nota-4,5

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Lá pela metade de Os Suspeitos (que não, não tem nada a ver com o filme de Bryan Singer), eu percebi que estava me sentindo mal. Angustiado, tenso e extremamente ansioso pelo desfecho da história e os dilemas torturantes enfrentados pelas figuras problemáticas e envolventes criadas pelo texto de Aaron Guzikowski, também me toquei de que estava diante de um genuíno thriller, um que claramente compreendia os elementos que tornam o gênero tão fascinante – e perturbador.

A trama é ambientada numa pequena região da Pensilvânia, tendo início quando as filhas de dois casais diferentes (um formado por Hugh Jackman e Maria Bello, e o outro, por Terrence Howard e Viola Davis) repentinamente desaparecem. O detetive Loki (Jake Gyllenhaal) é convocado para tocar a investigação, que acaba levando-o até o misterioso Alex Jones (Paul Dano). Mas à medida em que o caso começa a revelar-se cada vez mais complexo, Loki ainda precisa lidar com o perigoso desejo de justiça de um dos pais.

Sob o comando do canadense Denis Villeneuve (responsável pelo premiado Incêndios), Os Suspeitos pega o espectador pela garganta e não solta até o momento em que os créditos começam a subir, mesmo que a projeção se extenda por 2h30. Parte disso se deve ao eficiente trabalho do diretor, ao lado do diretor de fotografia Roger Deakins (ainda sem Oscar, como, como?), em criar uma atmosfera pesada e sombria; daí a constante presença de chuvas, neve e um céu predominantemente nublado que esbanja melancolia graças às frias paletas de cor usadas por Deakins.

É o cenário perfeito para que Villeneuve desenvolva uma perfeita história de detetive concebida pelo roteirista, que contém reviravoltas impactantes e planta diversas pistas (que podem passar despercebidas para o espectador menos observador) importantes e, à primeira vista, irrelevantes ao longo da projeção. O clímax é o resultado de uma minuciosa construção que havia sido feita desde o primeiro ato, rendendo importantes consequências para todo os personagens – daí o “prisioneiros” do título original faz muito mais sentido em termos metafóricos.

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Além da angustiante e detalhista investigação, é interessante observar a tragédia humana que se manifesta nas famílias enquanto esperam pelo reencontro com suas filhas desaparecidas. Em uma performance intensa e explosiva, Hugh Jackman continua impressionando com sua carga dramática ao interpretar o impulsivo Keller, que acaba por “fazer justiça” com as próprias mãos ao perseguir o personagem de Paul Dano (outro grande ator que ainda carece de um papel que lhe permita explorar seu potencial). Mas quem realmente se destaca é Jake Gyllenhaal e seu detetive Loki (nenhuma ligação com o irmão do Thor, só pra constar), que ganha um retrato cuidadoso do ator – reparem no tique do piscar de olhos que Gyllenhaal manifesta com frequência -, contrastando radicalmente com a persona selvagem de Keller ao optar por uma voz predominantemente calma.

Os Suspeitos não vai mudar a história do gênero, tampouco se destacará como um marco nele, mas segue as regras com competência e extrai o melhor de sua proposta, sendo capaz de mandar o espectador para casa ainda brincando com as peças do quebra-cabeças. E convenhamos, não é esse o tipo de thriller de investigação que vale o nosso dinheiro?

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