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J.M. Barrie tornou-se um dos nomes mais conhecidos do Reino Unido vitoriano por suas investidas acerca da infância, do amadurecimento e da vida adulta com uma das obras mais famosas e mais lidas de todos os tempos – As Aventuras de Peter Pan. Através de uma narrativa onírica e esperançosa, o dramaturgo escocês canalizou toda a sua habilidade criativa para arquitetar um escopo fantasioso e, ao mesmo tempo, dotado de pequenos elementos metafóricos que respaldassem todas as metáforas que procurava passar para seus leitores, buscando resgatar a inocente e pueril magia que se perdia conforma a sociedade caminhava em um rumo sem volta através do individualismo exacerbado e de falta de humanitarismo entre si.

Levando em conta tais premissas, não é possível pensar em nenhuma outra companhia cinematográfica que conseguisse adaptar essas singelas odes à união e ao amor que o já estabelecido império dos estúdios Walt Disney, pelo simples fato de conseguirem idealizar mais uma vez uma amálgama pré-definida de modernidade fílmica e nostalgia. E não podemos nos esquecer de que esse conglomerado, à época do lançamento de Peter Pan, havia nos presenteado anteriormente com inúmeras pérolas e obras-primas da história do Cinema, incluindo Pinóquio e Alice no País das Maravilhas, duas animações que não apenas conversam com o conhecido público-alvo infantil, mas alastram suas profundas análises até mesmo para alguns temas complexos e mais maduros, por assim dizer – como o autodescobrimento, o vício e o sacrifício.

Ainda que seja marcado por inúmeros deslizes, o trio formado por Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske retorna mais uma vez sob a supervisão de Disney para alimentarem suas características-base em uma nova era dos estúdios. Desde seu primeiro trabalho com Cinderela, o grupo sempre prezou por uma rendição mais humanizada e mais complexa de personagens humanos, afastando-se de certos maniqueísmos que tacharam uma identidade um tanto quanto mal interpretada: a partir dessa concepção, percebemos uma gradativa, ainda que lenta, mudança na perspectiva dos protagonistas da narrativa, os quais podem até manter um laço mais fortificado com seus estereótipos fabulescos, mas ainda trazem uma palpabilidade crível o suficiente para se conectarem com as audiências. E se a personagem-título do filme de 1951 permanecia em um traçado similar a princesas anteriores, é notável a evolução arquetípica dessas criações com a chegada da mais nova animação.

A história se passa na mística e cinzenta Londres, uma cidade marcada por diversos eventos históricos e que representou durante muito tempo – mais precisamente até meados da II Guerra Mundial – o polo socioeconômico não apenas da Europa, mas do estilo de vida individualista e capitalista do Ocidente. A partir desse pano de fundo é que a jornada dos Darling toma lugar, trazendo como protagonistas três imaginativas crianças que, cumprindo com suas tarefas de casa, não desejam crescer, e sim permanecer como estão por bastante tempo – ainda mais quando observam o estresse e a correria encarnada por seus pais. Mesmo tendo algumas atitudes “infantiloides” repreendidas pelo patriarca da família, eles não se deixam abalar e buscam refúgio nas mirabolantes aventuras de um garoto chamado Peter Pan, habitante da Terra do Nunca conhecido por nunca crescer.

A animação talvez seja a primeira a trazer alguns recursos estilísticos como a metalinguagem – afinal, temos um conto dentro de outro conto. A adorável e angelical Wendy, primogênita da família Darling, conhece de cabo a rabo a jornada do personagem-título e encanta-se ainda mais ao perceber que tudo aquilo é real e que ela poderá fazer parte disso – isso sem mencionar a quase instantânea afeição de seus irmãos mais novos, Miguel e João, para embarcar nessa mítica jornada. Essa transição entre o mundo real para o mundo imaginário já foi visto anteriormente e talvez da mesma forma fluida que Alice, cuja estética é referenciada inúmeras vezes para a construção cênica – exceto, talvez, pela psicodelia em demasia.

Nosso herói é a própria materialização da rebeldia e da irreverência, muito mais que outros que tentaram seguir o mesmo padrão. Como já citado, Pan é o eterno garoto pré-adolescente cuja vida é pautada em inúmeros perigos que encara como pura diversão. Ele tem um estilo completamente diferente do vivenciado pelos Darling e, a priori, é bem sedutor aos olhos alheios até se mostrar um tanto quanto perigoso. E, como se não bastasse, tal personificação da liberdade excessiva também teria suas consequências – encarnadas por um vilão à altura, o mortal Capitão Gancho.

Gancho também está inserido em outra rendição menos maniqueísta e mais palpável, visto que não se restringe a outras caricaturas vilanescas de iterações predecessoras, mas carrega alguns traumas passados que o moldaram na persona que é hoje – incluindo uma desventura com um gigantesco crocodilo que arrancou sua mão e o obrigou a substituí-la por um gancho de ouro. Auxiliado por seus capangas e, em especial, o suposto escape cômico Smee, ele tem como único objetivo aguardar pacientemente seu jovem arqui-inimigo baixar a guarda para conseguir atacá-lo e derrotá-lo. O problema aqui é, eventualmente, deixar tal personagem num respaldo superficial demais e que se torna vazio caso tiramos a única coisa que permite seu arco seguir em frente.

Talvez o maior deslize esteja contido na perspectiva utilizada pelo trio de cineastas para adaptar a obra literária às telonas. Diferentemente das passagens mais macabras e tensas do romance de Barrie, o roteiro se vale de um otimismo saturado e cujos níveis apenas se elevam, esquecendo-se de encontrar um equilíbrio com a tragédia, com o ódio e até mesmo com a desesperança, mesmo a animação sendo destinada para as crianças. Nos longas-metragens anteriores, esses momentos são muito bem pensados e funcionam como catalisadores para os próprios protagonistas, impedindo que eles levem tudo na base da comicidade e tornem-se repetitivos e monótonos.

No final das contas, Peter Pan é uma rendição que tem mais acertos que erros, ainda que seus equívocos deixem tudo com um ar jocoso e irritante a longo prazo. Mesmo com a fabulosa estética sendo aperfeiçoada com o passar dos anos, tal aventura é satisfatória até certo ponto – e não podemos deixar de sentir um gostinho de quero mais quando a jornada chega à sua conclusão de forma brusca e aparentemente inacabada.

Peter Pan (Idem, EUA – 1953)

Direção: Clyde Geronimi, Wilfred Jackson, Hamilton Luske
Roteiro: Winston Hibler, Ted Sears, Bill Peet, Erdman Penner, Joe Rinaldi, Milt Banta, Ralph Wright, William Cottrell, baseado na peça de J.M. Barrie
Elenco: Bobby Driscoll, Kathryn Beaumont, Hans Conried, Bill Thompson, Heather Angel, Paul Collins, Tommy Luske, Candy Candido, Tom Conway
Gênero: Animação
Duração: 77 min

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