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É muito difícil superar uma torrente de críticas negativas logo depois da realização de um trabalho exaustivo que já durante sua produção rendeu uma infinidade de problemas. Assim como qualquer outra pessoa, David Lean, o lendário cineasta por trás de Lawrence da Arábia, acabou cansando de receber tantas pedras em sua vidraça durante o lançamento do injustiçado A Filha de Ryan. Levando muitas das críticas para o âmbito pessoal, Lean simplesmente desistiu do Cinema.

Assim foi por quase quatorze anos, até o britânico novamente se apaixonar pela arte e decidir realizar um último filme, Passagem para a Índia, também muito pertinente para a cultura do Reino Unido: um épico intimista pela Índia durante os anos 1920 visando trazer um retrato fidedigno de uma geração de indianos nascidos durante a colonização inglesa do país. O choque de cultura aponta erros e requintes de desumanidade que tornam a obra simplesmente atemporal.

O Choque do Oriente

Esse retorno depois de tantos anos afastado provaria que Lean nasceu somente para fazer arte. O curioso é que pela primeira vez em muitas décadas em sua carreira, o diretor iria roteirizar a obra, deixando de lado sua longa parceria com Robert Bolt que havia escrito e adaptado diversos de seus últimos filmes.

Nesta rara ocasião, Lean adaptou o intrigante livro de E.M. Forster trazendo a história da jovem inglesa Adela Quested (Julie Davis) que decide se aventurar em Chandrapore na Índia com sua futura sogra, Mrs. Moore (Peggy Ashcroft). Chegando no lugar, Adela e Moore se reúnem com Ronny (Nigel Havers), noivo e filho das madames, respectivamente. Em questão de pouco tempo, as duas sentem vontade de conhecer o país, a cultura e explorar os arredores da cidade. Um dos pontos turísticos mais famosos é o conjunto misterioso das cavernas de Marabar.

Com as novas amizades conquistas, Moore e Adela encontram pessoas que pensam de modo parecido ao delas nas figuras de Fielding (James Fox) e do jovem doutor indiano viúvo Aziz (Victor Banerjee). Organizando essa aguardada expedição, o grupo parte para as longínquas cavernas. A promessa de uma tarde perfeita logo é arruinada quando Adela é atacada por alguém jogando toda a delicada situação política entre britânicos e indianos em uma verdadeira tempestade.

Apesar de ser uma obra bastante longa, é curioso como Lean trata a direção da história de um curioso escopo mais intimista e centrado na protagonista de modo contundente. Os ares épicos repletos de passagens redundantes em A Filha de Ryan simplesmente desaparecem aqui. O que pode gerar uma grande confusão no espectador é que durante a totalidade de Passagem para a Índia, temos dois filmes em um por conta da mudança tonal muito inesperada na metade do longa que praticamente é onde temos a origem do conflito principal.

Por isso, para aguentar boa parte inicial do longa é preciso gostar muito do Cinema de David Lean ou de dramas históricos já que a narrativa se passa nos anos 1920. Ou, pelo menos, embarcar nas interessantes críticas sociais que o cineasta propõe enquanto apresenta uma sociedade paradoxal que vive em um repleto abandono enquanto ainda tem que se deslocar para agradar os colonizadores.

Sendo extremamente visual, muito disso está somente na elegância das imagens e da montagem de David Lean ao longo de todo o filme evocando uma Índia repleta de cores e vida, mas também muito miserável, suja e ressentida. O diretor vê os problemas óbvios da ocupação britânica evocando o completo sentimento de repulsa por parte dos colonizadores, da falta de amor ao próximo, além de uma divisão totalmente segregacionista na qual temos cidadãos tratados como reis enquanto outros são meros escravos.

O contraste firme é eficiente por conta do estabelecimento excepcional das personagens Adela e Moore que veem os indianos como seus iguais, não destratando nenhum deles permitindo o crescimento de afeição e amizade entre elas com o simpático doutor Aziz. Com muita tranquilidade, é fácil afirmar o quanto Aziz é um personagem complexo, pois ele é parte vital da sociedade que Lean traz ao filme.

Ele é um indiano já adaptado ao sistema, conseguindo receber uma boa educação que lhe rende condição social mais favorecida do que a maioria dos seus conterrâneos. Porém, ainda assim, Aziz é visto como um párea completo pelos ingleses preconceituosos, por mais educado que seja. Desse modo, quando Moore, Adela e Fielding o tratam com admiração e ternura, o homem se sente muito realizado. É um modo de Lean mostrar que a conquista de grandes coisas não deve ser obtida através da opressão de um povo, mas sim da plena cooperação e respeito mútuo.

Enquanto cria essa relação com muito cuidado e dedicação, Lean também se dedica a desenvolver a protagonista que se questiona sobre a possibilidade real de seu casamento com Ronny. Apesar do roteirista realmente falhar em trazer um olhar mais aprofundado na proposta exótica da obra em apresentar mais da cultura indiana, Lean acerta com um diálogo que faz comparações entre o casamento católico e o muçulmano. Essa peça é vital para Adela encontrar a resposta de suas aflições que certamente vem de uma personalidade sexualmente reprimida e perturbada por não conseguir calar um desejo quente de modo tão “anti-britânico”.

Para estabelecer essas características e mostrar de fato como e quem são esses personagens, há muitos percalços e diálogos bem escritos que elaboram a tensão velada entre as partes. Sendo o trecho mais redondo do longa, é fácil apontar o elemento destoante que não só é desnecessário, mas também de gosto duvidoso com a inserção do insosso brâmane Godpole interpretado por Alec Guiness sob maquiagem controversa. O personagem enigmático é tão misterioso que chega ao ponto de ser superficial já que não traz insights sobre o hinduísmo e nem força um choque de cultura interessante com personagens estabelecidos. Toda vez que surge, é utilizado como um instrumento de narrativa bastante mundano que nunca realmente justifica a necessidade de sua existência.

Amizades Determinadas

A segunda metade de Passagem para a Índia é o choque completo das circunstâncias antes tão bem fixadas pelo roteiro. A partir daqui o texto conterá spoilers inevitáveis, por isso recomendo que assistam ao filme antes, pois realmente vale a pena.

Durante o passeio nas cavernas Marabar, único trecho da obra que Lean se dá ao luxo de tratar a imagem cinematográfica em seu estilo épico autoral trazendo enquadramentos gigantescos e inúmeros figurantes em cena, além de evocar toda a beleza natural do lugar, Adela é atacada por alguém e sai desesperada da região completamente machucada.

Lean trata toda essa sequência envolta por certo mistério místico nunca revelando, corretamente, o que de fato aconteceu a Adela, mas ao mesmo tempo deixa explícito que a culpa do ocorrido recai somente na moça que, influenciada por outros britânicos, acaba acusando o inocente Aziz de tê-la estuprado. Apesar dessa reviravolta ser previsível, ela é importante para mostrar explicitamente a profunda divisão social que ocorre na Índia já alimentando movimentos de independência já que todo o caso se torna um catalisador para uma crise.

Apesar de ser uma metade mais agitada e fácil de assistir, Lean comete algumas escolhas estranhas como a de sumir completamente com Adela que era a protagonista até então. Nesse “segundo” filme que ele insere, acompanhamos os esforços de Fielding em auxiliar Aziz, mostrando como os britânicos se viram até mesmo contra os seus quando fogem das “regras” impostas pela maioria.

Mesmo sendo tão denso e importante, essa metade passa a perder fôlego e ser ligeiramente insatisfatória por conta do foco exclusivo nos fatos narrativos, deixando de lado a totalidade do desenvolvimento dos personagens que são sim bastante interessantes. Em dois pontos definitivos, o cineasta apresenta a intolerância como elemento desagregador separando famílias e amizades verdadeiras.

Ao final, há a transformação de Aziz, um indiano “britânico”, em um verdadeiro indiano, aceitando a difícil realidade de seu país e trabalhando para melhorar a qualidade de vida de seus compatriotas. Entretanto, a razão pela qual Aziz é transformado é justamente pelo rancor desenvolvido pelos ingleses durante seu julgamento tendencioso. A raiva que o muda, também é a que o cega, pois seu ressentimento o leva a se afastar dos amigos e até mesmo a odiar Adela quando na verdade devia agradecer a inglesa por se manter íntegra até mesmo sob tremenda pressão.

Mesmo com uma mensagem relevante e bonita, Lean também apressa um epílogo bastante estranho para reatar laços desunidos depois de algumas décadas a fim de conferir um final feliz não muito necessário. Em termos de direção, é visível que o diretor se renovou em um nível mais criativo para a montagem, trazendo sempre imagens contrastantes para elaborar uma mensagem bastante clara.

Em termo de encenação, pelo escopo mais intimista e sossegado de sua narrativa, o diretor não ousa sair do classicismo cinematográfico pelo qual ficou tão conhecido. Mas faz questão de sempre elaborar enquadramentos equilibrados e planos reversos oferecendo maior dinamismo para as generosas cenas centradas em diálogos.

Despedida de um Gigante

Curiosamente, o retorno de David Lean não pareceu ter causado o frisson de outrora como se fosse apenas mais um cineasta ordinário. Depois de quatorze anos afastado, Lean teve uma experiência problemática no set devido a diversos confrontos com o elenco que simplesmente diziam que ele já não sabia mais dirigir – o que é um perfeito absurdo. Devido a forma que tudo aconteceu, o cineasta preferiu se aposentar de vez depois da realização de Passagem para a Índia.

De modo geral, a carreira do britânico é simplesmente espetacular conseguindo conquistas inestimáveis, além de ter revolucionado o olhar sobre o épico trazendo questões muito pertinentes sobre humanidade, guerra e paixão. Por isso que sempre haverá espaço na História do Cinema para esse diretor que desafiou todos os limites dos então considerados blockbusters de estúdio ao tratar filmes como uma janela perfeita para a realidade. Por mais longa que esta jornada seja. E igualmente bela.

Passagem para a Índia (Passage to India, Reino Unido, EUA – 1984)

Direção: David Lean
Roteiro: David Lean, E.M. Forster
Elenco: Judy Davies, Victor Banerjee, Peggy Ashcroft, James Fox, Alec Guiness, Nigel Havers
Gênero: Drama, Aventura
Duração: 164 minutos.

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