Desde a Era de Ouro de Hollywood, não havíamos visto um exemplar com temática de pirataria que realmente adentrasse na época com uma determinada visão de um respectivo diretor. O público estava carente, portanto, e mais que disposto a embarcar em uma jornada pelos mares, ainda mais prosseguindo a febre dos blockbusters, cada vez mais barulhentos e estapafúrdios, com tecnologia suficiente para proporcionar o grau de realismo antes impossível.

A Disney, em uma estratégia comercial genial, decidiu apostar em um longa baseado em um de seus brinquedos mais famosos e requisitados, Piratas do Caribe, chamando o diretor Gore Verbinski para capitanear a produção. Escolha que se provou acertadíssima visto a habilidade de Verbinski de trabalhar com efeitos práticos e encenar ação. O produtor Jerry Bruckheimer, alegando que a concorrência estava gastando suas centenas de milhões em franquias como Matrix e Senhor dos Anéis, convenceu a empresa a seguir o mesmo caminho, portanto. Entretanto, a jogada de ouro e principal responsável por tornar a franquia o que ela é hoje veio na forma da escalação do ator Johnny Depp, conhecido por seu trabalho em Edward Mãos de Tesoura.

Antes de falar a respeito dos méritos de Depp e suas inspirações, permita-me analisar um pouco a direção de Verbinski e reconhecer sua dedicação e feitos impressionantes em um período de tempo bem curto para uma produção do gênero com essa escala.

Já abrindo o filme com a câmera se aproximando lentamente da personagem Elizabeth durante uma cantoria em sua infância a bordo de um navio navegando em névoas e sendo surpreendida por Kevin McNally, só para depois revelar o menino Will Turner vagando ao mar e, em seguida, encerrando com uma aparição do navio Pérola Negra, construindo antecipação para a ameaça que virá, Verbinski revela duas qualidades. A noção de contexto geográfico e construção de atmosfera. Qualidades estas que são postas em prova ao máximo durante a encenação das sequências de ação, sem cortes rápidos, sempre priorizando a localidade, escala, amostra dos cenários e uso de efeitos práticos, com cada sequência se diferenciando da outra em inventividade e proposta. Seria muito fácil, com o prazo que lhe foi dado para terminar a produção, apostar em uma direção ligeira que apressasse o momentum e com cortes mais constantes, o que Verbinski se nega com classe a fazer, mostrando o quanto se importa com o material.

O roteiro, esperto, simples e sagaz, é honesto e bem balanceado. Contando uma história não da clássica busca pelo tesouro mas pela quebra da maldição deste – cortesia do elemento sobrenatural que fora adicionado depois da entrada de Terry Rossio e Ted Elliot – a história apresenta uma noção muito clara de causa e consequência ao passo que nunca desarma o drama, tensão ou humor por algum vício, sempre priorizando a construção da personalidade de seus personagens, também simples a uma primeira vista, mas jamais rasos. As cenas de ação são justificadas, nunca soando como demanda de estúdio, com tudo fluindo organicamente. O ritmo pode soar cansativo para alguns devido a tantos acontecimentos e curto espaço de tempo entre algumas viradas na trama, mas nada que prejudique a obra para os mais emocionalmente investidos. O núcleo do triângulo amoroso é o calcanhar de Aquiles do longa já que, mesmo orgânico, trata-se do elemento mais clichê e manjado da narrativa.

Agora abro um espaço para a análise solo do método de Johnny Depp. O ator, tendo admitido inspiração em Keith Richards, guitarrista dos The Rolling Stones, por ter estudado o comportamento de piratas da época e concluindo seus modos “rock n’ roll” de agir, seguiu pelo caminho eclético de interpretação, transmitindo um mix de imprevisibilidade, simpatia, covardia, malícia e inteligência. O resultado? Uma justíssima indicação ao Oscar e a completa adoração popular, compondo um personagem inédito no cinema. Sua apresentação, fruto de um acidente pelo barco ter realmente afundado e depois tendo o fato mantido no roteiro, é memorável e sintetiza tudo o que o público necessitaria saber a respeito do personagem. A entonação de voz, na maioria das vezes, situada em um certo tom e nunca desviando muito, também foi de fundamental importância para marcar a persona, visto que passava a sensação de controle e acentuava sua personalidade imprevisível.

Quanto ao restante do elenco, todos bem escalados, o segundo maior destaque fica com a interpretação do veterano Geoffrey Rush como Capitão Barbossa que realmente convence como um vilão sarcástico e ambicioso, mas também humano e que apenas deseja se livrar da imortalidade para aproveitar certos prazeres e viver uma vida limitada. Sua presença é tão sentida que até hoje o personagem figura na franquia, felizmente. Seus serviçais Pintel (Lee Arenberg) e Ragetti (Mackenzie Crook) são os maiores alívios cômicos do longa e extremamente funcionais, não caindo para o humor pastelão ou infantil e mantendo a ameaça. Kevin McNally, como o primeiro-oficial e melhor amigo de Jack, mais explorado no futuro da franquia, contribui para a construção do humor e até da persona do amigo. Jack Davenport, Jonathan Pryce – a identificação do público na batalha final – e o restante da tripulação, todos igualmente competentes.

Orlando Bloom como Will Turner tem mais nuances em sua perfomance que seu personagem da franquia concorrente, Legolas, e convence como o herói da fita relutante em aceitar sua natureza. Keira Knightley, ora servindo como a dama em perigo, ora como uma personagem de atitude é a que tem mais desenvolvimento. Seu arco, tendo dependência nos eventos traumáticos que Elizabeth passa, é gradual e vemos uma nítida mudança de atitude e forma de pensar da personagem, deixando uma excelente base pronta para mais desenvolvimento em filmes futuros.

A trilha de Klaus Badelt – tendo sendo sugerido pelo próprio Hans Zimmer que o ajudou na composição de vários temas do filme – cheia de personalidade, também deve ser enaltecida, casando perfeitamente com o tom e espírito do filme, sendo repetida nas horas exatas, se fixando na mente do espectador. Nas horas de maior tensão e horror, batidas graves e repetitivas e nos momentos mais lúdicos ou aventurescos, uma alternância entre grave e agudo pulsantes sempre dando ênfase na colagem da batida com um momento de ação.

Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra é um exemplo raro de mistura de honestidade de proposta, escalação perfeita, escrita coesa e direção inspirada no cenário blockbuster. Tudo o que poderia dar errado, funcionou. Estava armado o palco com a base firmada para uma vindoura franquia que viria a se tornar uma das mais lucrativas do cinema. Se cada vez mais, conforme as continuações eram lançadas, a franquia perdia em originalidade, alma ou coesão, é assunto para as próximas críticas dos meus colegas. Aqui, quantidade, orçamento e qualidade andam de mãos juntas, nunca antes sendo tão agradável uma jornada regada a rum pelos mares do século XVI…

Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (Pirates of the Caribbean: Curse of the Black Pearl, EUA – 2003)

Direção: Gore Verbinski
Roteiro: Terry Rossio e Ted Elliott, argumento de Stuart Beattie e Jay Wolpert
Elenco: Johnny Depp, Orlando Bloom, Keira Knightley, Geoffrey Rush, Jonathan Pryce, Jack Davenport, Kevin McNally, Lee Arenberg, Mackenzie Crook
Gênero: Aventura
Duração: 143 min

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