múltiplos pontos de vista que nos cativaram tanto na primeira temporada. Em Heartless, título do sétimo episódio, somos transportados para os dias de bandidagem de Snow (Ginnifer Goodwin) e da simplória vida de David (Josh Dallas), algo que não víamos há bastante tempo – e, para aumentar a expectativa para capítulos futuros, um plot twist tão delicioso quanto angustiante.

Já caminhando para a metade da temporada, a trama principal resolveu tomar um rumo diferente: após eliminar sumariamente diversos personagens novos, trazendo-nos o sentimento nada agradável de superlotação e superficialidade, a Rainha Má (Lana Parrilla) decide colocar seu plano em prática. Não sabemos se este é seu objetivo principal, mas para que tudo funcione do jeito que quer, faz-se necessário destruir a família que não lhe trouxe nada além de sofrimento e ruína: a família Charming. Em meio a um plano sequência muito bem construído pela visão intimista do diretor Ralph Hemecker, Snow se vê frente a frente com um fardo mortal: uma substância misteriosa dada pela Rainha, a qual lhe diz que o conteúdo pode dizimar Storybrooke por inteiro, a não ser que os dois “pombinhos” entreguem seus próprios corações para apaziguar a fúria de uma magia poderosíssima.

Obviamente a escolha não poderia ser feita de forma apressada. Os dois percebem que seu sacrifício salvará todos os habitantes da cidade portuária, mas a que custo? Apesar de parecer egoísta, escolher a morte traria ainda mais caos; afinal, eles são os únicos capazes de não se curvarem perante as ameaças da Rainha. Emma e Hook já estão bem ocupados com problemas pessoais, e Regina entendeu que o único jeito de se livrar de seu alter-ego maligno é se suicidando. Parece que estamos todos numa saia justa, não?

O interessante neste episódio é o afastamento das motivações e dos objetivos que nos foram apresentados anteriormente. Todos os protagonistas enfrentaram fantasmas do passado para perdoarem a si mesmos e seguir em frente com a nova vida em um mundo ainda desconhecido. A aparição de figuras como Capitão Nemo, Dr. Jekyll, Mr. Hyde e Aladdin era justificada de forma compreensível, mas não-elaborada. Mas é aqui que o jogo vira; este é o momento que todos os fãs esperavam: a jogada da Rainha. Seu lado puramente mal não havia atingido a potencialidade plena, utilizando-se da ironia e do sarcasmo para colocar entes queridos uns contra os outros. E ao notar que isso não funcionaria, decide arregaçar as mangas e colocas os pingos nos “is”.

Os temas-base são incrivelmente bem analisados ao longo dos quarenta minutos. Podem até ser múltiplos, mas conseguem abranger e explicar atos nada convencionais de forma convincente. Vingança, amor e honra elevam-se a níveis inimagináveis, buscando respostas inclusive no cerne do ser humano e nas emoções mais bárbaras possíveis. A racionalidade é abandonada de forma breve para que o contraste entre sensações primitivas construa um arco catártico há muito perdido em tantas temporadas medíocres. Até mesmo a repetição de subtramas da temporada de estreia se encaixa perfeitamente com o tom do capítulo: por que não usar a maldição que outrora separou Snow de David por anos a fio? Por que não colocá-los numa jornada mortal em busca da redenção? Por que não utilizar as características endeusadas dos supostos heróis contra eles? As possibilidades são infinitas, e o terreno para os próximos episódios foi preparado de forma tão duvidosa que não é possível prever o que vai acontecer.

Enquanto isso, as técnicas de flashback são escolhidas mais uma vez para nos reapresentar a uma das maiores histórias de amor da série: o encontro do futuro casal Charming. A princípio, confesso que fiquei confuso com a cronologia da história e cheguei a pensar que houve um momento em que os dois haviam se separado de forma definitiva. Mas felizmente estava errado, e isso aconteceu até antes do que nos foi mostrado como a primeira centelha do amor verdadeiro entre eles: Snow, sendo caçada pelos asseclas da Rainha por traição e homicídio, é capturada por um salteador profissional, e é resgatada às cegas por James. Se olharmos de forma generalizada, toda essa história é um simples jogo de gato-e-rato, mas é o ponto fraco que coloca em jogo as vidas destes personagens. A Rainha sabe dos perigos da paixão, e os utiliza para seus próprios fins. Não irei contar qual é a grande virada de Heartless, porém, garanto que é mais que satisfatória: veja, a maldade que circunda os antagonistas de Once Upon a Time é tão indescritível que a morte não é uma opção; é muito mais divertido ver seus inimigos sofrerem eternamente com uma simples maldição do sono alterada (não, esse não é um spoiler).

Um dos maiores contribuintes para a sensação de “dever cumprido” foi a trilha sonora. Chegou-se a um ponto em que cada maldito personagem carregava consigo uma melodia, transformando o cenário de ficção fantástica numa mixórdia saturada e repulsiva. Mas Mark Isham, compreendendo o magnífico roteiro assinado por Jane Espenson, utilizou-se de composições fabulistas para resgatar o que tornara esta série uma das mais promissoras dos últimos tempos. Aqui, embarcamos numa jornada emotiva ascendente e passível de ser considerada sádica: nós literalmente somos levados a segurar nos braços das poltronas, segurando-se para não gritar de ódio ou chorar de desgosto.

E não é apenas nestes aspectos que Once retorna às raízes: até a escolha dos planos, que variam entre plongées e holandeses, coloca o espectador num ponto de vista de pura impotência: estamos alheios, os personagens parecem conversar conosco, pedindo por ajuda, e não podemos fazer absolutamente  nada! Só nos resta sentar e, quando os créditos finais deslizarem pela tela, ficar um bom tempo refletindo sobre o episódio.

Heartless provou que o melhor da série é o que a originou; o que permitiu essa conexão inquebrável entre os personagens e o público. A dinâmica nostálgica é imprescindível neste episódio: a ameaça é a mesma, mas distorcida de forma assustadora, dando-nos uma versão superior e mais adulta da história que nos conquistou desde o primeiro minuto.

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