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Após um passeio entre as mitologias grega, romana, egípcia e nórdica, Rick Riordan volta a mergulhar no universo grego – porém, desta vez, sem o auxílio de Percy Jackson. O Oráculo oculto é o primeiro livro de As Provações de Apolo, contendo outros cinco volumes. A história começa seis meses após os acontecimentos de O sangue de Olimpo, ou seja, é uma continuação das outras duas sagas.

Como praxe da escrita de Rick, a narrativa é lotada de sarcasmos e ironias; a começar por Apolo – Deus das artes, perfeição, profecia e cura – ser reduzido a Lester Papadopoulos, um adolescente de 16 anos, mortal, com gordura e acne jogado numa caçamba de lixo.

Pela primeira vez, o autor ousa mudar seu enredo habitual – e um pouco cansativo por tantas repetições – de heróis semideuses como protagonistas partindo atrás de uma profecia e, basicamente, sem ajuda dos deuses. Desta vez, o oráculo está bloqueado, não havendo, então, profecias para iniciar missões e muito menos heróis disponíveis. Ao colocar um deus como personagem principal, Riordan traz mais um pouco de seus livros clássicos, porém com essa torção que nos permite ter um olhar de como é ser divino e nos dá uma perspectiva diferente sobre o vilão – já que eventualmente podemos contar com lampejos de memória de Apolo.

Para os que se perguntavam sobre os sete semideuses após a guerra contra Gaia, Rick dá algumas atualizações – como Percy amadurecido se preparando para a ir à faculdade com Annabeth e Piper viajando feliz com Jason e seu pai. Não os colocar como principais foi algo inteligente, pois depois de passar tanto tempo com eles, estamos extremamente ligados aos heróis e seus futuros brilhantes. Ou seja, mantê-los perto, porém tentadoramente fora de alcance torna suas aparições ainda mais emocionantes e permite que a história se concentre em personagens que não tiveram tanto tempo no centro das atenções.

A narração em primeira pessoa caiu como uma luva e arranca boas risadas, pois vemos a completa evolução – e humanização – de Apolo ao decorrer da história. Ele é, como você pode lembrar, terrivelmente egocêntrico e hilariante por seus comentários e características anti-heroicas. Mas a medida que a história se desenrola, a profundidade de sentimentos dentro dele rapidamente se evidencia. É surpreendente pensar que o deus nos conquista logo nos primeiros capítulos, já que personagens queridos como Nico, Leo, Percy (e Bob), heróis olimpianos, só conseguiram nos cativar depois de passar cerca de mil páginas com eles.

Trazendo lembranças de A Maldição do Titã – livro no qual Apolo fica fissurado por poesias japonesas – os títulos dos capítulos são escritos com haicais, propositalmente péssimos para gerar ainda mais ironia em torno do deus das artes.

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Riordan trabalha constantemente para preencher e expandir o universo de seus livros. Além do Acampamento Júpiter, o autor traz algumas referências a Magnus Chase e os Deuses de Asgard também. Lembrando-nos que, sim, esses livros estão todos conectados, mesmo que apenas pelo mais fino dos fios.

Através das habilidades divinas de Apolo, Rick carrega a narrativa com alusões ligadas à música, literatura, arqueria e medicina – como Britney Spears no VMA de 2007, Festival de Woodstock, Yoko Ono e John Lennon, Sweet Carolne, criação da coroa de louros, etc

Já que Apolo está, a princípio, desmemoriado e sem poderes, era necessário criar um personagem novo e forte para proteger e ajuda-lo em sua trajetória. A escolha foi certeira com Meg McCaffrey – a rainha do lixo – além do péssimo gosto para roupas, outras características a tornam excêntrica, como a aparição memorável salvando o dia com sacos de lixo e bananas podres, e ter poder suficiente para invocar karpos – tirando todo seu histórico pessoal, que aparenta ser essencial para a solução da trama. Semelhante a Leo Valdez, Meg destaca-se dos outros semideuses que estamos acostumados, ambos enfrentam os perigos com senso de humor e extrema força, porém sem se tornar o centro.

Como já sabemos, Rick é um amante da diversidade, e mostra isso claramente ao não deixar que a mitologia seja o único aspecto presente em seus livros. Em o Oráculo oculto, ele incorpora várias nacionalidades e etnias para tornar o Acampamento Meio-Sangue dinâmico – há uma enorme quantidade de novos semideuses, alguns até brasileiros. A questão LGBT também volta a ser abordada – e até expandida, já que em A casa de Hades, Nico apenas confessa ter tido uma queda por Percy – desta vez, temos a história de Apolo com Jacinto, e também o pensamento do deus sobre seu filho, Will, namorar Nico. O comentário franco pode soar um pouco pesado para alguns adultos, mas pode dar abertura a muitas discussões abertas com os filhos após ler este livro.

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Aliás, sobre pais e filhos, podemos citar o relacionamento desenvolvido entre Apolo, Austin, Kayla e Will. Toda a cumplicidade entre eles é algo bem profundo e são essenciais para a evolução de um deus autocentrado à uma figura simpática, amiga, e, estranhamente, paterna. Quando sua prole precisa ser resgatada, ele se mostra determinado a encontrá-los, mesmo estando sem poderes e com um grande risco de ser morto. Colocá-lo nesta posição de responsabilidade é um grande passo para o autor, que geralmente mostra os deuses com poucos sinais de afeto quando se trata de suas crianças; também nos remete a aquilo que dizem sobre “pais quererem sempre o bem de seus filhos e fazerem tudo por eles”.

O antagonista desconhecido é o que chama mais a atenção, tornando-o o prato principal, pois conexões sutis, encontradas nas duas primeiras sagas, criam um vilão que pode não parecer tão perigoso quanto Cronos ou Gaia, mas é esperto e possui influência o suficiente para conspirar há todo esse tempo, estudando as possibilidades entre os semideuses e aguardando o tempo certo de atacar.

No entanto, se por um lado O oráculo oculto atrai e inova, por outro decepciona e afasta alguns leitores; Riordan insiste em reciclar ações desgastadas, assim como Percy Jackson e os Olimpianos, tem Luke como traidor e Silena Beauregard como espiã. Os heróis do Olimpo têm Octavian como servo de Gaia. As Provações de Apolo também apresenta algum semideus trabalhando para outro lado. Isso pode tornar a história, além de repetitiva, um pouco previsível para um público mais velho. Porém prende a atenção dos adolescentes entre 15 e 17 anos – que é a faixa etária indicada.

Com frases simples e curtas, a leitura flui rápido, de modo conciso e divertido. Você se encontrará rindo das piadas e se inclinando para a frente em seu assento com as reviravoltas da história. Mesmo reutilizando muitos elementos, Rick Riordan traz aos adolescentes uma história muito boa, com uma lição bem mais pessoal do que as vistas com Percy Jackson e Jason Grace; ver o mundo desta forma nos faz perceber que, enquanto os deuses sempre foram uma força um pouco distante e ameaçadora, eles têm enfrentado amor e perda tanto quanto, se não mais, do que os nossos heróis mortais. É um livro novo, com ângulos promissores de serem explorados, embora não pareça garantir muitas surpresas.

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