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Há pequenos spoilers

A vida profissional de Akira Kurosawa foi uma verdadeira história cinematográfica. Enquanto conheceu o sucesso, o lucro e os louros nos anos 1950 e 1960, período de ouro da carreira do diretor, logo foi abandonado pelos estúdios e esquecido no tempo, realizando apenas dois filmes por década com tremenda dificuldade de encontrar quem os financiasse.

Com o tremendo esforço para produzir Kagemusha obtendo resultados favoráveis em decorrência do blockbusters, o cineasta pensou que seria mais fácil trazer seu próximo projeto, Ran, para a realidade. Sem poder contar com a ajuda inestimável de George Lucas e Francis Ford Coppola, seria somente um milagre que poderia concretizar esse filme já totalmente pronto na cabeça do diretor e também em milhares de storyboards feitos ao longo de uma década de planejamento.

Este milagre teria nome e nacionalidade: o francês Serge Sibelman que depositou toda sua confiança e investimento em Kurosawa para que ele entregasse o filme de sua vida. Mas, também de modo trágico, o diretor já estava com a visão consideravelmente debilitada na produção deste longa, conseguindo somente enquadrar com a intensa ajuda de seus assistentes que tinham uma boa noção do que Kurosawa queria a partir das milhares de pinturas feitas com cuidado.

O Filme de Uma Vida

Não é por menos que Kurosawa tenha amado tanto Ran considerando a melhor arte que já havia feito em toda sua carreira. De modo bem objetivo, a narrativa do filme dialoga com o sentimento que o diretor preservava naquela altura tão angustiante de sua carreira. Ele simplesmente se sentia traído pela própria nação, o homem que abriu o mundo para o cinema japonês, por não lhe ajudar mais com as produções cinematográficas, já que todo o mercado havia se voltado para investimentos de programas de televisão.

Esse sentimento de rancor de um idoso traído é o alicerce da narrativa do filme, muito inspirada em Rei Lear de Shakespeare. É uma época de paz no grande território do clã Ichimonji. Paz conquistada à custo de sangue, mortes e traumas. O grande lorde Hidetora (Tatsuya Nakadai), já com setenta anos, festeja sua glória com uma caçada à javalis nas grandes planícies do local paradisíaco na companhia de seus três filhos: Taro (Akira Terao), Jiro (Jinpachi Nezu) e Saburo (Daisuke Ryû). Visando dar grandes anúncios durante a caçada, incluindo selar aliança com outros dois clãs dispostos a ceder suas filhas para casamentos arranjados, Hidetora reúne a todos para anunciar sua aposentadoria como grande lorde.

Disposto a ceder seus títulos e terras para o filho mais velho, Taro, Hidetora causa a ira verdadeira em Saburo, o caçula. Não por cobiça ao título, mas por crer que seu pai está insano com esse plano absurdo de passar suas posses ainda em vida quando o mais correto é esperar sua morte. Ele o chama de ingênuo por acreditar que os outros irmãos serão fiéis a ele despido do poder. Ultrajado pelo comportamento de Saburo, Hidetora o deserda e o bane de seu feudo, incluindo o fiel criado Tango que tenta avisá-lo sobre a honestidade inestimável de Saburo.

Com o filho caçula afastado, mas já cooptado por um clã que desejava aliança, Hidetora logo vê as premonições de Saburo se tornando realidade. Ao transferir o poder para Taro, logo o velho é banido das terras, além de não poder contar a ajuda de Jiro que decide manter lealdade ao irmão. Vivendo como um lorde renegado com uma pequena comitiva, se isola em um terceiro castelo abandonado que seria da posse de seu terceiro filho. Mas logo essa pequena paz é irrompida com a guerra civil declarada por Taro que deseja matar o próprio pai.

Kurosawa novamente se dá ao luxo de fazer um filme de vasta duração, não percebendo que isso afeta o andamento do ritmo da boa história que pretende contar. Em Ran, o cineasta se porta de modo pessimista ao extremo – esse deve ser o longa mais trágico e niilista de toda sua carreira. Basicamente, o alvo é desconstruir a tradição japonesa sobre a honra da família, a honra dos pais e da tradição.

O conceito é este servindo como pano de fundo moral para termos o desenvolvimento de apenas dois personagens: Hidetora e a perversa Lady Kaede, esposa de Taro, cujo passado envolve um enorme trauma causado por Hidetora. Apesar de nunca termos qualquer detalhamento da relação do grande lorde com seus filhos e tampouco um foco maior em Taro, Jiro e Saburo, há realmente um cuidado interessante para a jornada do protagonista.

De dono do mundo para nem ser dono de si próprio, vemos como o grande lorde sucumbe aos poucos à loucura até se tornar um insano completo. Sua trajetória envolve reencontrar fantasmas do passado, aqui representados pela figura de Tsurumaru, um jovem que ficou cego por ordem de Hidetora quando invadiu o castelo de sua família, caindo a si sobre todas as maldades que causou em incontáveis pessoas.

A partir da destruição dos elos familiares por fome de poder, o protagonista é despido de todos os prazeres e glória que possuía vagando pelo feudo somente com o seu Bobo como companhia. O paralelo entre o Bobo com Hiredota é bastante evidente – sutileza não é o forte de Kurosawa em Ran. O Bobo possui uma relação de amor e ódio com seu antigo mestre e revela ser bastante cínico – coisa que Hiredota não foi ao confiar o poder nas mãos corrompidas de seus filhos.

Apesar dessa associação ser positiva para o desenvolvimento do protagonista, o Bobo é um personagem extremamente irritante, sempre interrompendo o fluxo da ação para contar uma anedota sem graça ou sem nexo, além de perder a utilidade narrativa em questão de poucas cenas. Como sua presença é ostensiva até a conclusão da obra, o espectador é obrigado a aturar esse engodo.

Como todo o desenrolar da história não guarda muitas surpresas, sendo bastante previsível por conta do tom extremo que Kurosawa prega em seus personagens detestáveis e perdidos, temos um lampejo mais interessante com Lady Kaede que praticamente é uma Lady Macbeth que age de modo independente. Kaede, é uma antagonista no meio de antagonistas, ou seja, é um tanto exagerada na engenhosidade de sua maleficência – Kurosawa a coloca a lamber sangue em uma certa cena repleta de energia. Apesar de ser uma encenação brega pelo extremo, há uma simbologia interessante nesse ato da vilã.

 A personagem extremamente fria e cruel age de modo calculado, com somente um intuito secreto em mente que, apesar de bastante óbvio, não cabe na crítica a revelação. Se trata de uma bonita conclusão para um ciclo de violência criado por Hiredota em seus dias de conquista a custo do sofrimento alheio, tornando a personagem muito bem motivada, apesar da exposição final nada elegante.

Nesse ponto, Hiredota é alvo de uma redenção curiosa. Já que o personagem não faz mas as coisas acontecerem, coisas acontecem com ele por conta do tumulto caótico que se instalou no feudo. O personagem ao relento logo fica desinteressante até um reencontro emocionante no final no qual novamente o niilismo age e Kurosawa emplaca outra desconstrução importante sobre a lenda dos samurais.

Heróis Derramados

Esse golpe é o mais forte em Ran: como a morte dos líderes poder ser tão banal e desonrada contra um oponente anônimo que porte uma arma de fogo. Kurosawa queria novamente fazer um atestado sobre a violência da Segunda Guerra sobre as massas se colidindo e matando aos montes. Isso reverbera em todas as sequências de batalha do filme.

A primeira delas envolve a invasão do castelo de Hiredota. Aqui, Kurosawa finalmente culmina toda a preparação sobre o clima que trabalhava no filme até então, sempre mostrando grandes nuvens negras se aglomerando e aproximando conforme o conflito entre Ichimonji se intensifica – um foreshadowing eficiente. Irrompendo uma vasta tempestade, o diretor revela finalmente o motivo de adotar uma linguagem visual tão restrita em Ran optando sempre em grandes planos gerais ou outros mais afastados – só há seis closes em todo o longa.

Com esses planos afastados, há sim uma magnitude fantástica na batalha com mais de mil figurantes se digladiando – o diretor é extremamente feliz em organizar os esquadrões a partir de cores fortes para os uniformes sempre azuis, amarelos ou vermelhos para o espectador compreender a ação. Kurosawa captura as massas em combate, tornando todo o massacre um grande exercício de cor e deslumbramento, mas também exibindo horrores individuais como o massacre das concubinas do protagonista ou de alguns corpos incendiados em meio ao confronto sangrento.

Aqui há menor uso de armas de fogo se comparado a culminação do onipotente clímax que certamente será uma das sequências mais impressionantes que verá na vida. Não somente pela inteligência da estratégia do confronto que sofre diversas reviravoltas, mas principalmente pela magnitude ainda maior da batalha totalmente realista.

Kurosawa realiza o maior pesadelo logístico de todos os tempos ao trabalhar com tantos figurantes, cavalos, figurinos, adereços e efeitos visuais para realizar essa luta trabalhando inclusive com a profundidade de campo para mostrar um terceiro exército observando o confronto no cume de uma montanha. É algo surreal. Uma pena que o distanciamento da câmera, por vezes, torno o calor da ação um pouco mais frio, além de conferir certa repetitividade visual em toda a obra.

Por fim, Kurosawa também apresenta uma descrença completa nos deuses e em Buda, indicando um grau de ateísmo cínico que chega a ser cruel com o plano final do longa, no qual um pequeno homem é abandonado ao relento, totalmente sem esperanças, esperando o pior dos destinos chegar para livrá-lo do pesar existencial.

Nada é Bom, Tudo é Violência, Todos Vamos Morrer

Kurosawa fez seu filme mais pessoal por se associar fervorosamente a Hiredota. Ele se sente exatamente como o personagem: totalmente traído, abandonado e mendigando enquanto derrotado pela miséria de sua própria herança.

Ran é de longe seu filme mais depressivo e pessimista, nunca oferecendo chance de transformação plena ao longo da jornada. Todo alvorecer de alegria logo é assassinado impiedosamente por peças alheias pouco relevantes. O diretor simplesmente mandou seu recado contra quem o importunava já indicando que era miserável por si. Não ajudou em nada o fato de sua esposa ter morrido bem no meio do processo de filmagem, o deixando ainda mais soturno.

Com esse ótimo testamento, Kurosawa encerra sua carreira de épicos samurai resgatando a beleza e tragédia do Japão feudal. Ele emenda críticas pertinentes contra a violência e o impacto negativo da guerra. Mas como tudo é bastante exagerado, extremo e, ironicamente, tão distante e frio, Ran se tornou um dos pontos mais altos da vida do diretor, mas não o seu mais brilhante.

Ran (Idem, Japão, França – 1985)

Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa, Hideo Oguni, Masato Ide, William Shakespeare
Elenco: Tatsuya Nakadai, Akira Terao, Jinpachi Nezu, Daisuke Ryû, Mieko Harada, Hisashi Ogawa
Gênero: Drama, Guerra
Duração: 165 minutos

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