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Imagine uma cidade portuária. Como São Francisco, mas menor. E agora imagine uma maldição – não qualquer uma, e sim uma das grandes. Uma maldição que tem o poder de banir todos os habitantes de um Reino encantado para uma terra sem magia – e mais: fazê-los perder a memória de quem realmente são. Essa é a premissa a princípio batida de Once Upon a Time, série de Edward Kitsis e Adam Horowitz, roteiristas de Lost.

Posso ser um pouco suspeito para falar sobre essa série de ficção fantástica justamente por seu teor – contos de fada. A trama engloba os personagens que povoaram a imaginação de todas as crianças, como a Rainha Má, Branca de Neve, Príncipe Encantado, Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, entre outros. E apesar de ser aparentemente despretensiosa, tornou-se uma das melhores produções televisivas da atualidade.

A história se inicia realmente após a visita que Emma Swan (Jennifer Morrison) recebe de seu filho Henry (Jared S. Gilmore), o qual deu para adoção há dez anos. Ele retorna de súbito, subindo em um ônibus que parte de sua cidade natal até Boston, para dizer que todos os habitantes de Storybrooke precisam de sua ajuda. Afinal, todos eles são personagens de contos de fada que foram banidos para o nosso mundo pela Rainha Má (Lana Parrilla), em um plano para destruir todos os finais felizes e ter finalmente aquilo que sempre desejou: vingar-se de sua arqui-inimiga Branca de Neve (Ginnifer Goodwin).

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O episódio piloto começa com algumas frases de impacto – a princípio contando toda a história e deixando uma pequena margem para o desenvolvimento da série. Felizmente, não foi isso que aconteceu. O piloto viria a se tornar o resumo da temporada em si – e porque não da própria série?

A trilha sonora, composta por Mark Isham (Fame, O Nevoeiro), recupera o misticismo e a simbologia por trás dos contos de fada, combinando os elementos fantásticos a toques de suspense e mistério. Um grande épico de Agatha Christie misturado ao irreal e ao onírico de Hans Christian Andersen. E assim que entramos no primeiro fade in, somos apresentados à cena clássica de histórias desse tipo: o Príncipe Encantado, interpretado por Josh Dallas, montado em seu cavalo e cruzando um caminho tortuoso sobre um lago, em busca de sua amada Branca.

Assim que encontra a princesa caída sob a maldição do sono, nos deparamos com criaturas com as quais já estamos bem familiarizados: os sete anões – os guias na jornada da heroína. O resto da história já conhecemos: Encantado acorda Branca, ambos se casam e vivem felizes para sempre.

É… Mais ou menos.

Pois é justamente no final do clássico conto que a história principal de Once Upon a Time se inicia. Ameaçados por uma segunda maldição da Rainha Má – dessa vez muito maior -, o grupo de heróis utiliza todos os artifícios possíveis para salvar seu Reino, seus habitantes e, principalmente, o elemento que virá a salvá-los do perigo eminente – a Salvadora, filha de Branca e Encantado.

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A beleza de Once está concentrado em seus personagens e em cada linha dramática. Constituída em uma temporada de 22 episódios, cada um deles nos mostra um paralelo entre um passado ambientado num cenário medieval-fantástico e um presente moderno e igualmente perigoso. Cada um deles nos apresenta dois pontos de vista diferentes que convergem para um mesmo clímax e para uma mesma lição de moral – típica de um conto de fada.

A oposição entre o bem e o mal é o principal foco da série, mas de um modo inesperado e original. A oposição é externa e interna a cada personagem. Os estereótipos extremistas entre Branca (a representação do bem) e Regina, a Rainha Má (a representação do mal) são colocados de lado, contribuindo para o desenvolvimento de arcos belíssimos e para a catarse da audiência. Kitsis e Horowitz conseguiram arquitetar um drama auspicioso que nos faz esquecer dos efeitos especiais pouco articulados.

Com o passar do tempo, começamos a nos conectar com personagens completamente diferentes daqueles que conhecíamos. Passamos a sentir as dores de Regina e a julgar os atos “puros” de Branca; passamos a temer nossos monstros interiores ao encarar a criatura que vivia dentro de Chapeuzinho Vermelho (Meghan Ory) e a esperar a visita de um distante guia, como a representação de Henry.

O roteiro é eximiamente escrito de forma a quebrar tudo o que já conhecíamos e fornecer um ponto de vista inteiramente novo, livre de arquétipos e, por vezes, desconfortável. E em meio a tramas em forma de quebra-cabeça, fomos aos poucos juntando as peças deste mistério.

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Once Upon a Time tornou-se um marco na contação de histórias – e permitiu que dois de suas “criações” mais bem desenvolvidas entrassem para a lista dos dez melhores personagens do século XIX – Regina Mills e Rumplestiltskin Gold (Robert Carlyle), os quais fazem jus à frase “os fins justificam os meios”.

Configurando-se como um convite ao passado e àquilo que nos tornou quem somos, os ganchos da série casaram-se perfeitamente, mas não posso negar que a inserção de uma gama gigantesca de personagens às vezes pode ter confundido – como aconteceu comigo. Mas o último clímax nos deixa ainda mais curiosos para saber o que acontecerá.

Vale ressaltar que não são apenas os personagens que sofrem quebras de paradigmas. Ideais como “o beijo de amor verdadeiro” e “o bem sempre vencerá” são distorcidos ao seu máximo e contemplam um leque muito maior do que aparentam, implicando em temas como família, moral, aceitação, poder, entre outros.

A série ganhou um spin-off em meados de sua terceira temporada, chamada de Once Upon a Time in Wonderland, seguindo a mesma ideia da original, mas não obtendo o mesmo sucesso. E apesar de todos os defeitos óbvios, a série deve merece ser vista – principalmente por aqueles que ainda desejam ter o gostinho de infância nos lábios.

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