É um fato inegável dizer que Dwayne “The Rock” Johnson é um dos rostos mais carismáticos da Hollywood contemporânea – não apenas por sua capacidade e envolver qualquer que cruze com seus excêntricos e risíveis personagens, mas também por escolher projetos que caem no extremo caricato apenas para divertir seus fãs. O ator já encarnou diversas criações narrativas completamente opostas entre si, incluindo um fada-do-dente, um explorador literário, um avatar de jogos de aventura e até mesmo um corredor sedento pela vitória e por explosões (sim, estou me referindo ao seu papel na franquia Velozes e Furiosos). E mais uma vez, The Rock retorna para as telonas em mais um filme completamente previsível e que o traz em sua melhor forma para… Derrotar mais monstros gigantes!

Rampage: Destruição Total basicamente entrega o que promete, ainda que se perca no meio do caminho. Não é à toa que sua premissa seja “o grande encontra o maior ainda” – Johnson talvez seja, apesar de ter um grande coração e uma incrível personalidade, um dos homens mais intimidadores do cinema. Logo, para enfrentá-lo, o desnecessariamente gigantesco time de roteiristas por trás do longa-metragem teria que ultrapassar todas as expectativas antagônicas para colocá-lo em uma linha defensiva e cautelosa o suficiente para tirar o fôlego do público – não que isso funcione em sua completude, mas ao menos conseguimos nos divertir um pouco, esperando que o protagonista acabe com a raça dessas criaturas demoníacas.

A premissa principal busca certa referências nas narrativas sci-fi, colocando-nos em um prólogo muito bem filmado e pautado em uma sensação de plano-sequência aplaudível, ainda que não seja reaproveitado ou reutilizado pelo restante das quase duas horas de espetáculo. Enclausurados em uma “estação espacial de baixo orçamento”, como descrito por um dos vilões da história, vemos uma cientista desesperada para voltar para a Terra, visto que o experimento envolvendo o modificador genético Rampage deu errado e ocasionou o surgimento de uma criatura mortal e inesperada. Entretanto, ela deve recuperar as amostras de laboratório e, no final das contas, acaba explodindo na cápsula de emergência. Os destroços, pois, alastram-se pelo sul dos Estados Unidos e já premeditam um possível caos nos pequenos ecossistemas que invadem.

Enquanto isso, somos transportados a uma das reservas naturais comandadas pelo primatólogo Davis Oyoke (Johnson), o qual apresenta o bando de gorilas pelo qual é responsável a um grupo de pesquisadores amadores – e isso nos leva à insurgência de um outro personagem tão carismático quanto seu “mentor”, o símio albino George, tão antropomorfizado que chega a ser assustador sua capacidade de criar ironia e sarcasmo ao mesmo tempo em que mantém-se verdadeiro às suas raízes selvagens. É cômico ver como a relação entre Davis e George tem mais química que muitos outros casais da indústria cinematográfica moderna, e esse é um dos poucos brilhos que a produção realmente oferece para a audiência.

Como já podemos esperar, as amostras do gene modificado acabam infectando o gorila, transformando-o em uma máquina gigantesca movida pela raiva e pelos instintos mais primitivos – cuja funcionalidade é explicada por uma dupla idiótica de antagonistas, os cientistas e magnatas Claire (Malin Akerman) e Brett Wyden (Jake Lacy). As coisas já começam a ficar saturadas aqui, principalmente pelos diálogos mal escritos que nem ao menos conseguem alcançar um estado de canastrice proposital, mantendo-se em uma zona intermediária extremamente incomodadora. Claire é a cabeça do duo, responsável por unir as forças mais inteligentes do meio científico para criar este gene, enquanto Brett é um simplório menino mimado que nem mesmo serve para fazer o seu papel com escape cômico – as expressões blasé e os surtos psicóticos de sua irmã conseguem fazer um trabalho muito melhor.

E isso não é tudo: o crescimento inexplicável de George vem da combinação do DNA das partículas mais fortes dos animais terrestres e acaba infectando outros animais, incluindo um lobo selvagem apelidado de Ralph (cuja caracterização é realmente assustadora), e um crocodilo que se transforma em uma máquina de guerra jurássica e que permite uma leve comparação com o excesso de efeitos especiais de Jurassic World – sim, aquela mesma cena em que um dinossauro marinho emerge das águas para engolir um pterodáctilo. Aliás, a sequência de sua aparição é essencialmente mimética, senão plagiada com o maior descaramento possível.

As coisas também não permanecem por aí. Temos a entrada de mais personagens que se tornam descartáveis ou inutilizados – principalmente quando pensamos na completa perdição de Naomie Harris como a Dra. Kate Caldwell, uma geneticista que foi demitida da companhia dos Wyden após conseguir desenvolver o Rampage e que agora busca se vingar e destruir a reputação da companhia. Ela entra em uma onda de mentiras ao convencer Davis de que a cápsula contendo a amostra pertence a si, e essa bola de neve leva aonde? Para mais uma entrada forçada de um personagem: Harvey Russell, chefe do serviço secreto dos Estados Unidos. Tudo bem, é quase refrescante e divertido ver o carismático Jeffrey Dean Morgan fazendo uma inocente aparição com um forte sotaque sulista, e ele até consegue se desenvolver até meados do segundo ato – apenas para se perder em uma série de saturações narrativas que nem mesmo são agradáveis.

E, bom, se existem tantos pecados e equívocos no quesito roteiro, o diretor Brad Peyton consegue entreter o público com as cenas de ação e destruição – afinal, é isso que esperamos de uma obra como esta. Peyton já havia trabalhado com The Rock em Terremoto: A Falha de San Andreas, criando certos escopos fílmicos que conseguiram tirar nosso fôlego, incluindo a presença de efeitos especiais bem verdadeiros. Aqui, ele repete o feito, mesmo com certas ressalvas como a não finalização da estética em CGI do lobo-gigante; as cenas de luta entre os monstros e até mesmo do caos que toma conta da cidade segue o básico convencionalismo da alternância entre slow-motion e cortes rápidos, funcionando em grande parte. O problema é: em meio a tantas explicações monótonas e backstories que definitivamente não nos interessam, a narrativa se esquece de nos entregar mais cenas de confronto, deixando uma insatisfação no ar.

Rampage: Destruição Total vale mais por seu protagonista. E pelo gorila. Os dois criam mágica em cena, isso é inegável; porém, em uma visão mais ampla, os erros são tantos que fica difícil se acostumar com o constante boom imagético ao qual somos apresentados – e as risadas confortáveis que outrora existiam com The Rock se perdem juntamente à história.

Rampage: Destruição Total (Rampage, EUA – 2018)

Direção: Brad Peyton
Roteiro: Ryan Engle, Carlton Cuse, Ryan J. Condal, Adam Sztykiel
Elenco: Dwayne Johnson, Naomie Harris, Jeffrey Dean Morgan, Malin Akerman, Jake Lacy, Joe Manganiello, Marley Shelton, P.J. Byrne
Gênero: Ação, Aventura, Sci-Fi
Duração: 107 min.

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