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Sempre que um novo filme da Marvel Studios é lançado, a reação da crítica internacional (que sempre assiste antes do que nós meros mortais) é a de total deslumbramento, sempre clamando que “nunca nada parecido com isso já foi feito”. Cansei de ouvir esse tipo de reação prévia, e nunca encontrava nada realmente especial em todos esses filmes, sempre muito bem enlatados e seguindo a mesmíssima fórmula, ano após ano. Com Pantera Negra, primeira produção do estúdio protagonizada por um herói negro, a reação foi a mesma, e a sobrancelha de quem ouviu o absurdo de rotularem filmes como Thor: Ragnarok de obra-prima rapidamente se levantou. Porém, o filme de Ryan Coogler é mesmo diferente. Agora, sou forçado a usar aquele clichê de que vocês nunca viram algo como isso no gênero, pois Pantera Negra é realmente especial.

Após uma breve aula sobre a história da nação secreta de Wakanda, a trama começa alguns dias apos os eventos de Capitão América: Guerra Civil, com o príncipe T’Challa (Chadwick Boseman) retornando para casa e assumir seu posto como rei legítimo, após a morte de seu pai, T’Chaka (John Kani). Lá, T’Challa também assume o manto do Pantera Negra, protetor de Wakanda e que já começa a fazer valor de seu mandado ao ordenar uma caçada ao contrabandista Ulysses Klaue (Andy Serkis), que trabalha em conjunto com o misterioso e vingativo mercenário Erik Killmonger (Michael B. Jordan).

Wakanda Forever

Por mais que pareça o típico filme de super-herói da semana, algo no qual a Marvel Studios é mais do que especialista, Pantera Negra é uma fera diferente. Traz diversos clichês e convenções do gênero, além do insuportável senso de humor impregnado em todas as produções de Kevin Feige, mas é realmente uma obra distinta em suas pretensões e execução. Todo o primeiro ato do filme é centrado não apenas em mecanismos de história e subtramas, que o roteiro assinado por Coogler e Joe Robert Cole insere de forma orgânica e exemplar para qualquer estudioso de Syd Field, mas para fazer algo que quase nenhum filme da Casa das Ideias faz: world building, introduzir e explorar os diferentes elementos de Wakanda, fazendo com que a nação fictícia realmente ganhe vida diante das telas; e merece créditos pela originalidade com que mistura os traços tribais com um caráter de ficção científica. É refrescante ver uma abordagem desse tipo, especialmente com o gênero tão obcecado por ação constante e universos compartilhados.

O fato de que este herói também é um líder de uma nação também oferece uma história mais peculiar, sem as típicas provações do herói egocêntrico aprendendo uma lição de humanidade após algumas cenas de ação. O grande dilema de T’Challa é honrar o legado de seu pai e não desapontar todas as tribos e vidas que dependem de suas decisões, e o texto de Coogler e Cole acerta em cheio nesse retrato, com discussões políticas válidas em relação ao Pantera Negra e as outras tribos de Wakanda – que constantemente discordam de sua opinião – até a forma como a nação é escondida do restante do mundo.

É justamente nesse ponto que Killmonger constrói sua narrativa, o que acaba tornando-o um dos antagonistas mais memoráveis que o MCU já teve; na verdade, se for olhar a competição, talvez seja até o melhor deles. Seu discurso ataca o preciosismo de Wakanda, e questiona o rei sobre como todas as maravilhas tecnológicas não poderiam ajudar do mundo, e como o isolamento da nação do resto do planeta não foi capaz de ajudar seus ancestrais em momentos de opressão – a escravidão, principalmente. É uma abordagem similar à da franquia X-Men com a rivalidade entre Charles Xavier e Magneto, baseada nos discursos opostos dos ativistas Martin Luther King e Malcolm X, onde T’Challa é King (sem trocadilho) e Killmonger assume a postura mais radical de Malcolm. Tanto Boseman quanto Jordan acertam em cheio, atingindo níveis emocionais inesperados.

Simba Bond

Não que Pantera Negra seja concentrado apenas nisso, já que Coogler já nos provou antes seu olhar apaixonado para a ação. Aqui, ela aparece muito mais a favor da história, que segue uma estrutura de filme de espionagem: imagine uma mistura de O Rei Leão com os filmes de James Bond, e você tem uma ideia do que esperar aqui, com a personagem de Letitia Wright servindo como uma divertidíssima versão de Q, inventor das bugigangas de 007. Saído de Creed: Nascido para Lutar, Coogler nos oferece duas cenas de natureza brutal, onde os oponentes não tem super-poder algum, apenas dois homens lutando com suas habilidades e forças naturais; e é aqui onde o diretor brilha. Não há excesso de cortes ou o efeito de shutter elevado banalizado pelos irmãos Russo em seus filmes do Capitão América: apenas o bom e velho uso de planos abertos e locações de risco como palco, no caso dessas duas cenas, uma cachoeira elevada; que rende planos lindíssimos da fotógrafa Rachel Morrison, que ajuda a fazer deste um dos mais belos filmes do MCU. O diretor até arrisca alguns planos longos elaborados impressionantes, tanto pela coreografia das lutadoras Dora Milaje, quanto pelo seu trabalho exímio na movimentação de câmera, bem evidenciado pelo combate em um cassino.

Quando temos cenas mais dependentes de efeitos visuais, nota-se uma deficiência, e os bonecões de CGI logo tornam-se mais evidentes, mas Coogler nunca perde a mão. É o mesmo exemplo da trilogia Homem-Aranha de Sam Raimi, cujos bonecos digitais são terríveis olhando-se hoje, mas ainda divertem pois seu diretor tem criatividade em coordenar um combate, e a perseguição de carros pelas ruas da Coreia do Sul é um bom exemplo. Mantendo nossa atenção no herói, no carro com as personagens de Lupita Nyong’o, os bandidos comandados por Andy Serkis e o comando externo de Wright (em seu laboratório), a montagem é excepcional nessa distribuição de tempo. Além disso, a trilha sonora que mistura composições instrumentais de Ludwig Goransson (praticamente composta apenas de tambores) e músicas de rap e pop de Kendrick Lamar é o ingrediente secreto que torna estas sequências tão pulsantes e energéticas.

Sobre defeitos? Há coisas que não se podem escapar em um filme da Marvel, mas que felizmente não prejudicam tanto aqui. Mesmo que em um nível menor, as piadinhas e o senso de humor infantilóide acabam aparecendo aqui e ali, sempre destruindo a construção de algum momento épico ou um discurso inspirador, sempre impedindo que o longa alcance um estado mais glorioso. Outros clichês típicos como “o personagem que morreu, mas volta” ou “o personagem que se recusa a ajudar, mas ajuda” também estão presentes, mas de uma forma menos trapaceira – nada daquelas mortes descaradas de Nick Fury ou Groot. Os efeitos visuais também têm sua parcela de deficiência, como já comentado acima, mas entre bons efeitos e uma história acertada, o último certamente é a prioridade. E também é alentador ver que este filme é mais isolado em seu universo, sem muitas conexões com os Vingadores.

Um novo marco

Depois de 10 anos, a Marvel Studios enfim entrega uma obra com genuína personalidade e estilo com Pantera Negra. É um dos poucos filmes da produtora que consegue construir e explorar um universo próprio com eficiência e de forma com que o espectador realmente acredite ser real, sendo um triunfo plástico em todos os sentidos. É uma ótima aventura e um estudo de personagem eficiente, e que ainda traz uma mensagem louvável sobre diversidade e igualdade. De bônus, talvez seja o melhor filme do estúdio até agora.

Pantera Negra (Black Panther, EUA – 2018)

Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler e Joe Robert Cole, baseado nos personagens de Stan Lee e Jack Kirby
Elenco: Chadwick Boseman, Lupita Nyong’o, Michael B. Jordan, Danai Gurira, Martin Freeman, Andy Serkis, Daniel Kaluuya, Letitia Wright, Sterling K. Brown, Forest Whitaker, Angela Basset, Winston Duke, John Kani
Gênero: Aventura
Duração: 134 min

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