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Há um lado dentro da filmografia de Steven Spielberg que preza por uma abordagem mais descontruída e totalmente diferente de suas investidas nos famosos dramas históricos como A Lista de Schindler e Império do Sol. Tal vertente se respalda em um olhar tanto cômico quanto trágico acerca da ficção científica ou das aventuras fabulescas – e não é à toa que o diretor é responsável por algumas das maiores obras-primas da história do Cinema, incluindo a franquia Jurassic Park e o primeiro blockbuster a chegar às telonas, Tubarão. E o que acontece quando Spielberg resolve juntar dois extremos de sua identidade narrativa em um mesmo longa-metragem? Claramente uma perspectiva original e até mesmo bizarra, em certos aspectos, e que, em 2002, tomou forma como a tragicomédia baseada em fatos reais Prenda-me se For Capaz.

Ainda que tenha suas evidentes falhas e não consiga dosar de modo equilibrado os inúmeros gêneros que tenta explorar, essa história definitivamente vale o preço do ingresso – ou o tempo que passamos assistindo-lhe. A trama gira em torno de Frank Abagnale Jr. (Leonardo DiCaprio), um jovem estudante cuja vida é espelhada nas duvidosas conquistas de seu pai, Frank Abagnale Sr. (Christopher Walken), cuja notável ascensão sempre inspirou o garoto a conseguir alcançar os seus objetivos. Não é nenhuma surpresa que seu irreverente intelecto muitas vezes o coloca em uma situação de desprezo, principalmente ao lado de pessoas de sua idade – mas o nosso anti-herói sabe muito bem como se virar e faz parte de uma das primeiras sequências que o transformam completamente, na qual finge ser um professor substituto de francês por duas semanas até ser pego.

Desde o primeiro ato, o protagonista dá ares de ser muito afável às técnicas de falsificação e golpe, ajudando inclusive uma colega de sala a falsificar um documento de dispensa. Todo esse escopo não é infundado e conversa justamente com o que acontece dentro de sua própria casa – e o fato de aqueles mais o apoiam estarem em um casamento em ruínas. As coisas se complicam gradativamente até o momento em que o pai e a mãe, Paula (Nathalie Baye), resolvem se separar, dando-lhe a força necessária para fugir de casa, embarcar no primeiro trem que encontrar e começar uma nova vida do zero. Essa impulsividade, que se mantém constante até o final da narrativa, conversa com o fato de não ter controle sobre os acontecimentos que impactam em si mesmo e culmina em uma tentativa desesperada de ganhá-lo e fazer o que bem entender.

Frank logo de mostra um nato falsificador, arquitetando inúmeros planos para viver no luxo que sempre quis e abandonar um passado traumático sem esquecer daqueles que permitiram sua liberdade. Apesar de carregar certas mágoas, ele não quebra laços com os pais, mandando-lhes cartas sobre o que supostamente estaria fazendo – no caso, estudando para se tornar um piloto de avião e viajar pelo mundo. Entretanto, o ácido roteiro assinado por Jeff Nathanson sabe trabalhar muito bem com esse jogo narrativo e, aliado a uma montagem contraditória e cômica realizada por Michael Kahn, mostra que as aparências muitas vezes enganam; enquanto acreditamos que ele realmente pode carregar um pouco de honestidade consigo, ele passa seu tempo livre entregando cheques sem fundo para tentar viver com o mínimo possível – e as coisas mudam se forma brusca quando ele tem um insight.

DiCaprio faz um incrível trabalho ao resgatar todos os trejeitos, por mais bizarros que sejam, de uma das mentes mais brilhantes dos Estados Unidos. Devemos levar em consideração que o filme é ambientado em meados da década de 1960 e traz como foco principal um garoto de dezessete anos de idade que resolve tomar as rédeas do próprio destino. E, partindo da premissa que ele sabe muito bem no perigo em que está mergulhando, ele resolve pular de cabeça em uma loucura sem precedentes ao entrevistar o dono de uma companhia aérea, coletar todas as informações possíveis sobre o ofício de ser um piloto e então passar-se por um deles para cruzar os oceanos da forma mais rebelde possível. E isso não é tudo: Frank tem a capacidade de se mesclar ao ambiente em que está sem saber exatamente do que está falando e conseguindo passar a ideia de que é um expert – e esse é, com certeza, o ápice de toda a obra.

O filme é dividido em três blocos bem estruturados e que marcam a ascensão, a crise e a queda desse herói completamente às avessas e que, de modo bem simbólico, apenas exprime os extremos de nossa busca pela individualidade e pela estabilidade. E como toda boa obra de perseguição, temos a representação do mocinho, a qual é encarnada pelo carisma e pelo talento de Tom Hanks como o agente Carl Hanratty, responsável dentro do FBI pela resolução de crimes de fraudulência. Ele eventualmente se vê dentro do forte construído por Frank e faz de tudo para seguir seus passos e finalmente conseguir pegá-lo, ainda que ele só o consiga em um momento de trégua em meados do último ato.

Talvez aqui é onde os deslizes deem mais às caras: é claro que a recriação dos fatos verídicos segue uma construção mais floreada, principalmente para abrir brechas de conexão com o público. Mesmo assim, não podemos deixar de perceber que alguns momentos beiram uma impossibilidade além do palpável e do irreverente, tornando momentos que poderiam ser melhor explorados risíveis e titubeando entre a ridicularização e a canastrice. Os problemas estruturais de certa forma passam por uma lapidação à medida que a missão de Carl torna-se uma questão de honra para salvar sua reputação laboral, conseguindo atingir a “superior” personalidade do rapaz com alguns jogos psicológicos que resgatam seus traumas mais sombrios, ao mesmo tempo em que ele não consegue entender como Frank sempre está um passo à frente de seus planos.

Outro ponto que talvez deixe a desejar dentro dessa atmosfera é a trilha sonora arquitetada por John Williams: de nenhum modo estou dizendo que a composição musical é falha, incompleta ou medíocre, ainda mais levando em consideração quem é responsável por ela; o que digo é que, dentro da atmosfera de perseguição, a entrada de instrumentos como violino e violoncelo – e até mesmo a presença de uma sutil flauta – é dissonante e excessivamente caprichosa para uma narrativa baseada em fatos reais. Essa identidade sonora permanece até os segundos finais, cuja escolha infelizmente torna a resolução um tanto quanto clichê.

Prenda-me Se For Capaz vale pelas incríveis performances de DiCaprio, Hanks e um elenco que não faz nada além de ostentar seu brilho em cena. É claro que a história envolve em grande parte, mas se distancia de um cativado público quando cede aos exageros e a algumas imperdoáveis saídas formulaicas.

Prenda-me Se For Capaz (Catch Me If You Can, EUA – 2002)

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Jeff Nathanson, baseado no livro de Frank W. Abagnale e Stan Redding
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hanks, Christopher Walken, Martin Sheen, Nathalie Baye, Amy Adams, James Brolin, Brian Howe, Frank John Hughes, Steve Eastin
Gênero: Biografia, Drama, Crime
Duração: 141 min

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