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Quando Edward Kitsis e Adam Horowitz disseram em julho deste ano que desejavam retornar às raízes de Once Upon a Time, definitivamente não estavam brincando. O nono episódio, intitulado Changelings, decidiu dar uma quebrada em seu método narrativo, o qual estava nos apresentando às estórias não-contadas e à ameaça iminente da Rainha Má (Lana Parrilla), e focar, assim como nas duas primeiras temporadas, no passado dos protagonistas. Aqui, utilizou como meio de análise a relação entre Rumplestiltskin (Robert Carlyle) e Belle (Emilie de Ravin), um dos casais mais polêmicos da série.

Mas antes de continuar a análise do episódio, uma pausa se faz necessária neste momento. Afinal, passamos tanto tempo em arcos e aparições novas que podemos não nos lembrar do começo de tudo. Belle na verdade entrou na série como uma mercadoria, um pagamento para que o reino dos French não perecesse frente ao ataque dos trolls. Para que ninguém mais sofresse, o Senhor das Trevas exigiu que a garota passasse a trabalhar como escrava em seu castelo, longe de tudo e de todos, e é aí que a história de A Bela e a Fera ganha uma metáfora surpreendente: afinal, Rumple havia sido amaldiçoado, e o poder do amor seria o único capaz de livrá-lo da máscara do monstro e torná-lo humano de novo. Mas a sede por poder os colocou numa tragédia sem precedentes, chegando inclusive a separá-los por mais de trinta anos.

Changelings é ambientado em algum momento entre esses dois acontecimentos – provavelmente quando Belle sentia algo por detrás da pele escamosa de seu raptor e já possuía certa intimidade com suas excentricidades. Aqui, questões éticas são colocadas em jogo quando Rumple aparece no saguão principal carregando um bebê dentro de uma cesta e, momentos depois, descobrimos que seus planos não são os mais agradáveis para o infante. Não sabemos logo de cara quais são, mas como conhecemos a personalidade destrutiva e nada complacente do Senhor das Trevas, é de se esperar que suas ações visem a satisfações individualistas. A moça se sente compelida a fazer algo, principalmente quando somos apresentados à primeira virada do roteiro muito bem estruturado assinado por David H. Goodman e Brian Ridings, e que envolve inclusive o paradeiro da mãe de Rumple.

Em Storybrooke, as coisas funcionam de modo metafórico. Belle tenta fazer de tudo para se afastar do ex-marido sedento por magia, impedindo-o de sequer ter a possibilidade de encostar no filho não nascido. As sequências se desenrolam no estilo jogral de gato-e-rato, até que uma decisão um tanto quanto ocasional faz com a gravidez de Belle se acelere de forma tão contínua que ela entre em trabalho de parto praticamente sete meses antes do nascimento.

Essa brincadeira entre passado e presente é construída através de toda a linha narrativa do episódio. Utilizando-se de elementos da temporada de estreia, Changelings mostra a inevitabilidade do Destino, discursando sobre a persistência humana em não cometer os erros do passado, mas sofrendo os mesmos deslizes de formas diferentes. Descobrimos que os planos de Rumple envolviam invocar a Fada das Trevas, um dos seres mais corrompidos do mundo encantado que sucumbiu à tentação e ao poder e tornou-se um não-ser cujo principal objetivo é roubar crianças. E esta criatura é ninguém menos que a figura materna e desaparecida da vida do Senhor das Trevas, o que nos leva a pensar que a escuridão e a inclinação a ela sempre estiveram presentes na vida destes personagens. Se nos recordarmos dos primeiros episódios, sabemos que Rumple matou sua própria mulher e perdeu o filho em nome do poder e do medo; seu pai renegou o filho e tornou-se a figura tão conhecida e medonha de Peter Pan; seu amor verdadeiro, Cora, apenas o utilizou para conseguir ascender à realeza e largá-lo ao relento. Uma vida de tragédias que se prolonga até os dias atuais e que provavelmente não acabará.

O panorama geral mostrou-se muito mais envolvente que o capítulo anterior, justamente por utilizar-se da metáfora atemporal para desenvolver seus arcos narrativos. Personagens há muito não citados, como a Fada Azul, voltaram nestes novos quarenta e dois minutos e tiveram um papel importante para inclusive marcarem lado numa guerra sangrenta que acontecerá em breve. A batalha do bem e do mal agora deu lugar ao conflito entre a moral e a ética, entre a justiça e a vingança. Cada um dos protagonistas está em dilema com seu lado mais obscuro e com seu lado mais emotivo, culminando em clímaces muito bem colocados e que prepararão o terreno para o midseason finale da semana que vem.

Obviamente, há subtramas – e talvez esse seja o ponto o roteiro peca um pouco. Jasmine e Aladdin voltaram, mas agora com mais vontade de reencontrar o Reino perdido de Agrabah. Em determinado momento, o herói percebe que deve se transformar no Gênio da Lâmpada para realizar o único que desejo que ele e seu amor verdadeiro têm em comum: voltar para sua terra natal. Confesso que por um momento achei que Cyrus, personagem do spin-off de Once Upon a Time, Once Upon a Time in Wonderland, poderia fazer uma breve aparição para sanar algumas dúvidas e deixar as coisas mais interessantes. A saída, entretanto, funciona, mas baseia-se no inverossímil e chega a ser um incômodo para o público.

Outra linha narrativa é a condição de Emma como Salvadora. Suas visões retornaram, agora para lhe dar mais dicas sobre a arma que lhe tira a vida. Cada vez mais ela se questiona sobre seu papel: ela está cansada, e nós também. Essa pode ser uma jogada interessante dos criadores da série, de mostrar como até o arquétipo do herói mais submisso aos pedidos de uma plebe condenada tem seus momentos de exaustão. O problema aqui é o modo como tal pensamento é executado. Claro, ainda temos treze episódios pela frente e este pode ser que seja apenas o princípio; não podemos tirar conclusões precipitadas por enquanto.

Em linhas gerais, Changelings marcou um avanço considerável em relação ao episódio anterior. Caso Once Upon a Time mantenha-se nesse ritmo, esta temporada poderá ser considerada uma das melhores. Agora, é esperar para ver.

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