Logo de cara, após o término da longa e prazerosa projeção de Planeta dos Macacos: A Guerra, a sensação de ter assistido algo especial já é quase factual. A jornada que havia assistido até ali já deixava isso muito claro – quase a mesma jornada que essa nova fase da franquia Planeta dos Macacos no cinema trouxe para o público de hoje. Desde o primeiro filme, quando fomos apresentados ao personagem César, de Andy Serkis, já era perceptível que ele e sua história eram algo muito especial, não tão diferente da grandeza que já vimos antes em diferentes formas na clássica franquia.

Falo aqui com tanta ênfase, mas é realmente o sentimento que o final de Guerra, e o filme como um todo, te deixam ao fim; com a sensação de termos assistido a algo realmente grandioso. O final de uma épica e emocionante jornada que se iniciou humildemente lá em 2011 com o lançamento do surpreendente Planeta dos Macacos: A Origem, e depois viria conquistar a todos mostrando seu alto valor dramático e complexo misturado com pura diversão em 2014 com Planeta dos Macacos: O Confronto, e finalmente fincou sua marca aqui com Planeta dos Macacos: A Guerra. O filme desafia convenções e expectativas inevitáveis que o público em geral e os fãs da velha franquia e nova trilogia virão a ter, prometendo entregar algo recompensador e de alta qualidade! Ele cumpre as promessas que a bela pestana aberta do final de O Confronto deixou para o futuro, e a inevitável guerra que estava para se iniciar entre os macacos evoluídos de César e os últimos humanos remanescentes.

Com dois anos passados e inúmeras perdas para ambos os lados, um velho César, com o coração pesado em dor e arrependimentos para com seu antigo aliado Koba e os conflitos resultantes, lidera agora uma guerra que vai ocasionar o fim de uma das espécies. Até que ele se vê incumbido de uma verdadeira missão quase messiânica: liderar seu povo para um novo lar, longe do conflito humano. Mas, após um contra ataque violento da misteriosa figura do Coronel de Woody Harrelson, que acaba friamente tirando a vida da esposa e filho mais velho de César, este completamente destruído por dentro se vê rumo à vingança contra seu novo declarado inimigo. As consequências de seus atos serão maiores do que ele será capaz de suportar.

A discrepância entre os três filmes é percebida quando o rumo que Guerra tomará nos é apresentado. Talvez este seja um dos (muitos) motivos pelo qual a nova trilogia na franquia resultou tão bem até agora. Cada filme possui uma personalidade própria mesmo compartilhando do mesmo DNA; enquanto Origem fora uma pequena introdução para a jornada de César e a gênese da derrocada humana graças a suas arrogantes criações, Confronto foi sobre o frágil balanço da relação conflituosa entre humanos e macacos e sobre César precisar provar seu posto de líder de seu povo. Agora, em Guerra, temos a história de vingança pessoal de César e o confronto das suas responsabilidades para com seu povo contra esse temível novo inimigo.

Tendo essa noção, me atrevo a dizer aqui algo que muitas vezes vejo críticos usarem de forma presunçosa para definir certos filmes (na maioria blockbusters), mas não há maneira melhor de fazê-lo. Planeta dos Macacos: A Guerra é um filme mentiroso. Ou pelo menos teve um marketing mentiroso, nos enganando direitinho para acreditar que este filme se tratava de um blockbuster de ação recheado de épicos confrontos entre militares humanos e macacos com metralhadoras. Vertente essa que sim tem presença no filme… nos cinco (ótimos) minutos iniciais. Nas duas horas restantes de projeção encontramos essa trajetória dramática e pessoal do protagonista César, ao mesmo tempo lidando com os fantasmas do seu passado e com as responsabilidades de líder. Talvez frustrante para os mais adeptos do cinemão puramente entretenimento, e um bom manjar para os interessados em um cinema feito à moda antiga. E isso tudo se deve ao seu talentosíssimo diretor e a total liberdade criativa que lhe fora concedida.

Um símio diretor

É claro, sempre existirão aqueles que dirão que Matt Reeves é apenas um diretor de blockbuster contratual e que pouco possui de marca pessoal ao entregar sua visão. Só que Guerra é a exata prova do extremo contrário disso. Em recentes entrevistas para promoção do filme, Reeves enfatiza constantemente o quanto ele assistiu à clássicos ao lado do roteirista Mark Bomback para chegar ao melhor resultado possível nessa obra. Em outras palavras, ele foi beber da fonte do cinema clássico americano para fazer seu milionário blockbuster.

Isso me lembra uma constante comparação que ouvi, sobre como Dunkirk de Christopher Nolan emulava muito do cinema mudo na forma com que ele compusera as cenas entre os personagens e as sequências de guerra. O mesmo não se aplica aqui, claro, mas é tão interessante notar como Matt Reeves traz sim vários toques dessa linguagem visual primordial do cinema em sua nova abordagem na franquia, em pequenas doses, ao longo do filme. Temos constantes (bons) diálogos, mas são nos pequenos momentos silenciosos presentes onde brilham as emoções entre os personagens. Nas pequenas interações, as sutis trocas de olhares e singelos gestos. Nem preciso enfatizar o quão refrescante e quase divino é assistir a isso feito em um suposto blockbuster de ação e aventura. Talvez tal e qual Logan desse ano, o filme de Reeves não é sobre a ação e sim sobre seus personagens.

Uma coisa interessante na forma que Reeves dirige algumas dessas cenas mais íntimas é o seu extenso uso de zoom in em closes bem fechados nos rostos dos personagens. Uma técnica que pode talvez ser confundida com o que Jonathan Demme fez em Silêncio dos Inocentes, ao criar a intensa sensação de claustrofobia e medo colocando o espectador na fuça do Hannibal Lecter. Enquanto aqui, na verdade, temos uma forte influência de Sergio Leone sobre Reeves, ao filmar os rostos próximos da visão do espectador e entre os próprios personagens. Leone já usara isso de forma soberba em Era uma vez no Oeste, entre outros seus, e Reeves o replica, mas sem nunca copiar. A técnica leva à criação desse nível de intimidade e calor humano (ou macaco) imersivo, permitindo ao público adentrar ao drama e a esses pequenos momentos tão sutis.

O melhor exemplo disso é a primeira cena, quando conhecemos a Nova da jovem Amiah Miller e inicia-se o laço entre ela e Maurice. A cena é composta para ser sentida de forma muito natural, onde em cada take a câmera se aproxima mais e mais dos rostos de ambos os personagens com cortes suaves. Reeves sabe medir o timing certo entre cada relance de olhar que deve ser capturado. Em uma cena como essa, é no constante silêncio que floresce uma relação primal, pura e íntima, que nem os mais bem escritos longos diálogos conseguem capturar. É uma sensibilidade diretorial tão rara de se encontrar hoje em dia e tão fascinante de se assistir desenrolar.

Falando em Maurice, que personagem fascinante! É tão louvável ver como em um filme sobre a jornada de César, Matt Reeves consegue criar arcos fechados muito funcionais também para outros personagens em volta do protagonista. Maurice nunca brilhou tanto na trilogia quanto aqui, e Reeves o engrandece em níveis tocantes que habilmente se costuram com a narrativa do personagem desde o primeiro filme.

O espectador sempre o viu como o parceiro leal e inseparável de César. Talvez sejam reveladas aqui camadas que sempre estiveram presentes, mas nunca realmente exploradas sobre ele. Tanto em Origem quanto em Confronto, Maurice realçava seu receio com humanos, seu medo das crueldades das quais eles são capazes – algo que se conecta fortemente com o personagem do doutor Zaius do filme original, outro sábio orangotango. Com César, Maurice sempre ouviu e viu que os humanos tinham sim um lado bom e capaz de coisas puras. O olhar penetrante de Karin Konoval, a atriz que interpreta Maurice, revela esse raio cintilante de curiosidade sobre querer compreender o ser humano – isso já mostrado em suas interações com o personagem de Kodi Smith Mc-Phee em Confronto, e ainda mais aqui em sua relação com Nova.

Uma relação paternal e primal, onde Maurice talvez finalmente enxerga o lado mais puro dos humanos, tão sutilmente desenvolvida, mas que nunca passa despercebida. Em uma das cenas mais bonitas do filme vemos o gorila Luca e a jovem humana trocando gestos de afetos e sorrisos, com Maurice apenas observando com tanta admiração e curiosidade a criação de laços com o pequeno grupo de missionários desgarrados. Ela, aprendendo a se comunicar em sinais como eles só por naturalmente os observar. As interações levam, a certa altura do filme, a personagem à perguntar para Maurice se ela é uma macaca. A resposta de muitos seria a irônica porém factual de que sim, ela é bondosa e pura, sem um pingo de ódio ou preconceito em seu olhar e atos, ela transcende o homem. Mas não! Maurice a olha, pensa talvez exatamente isso, mas diz que ela é o que é, Nova, não importa sua espécie. Um ato de amor, respeito e carinho que ambos construíram ao longo do filme. Ironicamente aqui, é ele e Nova que voltam a mostrar essa fé e bondade para o espírito rachado de César, mas mais sobre isso depois.

Outro personagem que também recebe um interessante arco é o jovem Bad Ape (Macaco Mau) de Steve Zahn, o alívio tragicômico do filme. E digo tragicômico no sentido de como Reeves teve culhões de colocar em um filme tão dramático, meditativo, trágico e sombrio, uma surpreendente leveza de humor por meio desse personagem. O risco de se tornar uma distração irritante nível Jar Jar Binks é tremenda, mas o diretor e ator driblam isso com eficácia e o equilíbrio perfeito de tom na composição de sua personalidade. Não só sua existência já revela que há sim a possibilidade de mais símios inteligentes como eles existirem ao redor do mundo, como também mostra que ele mesmo é um reflexo do tratamento “doméstico” do homem. César fora criado sempre como um jovem bebê, um filho na sua família no primeiro filme original, já Bad Ape diz que aprendeu a falar e agir observando os humanos e a forma como eles o tratavam. De tanto ouvir a frase “macaco mau” sendo-lhe proferida, ele apenas a adotou como seu nome.

Enquanto César mais e mais age e fala como um homem devido a sua evolução, Bad Ape apenas replica o que aprendeu com os humanos, não só por usar vestimentas da espécie, mas pela predominância da apreensão, nervosismo e receio em sua personalidade. Com César e sua trupe, ele aprende a coragem e lealdade. E, assim como Maurice, Bad Ape descobre como valorizar seu lado primata após tanto tempo vivendo em medo como um humano. Se de início ele cobre todo o seu corpo com casacos para esconder sua faceta primata, no final ele se curva e urra tão livremente como o macaco que ele aprendera a ser e sem medo algum de assim se assumir no meio dos seus, mais e mais dominantes no planeta.

Ape-pocalypse

Mas mesmo tendo o total foque dramático em alta perspectiva no cerne do filme, ainda é muito gratificante notar como Reeves comanda a ação com um senso de realismo bem palpável, mas sem nunca perder o senso de pura diversão escapista. Não que ele não tenha comandado de forma semelhante e excelente em O Confronto, mas tanto a icônica cena do tanque quanto a luta final entre Koba e César iam mais para o lado da diversão e entrega emocional para a história do que realmente o realismo da situação, coisa que ele aparenta querer preservar bem aqui.

Isso já se nota na fantástica sequência de batalha na introdução do filme, com Reeves mostrando uma excelente construção de plano fechado seguindo os soldados de armamento pesado e altamente treinados de perto ao topo do campo da batalha que está prestes à começar. O diretor já demostra a distorção de convenções que vai praticar ao longo do filme. De primeira, o público pensa o óbvio: os macacos estão preparando uma emboscada para os humanos, que vão cair feito patinhos. O intenso tiroteio se inicia, surpreendendo, e vários símios são metralhados e arremessados em explosões sem piedade. Pensamos que Reeves vai optar por um plano sequência mirabolante no intuito de impressionar, mas ele é sutil quanto a isso e usa um plongé sobrevoando a batalha, quase que nos afastando do calor do massacre que vemos de forma agonizante.

É um perfeito jogo de xadrez, os humanos fazem seu movimento e usam seus armamentos pesados e modernos contra os macacos e pensam logo que estão em vantagem. Em um corte, um dos soldados símios grita, à cavalo, e nós pensamos que ele está indo alertar César. Não está: da intensa fumaça florestal, o mesmo personagem agora lidera uma cavalaria de macacada como verdadeiros apaches indo para a batalha, surpreendendo os humanos com uma chuva de flechas que os dizima facilmente. Cinco minutos de pura glória de ação, vimos como os humanos e os macacos lutam, de maneira perfeita.

Talvez seja mesmo um tanto frustrante não podermos ver mais disso no decorrer do filme, mas, como disse, Guerra não é sobre as batalhas e a ação em si, e sim as consequências das mesmas, representada em seus (ricos) personagens. A cena inicial serve praticamente para resumir os dois anos de intensa guerra que César vem enfrentando com o misterioso Coronel e sua facção militar Alpha Omega. O resto do filme, é a jornada de sobrevivência e vitória da mesma.

Essa percepção recai no consciente do público ao começarmos a acompanhar César mais de perto. Sua missão não é a de um líder de guerra, um general em busca da vitória contra os adversários. Ele tem, na verdade, papel de um guia, um messias para seu povo, tentando levá-los para longe da guerra na luta pela sobrevivência. Isso se torna explícito quando descobrimos, mais tarde, o intuito psicopático do Coronel: construir seu insano muro para se defender do outro exército humano, que são contra suas medidas extremistas e genocidas (qualquer semelhança com a realidade de hoje é pura coincidência aos olhos dos mais cegos). Tais situações mostram como César realmente é a força pulsante que molda e desenvolve a narrativa, e tudo e a todos que a cercam desde o primeiro filme.

Uma Força da Natureza

A trilogia É César e sobre César, e tudo que se deriva disso. Talvez seja exatamente por isso que Origem foi o filme que trouxe a franquia de volta a vida de modo tão refrescante, com riqueza ao se afastar aos poucos da visão protagonista humana, para focar na jornada que o primata César inicia desde seu primeiro batimento de vida quando lhe é recebida a dádiva da inteligência. Tudo que se construiu até agora nesse universo fora por sua causa. Em Origem seu nascimento quase milagroso ocasionou a criação do LZ 112, que veio a ser o vírus que exterminaria a raça humana, e o mesmo que ele usou para libertar seus irmãos símios da opressão. Em Confronto, todo o risco do início de guerra entre os humanos sobreviventes e os macacos é um peso que César tem que carregar nas costas. Enquanto tenta apaziguar as relações com o humano Malcom de Jason C. Clarke, pois via nele o lado bom da humanidade, precisa ao mesmo tempo controlar o ódio mortal que movia Koba contra os humanos e ocasionou em sua traição e derrocada de César como líder. Agora, finalmente em Guerra, César em sua fase idosa e madura, enfrenta as consequências de uma vida inteira e da própria existência de duas espécies, tudo elevado ao nível psicológico mais íntimo possível.

Ele não é nenhum líder de guerra como o seu próprio nome sempre sugeriu. Serkis, na criação psicológica e emocional do seu personagem, inteligentemente sempre o construiu como essa figura simbólica, talvez infalível, o líder perfeito. Uma amálgama de “O Príncipe” de Maquiavel ou “O Leviatã” de Thomas Hobbes, o líder justo em um mundo injusto, que aqui lentamente o corrói por dentro.

Reeves parece ter entendido isso tão bem que já ajudara na construção desse conceito com Bomback em Confronto, e a desconstrução do mesmo agora em Guerra. Elevando essa figura do líder outrora perfeito e justo, agora quebrado com a moral em balanço, caracterizado como um pistoleiro errante em uma jornada movida a vingança, carregado de dor e amargura como Clint Eastwood em Os Imperdoáveis ou Josey Wales – O Fora da Lei. Esses detalhes garantem um primeiro ato inteiro onde parece estarmos assistindo um Western revisionista meditativo com macacos a cavalo, que é simplesmente uma imagem sensacional de se assistir.

O melhor estilo Faroeste pode ser visto na cena onde o grupo de César se encontram em uma vila abandonada e veem um humano carregando uma pilha de lenha. Quando este vai sacar a arma, um tiro rápido e certeiro o atinge do nada, enquanto César sai detrás de um celeiro com um semblante de prazer seco no rosto pelo que acabou de fazer. E logo descobrimos que o homem era o pai de Nova, o novo peso moral que César terá que carregar. A referência também surge em cenas paisagísticas BELÍSSIMAS onde vemos o grupo cavalgando pelas florestas frias e as montanhas geladas que quase lembram O Regresso de Alejandro González Iñárritu ou O Grande Silêncio de Sergio Corbucci. Mais uma vez Reeves tratando suas influências cinematográficas para a construção temática e dramática do seu ambicioso longa, mas não para por aí.

Desde seu nascimento é notável como César foi tratado e criado como um verdadeiro milagre. Ele foi a vida que venceu a morte que assolou sua pobre mãe, e dos seus genes se iniciou a nova espécie dominante. Reeves parece voltar a abordar isso fortemente, ao ponto de ser um bom reflexo do desenvolvimento do personagem até então, indo por caminhos verdadeiramente messiânicos ou uma certa releitura de uma parte bem conhecida do antigo testamento. A criação de César em Origem pelos humanos quase se forma um retrato da infância rica e próspera de Moisés em meio da casta, ou espécie, superior, seguido de seu afastamento e exílio da mesma.

Confronto foi a sua prova como líder perante seu conflituoso povo, assim como Moisés o teve que fazer. Já agora em Guerra, se trata de sua jornada rumo ao Êxodo, a se tornar o guia de todo seu povo para longe dos conflituosos humanos guerreando violentamente entre si. Mas como disse, este não é o mesmo César sábio e puro em suas intenções, a dor e o ódio dominam mais e mais seu coração e o cegam de suas reais responsabilidades. Sua fixação em encontrar o Coronel se torna sua doença espiritual, enquanto Koba, seu irmão aliado, ainda assombra seus amargos e ressentidos sentimentos.

Nunca estivemos tão investidos com seu personagem como aqui. Dê a César o que é de César e é exatamente o que Reeves finalmente pode entregar ao personagem – sem precisar se preocupar com outros núcleos narrativos humanos um tanto distrativos como nos filmes anteriores. Guerra é acima de tudo, também, um ótimo estudo moral e psicológico do personagem macaco mais humano que a franquia já teve. Quando César comete os erros, tão humanos, que vão literalmente contra sua natureza, sentimos sua derrocada interna e que ele se aproxima mais e mais de um destino incerto. Eis que entra o Coronel na história!

A Guerra

E se vocês pensavam que Kong: A Ilha da Caveira foi o blockbuster com mais influência de Apocalypse Now de Francis Ford Coppola que alguém viria a fazer, esperem até conhecer o Coronel de Woody Harrelson e sua unidade militar pessoal desgarrada. E nem estou falando da fabulosa carequinha que, claro, lembra o semblante psicótico nu de Marlon Brando como general Kurtz, e sim tudo que lhe remete as insanidades de guerra que seu arco evoca.

Com muitos apontando que é nesse ponto onde o filme perde muito de seu ritmo e foco, o que acontece é o absoluto contrário. Reeves se alonga sim por um bom tempo nesta metade do segundo ato, mas estamos tão investidos na narrativa e com todos os personagens que sinceramente não vejo um tico de ritmo quebrado e uma história LONGE de ser tediosa. Foi o momento para qual César estava sendo construído até então e finalmente entrega as caras sombrias da Guerra que estampa o título do filme.

É tão gratificante ver como Reeves não tem medo ou pudor algum de lidar na cara dura com temas de escravatura, militarização exacerbada e com semblantes de holocausto quando nos submete a uma boa meia hora de filme onde vemos a intensa tortura que o povo de César está passando nas mãos do Coronel. Temas que rememoram o pior da humanidade e sua história de guerrilhas vazias, tanto um histórico americano quanto universal. Já falei do tal muro que o Coronel inóspito e movido a insanidade e medo coloca os macacos para construir e manter os “invasores” que divergem de suas opiniões e ideais?! Qualquer semelhança com a realidade está mais do que descancarada, nunca em um nível forçado e sim completamente eficiente.

E é exatamente isso tudo que o Coronel representa aqui, assim como Kurtz em Apocalypse Now, ele é um produto do medo e ódio causado pela guerra que se reflete em suas ações frias e cruéis que levam ao sofrimento de César, que só iria se intensificar agora. O embate entre ambos nunca parte pro clichê físico e sim o bem escrito diálogo que se sucede.

Quando finalmente vemos herói e vilão frente a frente em cena, a psicopatia do personagem de Harrelson já é estampada. Começando a fazer menções a Napoleão e a Kuster e seus rivais históricos, onde procura proferir uma conexão de nemesis entre ambos, os opostos perfeitos. Um tanto forçado na cara esse momento, mas que funciona ao realmente fazer o espectador sentir a palpável rivalidade entre ambos, ainda melhor representada no intenso diálogo que marca o meio do filme – facilmente visto e julgado como pobre expositivismo como pude reparar por muitos, mas é tudo tão bem salientando dentro da narrativa e nas convicções de seus personagens, e no próprio universo da franquia!

Quando o Coronel revela o extermínio contra os humanos que perderam a habilidade de falar devido à evolução do vírus símio, que ocasionou na sua guerra com a outra facção humana, já indica que este é o ápice do fim do que resta da humanidade. Ainda no fim, eles continuam em guerra e a se matar, o que claro vai levar à sua inevitável queda e o início do domínio primata, tal e qual aconteceu no filme original, não é mesmo?!

O Coronel é tão ciente disso que tanto admira quanto teme César e os seus. Não é por nada que ele deixa possuir alguns macacos desertores em seu exército, ele os quer por perto tanto para provocar a moral de liderança quebrada de César quanto ter alguns dos seres fortes e superiores sob seu domínio. Junto de César, o espectador consegue formar um quadro bem nítido do Coronel nessa cena, e ambos os atores dão um show de atuação. Principalmente Serkis, que com puras expressões transita Cesár entre indiferença, medo, pena e depois ódio para com seu rival. Até Harrelson meio que abandona um pouco seu manto de Kurtz silencioso, misterioso e temível quando começa a dialogar e se torna o bom e velho Woody que conhecemos, mas sempre investido no papel e totalmente intimidador.

E assim se iniciam os longos momentos de tortura emocional e psicológica de César ao ver seu povo, mais uma vez submetido à opressão humana. Criando-se uma dinâmica de filme de guerra de prisão estilo Ponte do Rio Kwai de David Lean, onde vemos César constantemente exigindo água e comida para o seu povo, que lembram bastante o relacionamento do Coronel Nicholson de Alec Guinnes com o Coronel Japonês Saito de Sessue Hayakawa. A guerra sendo travada psicologicamente e moralmente entre os dois líderes. Onde mais uma vez, desde Origem que vemos César encarcerado e sofrendo pelas mãos dos humanos e lutando para libertar seu povo. Você já me ouviu balbuciar aqui demais as comparações e ligações com os filmes anteriores, mas eis o fato que se prova de como Guerra é o ápice do excelentíssimo desenvolvimento de personagem que submeteram César em sua jornada até então. Agora presenciamos o seu inevitável fim. Mas a esperança é a última que morre em um épico!

Sim, mesmo nessa intensa e extensa sequência totalmente Apocalypse Now do filme, Reeves não deixa de ascender o espírito messiânico do épico bíblico à la Dez Mandamentos que ele traz pra esse filme. O momento de tortura e ruptura de César, também é o de sua salvação.

Um dos mais belos e tocantes momentos do filme se sucede quando vemos Nova outra vez em cena, dando água para César quase que milagrosamente, um semblante direto à Ben Hur, que no momento de sua pouca fé e derrocada esperança, um pequeno ato de bondade tão puro lhe desperta o espírito a tanto tempo perdido dentro dele. E momentos antes quando César se ergue em revolta no meio da tortura de um pobre símio e se põe em seu lugar, uma estrondosa trilha de Giachinno toca ao fundo (mais sobre essa depois) e todos macacos juntos se revoltam juntos contra a opressão que lhes é embutida pelo Coronel. É a perfeita versão primata de EU SOU SPARTACUS, aqui representada em: MACACOS, JUNTOS, FORTES!

A própria figura de César pendurado na cruz em X e o golpe mortal de seu ferimento no final vindo de uma seta atirada pelo soldado Preacher de Gabriel Chavarria é outro semblante bíblico, dessa vez à Jesus e sua morte pela lança do centurião. Aliás, note como nesse terceiro ato inteiro, que tem início logo após a retomada de força e fé de César, como há outras das várias quebras de convenções e clichês que Reeves realizou nesse filme inteiro.

Para além do fato de em um filme inteiro de quase duas horas e meia de projeção, sendo este um blockbuster milionário vendido como ação, temos apenas duas grandes sequências da mesma e que nunca são o foco de maior atenção, embora Reeves comande ambas com firmeza e imenso profissionalismo. Essa última com um escopo gigantesco com direito a helicópteros, lança torpedos e um imenso exército com tanques e blindados formando o cenário de batalha dignas de um verdadeiro blockbuster, mas sendo apenas um pano de fundo para o conflito interno que os macacos enfrentam dentro da prisão.

Assumindo assim uma faceta totalmente inspirada em Fugindo do Inferno de John Sturges, vemos o mirabolante plano dos macacos se sucedendo para fugir da prisão em meio do conflito sendo o grande clímax do filme, sem um pingo de exageros grandiloquentes ou mortes esperadas e gratuitas. É mais uma vez Reeves aplicando a sutileza, tanto que o confronto final entre César e o Coronel é nesse enclausurado e sombrio ambiente com o feel claustrofóbico totalmente de Apocalypse Now, onde vemos a derrocada da nova subespécie do Coronel, mudo e babando como um animal enquanto César mais e mais humano recupera sua razão e pureza, sem descer ao nível violento de nossa espécie.

Mais uma vez vemos essa subversão do convencional com o “início da morte” de César ter vindo das mãos de Preacher, o típico personagem de jovem soldado medroso que o público remeteria como o lado bom da humanidade ou dos soldados do Coronel. Aquele que ajudaria César ou os Macacos em algum momento, cansado da crueldade do Coronel e por ter visto bondade em César quando este lhe poupou a vida no início do filme, mas não. Cede ao medo e o ódio e está pronto para matar César quando Donkey, o gorila traidor e que fora caracterizado como vilanesco, salva a vida de César no último momento, arrependido de ter traído sua espécie e, assim, recuperando sua natureza. O humano cede ao medo e ódio, e os macacos se salvam devido sua honra e lealdade, mesmo nos piores momentos.

Em sequência, César salva a todos explodindo o muro do Coronel, o símbolo da opressão humana – o que ocasiona num inesperado Deus Ex Machina com o surgimento de uma enorme avalanche que literalmente dizima o vasto exército humano invasor e salva os restantes macacos. Quer maior metáfora que essa pra Moisés abrindo o mar vermelho para seu povo e o fechando em cima do exército opressivo que os perseguia? Nem Ridley Scott fez melhor em Exodus: Deuses e Reis!

Terão aqueles que dirão que argumentos como esse fazem a defesa do indefensável, mas apenas estou salientando o que Reeves construiu tão bem no filme que ele queria fazer e posso afirmar que acerta em tudo a que se propõe.

Aliás, talvez seja uma comparação xula a que farei aqui, mas se Logan foi o encontro do cinema Western clássico e o road movie setentista com o moderno gênero de Super-heróis, talvez Planeta dos Macacos: A Guerra seja um casório apaixonado, arrojado por Reeves, entre o grande cinema épico clássico com o blockbuster moderno de hoje. Uma junção de influências cinematográficas que o diretor tanto admira e cresceu assistindo desde o Western e o épico, os adaptando de forma sensacional e até nostálgica para o público de hoje. Tudo isso ainda com ecos fortes dos clássicos Planeta dos Macacos.

 

Um Planeta dos Macacos

Imagino como seria a reação de Pierre Boule ao ver a repercussão e transformação que a adaptação de sua obra tomou. Nem vou me ater a falar da importância que o filme original teve pois este fala por si mesmo. Mas algo tão notável, tanto no filme de 68 quanto suas mal vistas continuações, foram como tiveram a coragem de espelhar temas e situações derrocantes da humanidade de suas respectivas épocas, que ainda podem ser vistas como problemáticas sociais até hoje. As consequências da guerra nuclear e corrida armamentista no original; fundamentalismo religioso e sistema de classes em De Volta ao Planeta dos Macacos; a tensão racial em ambos Fuga e Conquista do Planeta dos Macacos; a crise farmacêutica, opressão animal e epidemia de vírus em Origem; e militarismo e confronto étnico e religioso em Confronto.

A premissa de macacos subdesenvolvidos dominando humanos foi apenas usada como contexto para criar um reflexo da nossa fraquejante humanidade, um alerta para nossas próprias mazelas ao mundo e ao meio social que vivemos. Matt Reeves parece ter sido uma bênção pois compreendeu tudo isso que a subestimada franquia representa desde os primórdios e a ajudou a se atualizar tão excelentemente nos dias de hoje. Assim como no original, Guerra, e os outros anteriores da nova trilogia recuperaram esse espírito e mostraram como o cinema blockbuster pode e consegue ser tão cinematograficamente e artisticamente rico. Tanto em garantir o escapismo e diversão com ação, e o bom e velho nos fazer refletir sobre nós mesmos. Um filme que é tão bom quanto (se não melhor) que grande original de Franklin Schaeffler.

Outro trabalho que precisa de forte destaque aqui, e que também ajuda no despertar do espírito da franquia, é a EXCELENTE trilha sonora do sempre tão promissor Michael Giacchino. Talvez não uma trilha propriamente “memorável” eu diria, mas a excelência de seu trabalho se encontra mais na construção desta. Não esquecer claro do ótimo trabalho que Patrick Doyle realizou em Origem ao conceber uma sinfonia tão leve e estrondosa nos momentos certos na construção do início de uma longa jornada que seria a vida de César. E Giacchino claro que se estreava nessa franquia em O Confronto e entregou uma boa e excitante trilha para um ótimo blockbuster, mas não um de seus melhores trabalhos como ele viria a realizar em Guerra.

Se a brava Fox deu carta branca para Reeves pra fazer o filme que quisesse (o que geralmente eles vem fazendo muito pelo visto), ele a dá para Ghiaccino realizar suas ambições aqui com sua nova sinfonia. Nunca vi o compositor em um modus operandi tão experimental como ele se apresenta, constantemente trocando entre ferozes percussões tribais para a melodia leve e sutil nos momentos dramáticos do filme, e a sinfonia épica e estrondosa em seus momentos finais. Destaque de como ele consegue deixar o filme exatamente quieto e silencioso quando necessário e com pequenos tons em alguns diálogos sem estragar ou formar uma distração sonora, e sim um bom implemento. Um trabalho que ouso dizer que muito se assemelha (se não supera) ao trabalho de Jerry Goldsmith no Planeta dos Macacos original. A influência é quase clara para os fãs da franquia original e Giacchino aqui faz total jus a ela com pouco esforço em um tom tão classicista e ao mesmo tempo atual e difícil desgostar.

E existe (por alguma razão) quem reclama de como a franquia se tornou um caro caça níquel quando abandonou um de seus marcos que fora a ESTONTEANTE maquiagem símia que criara os personagens nos filmes clássicos, e preferiam o uso de computação gráfica atualmente. Bom, não sei mesmo do que reclamam quando o que temos aqui com o trabalho de efeitos da Weta é nada menos do que extraordinariamente perfeito. Nunca os macacos e o próprio César estiveram tão realistas na trilogia quanto aqui. As ricas e detalhadas expressões faciais; os pelos divergentes em cores e convencendo na pelagem seca e molhada; as lágrimas escorrendo dos olhos de cada um são tão palpáveis (tirando as nossas durante alguns momentos). Estou começando a pensar que eles vem usando macacos subdesenvolvidos verdadeiros nesses filmes e tudo está sendo mantido em sigilo de estúdio.

Um Futuro incerto, mas promissor

Fica sempre a dúvida, no final, se haverá mais a partir daqui. Em um tempo onde vemos franquias com infindáveis continuações e universos compartilhados sendo criados a cada esquina, eis que tivemos aqui uma trilogia redondinha com seu início meio e fim coesos como principais focos de cumprimento de seus criadores, ainda mais depois de um final tão digno e emocionante dado a César aqui. 

Em uma pequena sequência César leva seu povo pelo deserto rumo a sua terra prometida, numa cena que quase me remeteu a um filme de John Ford, e encontra seu fim ao lado do amigo Maurice com um diálogo rápido, puro e sincero sobre o legado deixado, um momento pessoal e uma morte íntima – Reeves finalizando o filme com um plano focado no céu. Seria um chamativo para a vinda do Taylor de Charlton Helston do filme original conectando ambos os filmes, ou seria apenas uma pequena referência? Seria a jovem Nova a mesma Nova que Linda Harrison interpretara no filme original? Seria o jovem filho de César, Cornelius, o mesmo chimpanzé Cornelius que Roddy McDowell interpretou no filme original? Seja o que for acontecer, não me importaria de ver uma nova reinterpretação desse universo, mas o que temos aqui de conclusivo está mais que perfeito. 

Mas vou tentar me amenizar aqui nessas últimas linhas, por mais que meu lado fã esteja queimando em felicidade. Mas de fato Guerra talvez não seja mesmo uma OBRA-PRIMA AVASSALADORA ALTAMENTE MARCANTE que a voz do hype sempre dita em filmes que geram o valoroso boca a boca. Está claramente longe de ser perfeito e um real marco. 

Mas eu também disse a mesma coisa após ter assistido Mad Max: Estrada da Fúria, e hoje o considero facilmente um dos melhores filmes de ação que o cinema já concebeu, sem pensar duas vezes. Só o tempo dirá o que poderemos dizer de Planeta dos Macacos: A Guerra no futuro, mas com o filme ainda fresco e se remoendo em minha memória, posso sim afirmar que é algo de pura excelência o que Matt Reeves entregou aqui. Um filme que faz perfeito jus ao legado da clássica franquia e o honra em grande louvor em um dos melhores (se não o melhor) filme Planeta dos Macacos já feito! E um verdadeiro entretenimento soberbamente concebido com alma, qualidade e muita humanidade!

Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes, EUA – 2017)

Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves, Mark Bomback
Elenco: Andy Serkis, Toby Kebbell, Judy Greer, Woody Harrelson, Steve Zahn, Ty Olsson, Amiah Miller, Karin Konoval
Gênero: Ficção Científica, Drama, Thriller
Duração: 140 minutos


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