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É sempre um triste fato ter que vir a encarar como por vezes vários diretores consagrados mestres por suas grandes obras em vida, tiveram um final de carreira tentando sobreviver às migalhas de trunfos do passado ou foram simplesmente ignorados pela crítica que antes o louvavam e pelo público de novas gerações que perderam o interesse em seu cinema ou nunca sequer ouviram falar de seus nomes. Um caso onde sinto que buscam injustamente colocar Akira Kurosawa e sua carreira como fazendo parte.

Com o pobre injustiçado da vez, dentre tantos de sua rica filmografia, sendo aqui Rapsódia em Agosto, um de seus últimos filmes feito em vida. E que, na humilde opinião daquele que vos escreve, mesmo não fazendo mesmo parte da sua boa leva de melhores filmes, ainda é um exemplo, tão grande quanto os trunfos do seu passado, de que o mestre se manteve firme e afiado à sua voz artística e autoral até os seus últimos dias como cineasta. Não seria qualquer um com a coragem desse senhor até então em seus plenos 90 anos de idade, vir a tocar de forma tão ousada e igualmente sensível um tema que transcende gerações e décadas até hoje.

A história foca em uma humilde família de classe média. Enquanto os pais dos jovens vão visitar o tio doente no Havaí, os quatro ficam na casa de Kane (Sachiko Murase), sua avó e irmã do tio, nos arredores de Nagasaki. A velha senhora que ainda sofre com a perda do marido, falecido quando a bomba atômica explodiu no local e a deixou viúva, assim como milhares de outras pessoas, e sonha em poder rever o irmão ainda em vida. Mas logo a família recebe uma carta de Clark (Richard Gere) um americano que, ao tomar conhecimento da perda do marido de Kane que era seu tio, decide visitar a família e pedir desculpas pelo ocorrido, deixando frente a frente duas gerações diferentes carregados de dolorosas marcas e memórias de um passado ainda tão presente em suas vidas.

A Sensibilidade de um Tema

Eis que inicio impondo a questão sobre o porquê do filme ter sido tão refutado pela crítica (principalmente a estadunidense) no momento de seu lançamento em 1991. E questiono se o motivo fora ou por causa da presença do ator Richard Gere no filme, e falando a língua nativa do diretor com uma pronúncia claramente treinada e sotaque rasgado (não que isso se valide como um problema nicho), ou exatamente por lidar com um tema ainda tão sensível e suscetível à polêmicas – o bombardeamento de Hiroshima e Nagasaki nesse caso. Com alguns até chegando a acusar o filme de ser “antiamericano” e “pró-Japão” na sua suposta retratação de “vitimização” dos personagens do filme para com a guerra.

Ora, se estes forem realmente a causa principal pela refuta do filme, é um assunto complexo pronto a debate válido, embora já digo que não concorde nem um pouco com tais classificações. Mas se for relacionado quanto à qualidade da obra cinematográfica em si, não poderia ser uma negativação das mais injustas! Isto é Akira Kurosawa em seus anos de sênior, completamente formado e reformado em sua técnica que só aprimorou ao longo de 40 prósperos anos de carreira. E parece que o tema da Segunda Guerra Mundial parecia lhe interessar muito ao ponto de seus últimos dois filmes feitos em vida abordarem o tema em suas entrelinhas, Rapsódia em Agosto e posteriormente o também ótimo Madadayo. Mas enquanto Madadayo explorou o sentimento de superação do pós-guerra através do apego dos feitos bons e puros do passado, Rapsódia mostra as cicatrizes profundas, e talvez incuráveis, que a mesma deixou para uma cultura inteira e gerações atrás de gerações de famílias, tudo representado através da família da senhora Kane. 

Quem acompanhamos aqui um dito estudo de sua complexa personagem carregada de memórias de dor, e onde mostra Kurosawa conseguir extrair a grandeza emocional do cerne da história de sua personagem com uma força dramática que surge de forma tão puramente simples, ao apenas nos situar do cotidiano da avó e dos netos e assistir o desenrolar de suas interações diárias, sem nunca se arrastar ou alongar no monótono, mas conseguindo ainda manter um naturalismo cênico. Com cada pequena troca de olhares, simples gestos e interações, são capazes de carregar consigo anos de história, que nós como público só conseguimos sentir ao vislumbrar seus pequenos momentos tão puros e verdadeiros aqui. 

Que assim faz florescer em seu filme uma força poética coberta de uma sensibilidade que tanto falta em diretores atuais. Denotando a forma perfeita com que o diretor resgata o seu drama urbano intimista dos anos 1940 de volta a vida, conseguindo até se comunicar de formas sutis com o cinema de Yasujiro Ozu no que se diz respeito à sua retratação do cotidiano familiar e tendo a ‘velhice’ como ponta de conflito da trama, que também lembra em partes outra de suas esquecidas obras como o fantástico Anatomia do Medo, que coincidentemente também lidava com um protagonista sênior com traumas de uma possível guerra nuclear entrando em um conflito de gerações com seus filhos. 

Mas o brilho do assunto está em exatamente por o intuito do diretor não ser em impor uma ideologia partidária sobre o tema em questão, como tantos o acusaram na época, e sim busca nisso revelar no íntimo de uma família de classe média contemporânea, como tantas outras, as doloridas marcas do passado que ainda se encontram presentes e influentes em suas vidas. Isso tudo com o simples foco principal sendo na relação tão pura e verdadeira entre uma avó e seus netos, e suas duras memórias e tenebrosos pesadelos que ainda a assolam e começa a instigar a curiosidade das crianças.

Uma forma talvez não tão diferente com a que Alain Resnais usara para explorar temas semelhantes em sua obra-prima Hiroshima, Meu Amor, pois mesmo enquanto o mestre francês seguia uma aura poética e romancista carregada de dores, ele também revelava essas através dos sonhos e das memórias de seu casal de personagens, como cicatrizes em suas almas que deveriam carregar para sempre. O mesmo caso aqui da história de Kane, onde ela reconta aos poucos ao longo do filme tudo que se lembra daquele fatídico dia, com uma voz carregada de pesar e um semblante de partir o coração. Só que o que Kurosawa faz é colocar tudo sendo visto a partir da ótica de inocência, ingenuidade e curiosidade, das crianças. E junto deles, e suas idas periódicas ao monumento do bombardeio na cidade e suas constantes conversas sobre as histórias da avó, descobrimos tudo que eles sabem sobre o evento: absolutamente nada, talvez apenas o que os livros de história contaram. Não seria também o mesmo caso para com a maioria de nós o público?! 

E onde seus pais, figuras apresentadas mais tarde no miolo do filme, revelam essa cultura pós moderna vivendo sob uma tensão material quase que febril. No qual seus únicos dogmas, quase que culturais a essa altura, são apenas de se preocupar em finanças e lucros que podem os ajudar e vêem a possibilidade através da relação familiar com os parentes americanos ricos que agora procuram ajudar a família. Enquanto as divagações de Kane não passam de lamúrias e apego senil à um passado em que ela aparenta ainda não ter saído. Ou que eles próprios pouco compreendem ou decidiram esquecer.

Uma Rapsódia de gerações

A atemporalidade de sua trama se comprova de forma perfeita nesse ponto. Tanto em sua época de lançamento quanto hoje, a história da senhora Kane serve para mostrar como ainda vivemos em um presente resguardado do passado, de uma década atrás, de vinte anos atrás, de ontem para hoje, enfim. De um antes que moldou o agora, a origem de nossa história em constante construção, a criadora de boas e más memórias, dos dias e eventos que moldaram o que somos e das escolhas boas e más que fizemos, mas decidimos apenas nos apegar e se lembrar do benéfico e ignorar o que nos envergonhou. Enquanto são esses mesmos eventos que podem nos ajudar a melhorar e evoluir em nosso presente. Um presente onde possamos jogar fora as mágoas do passado e aprender a viver com os verdadeiros bons valores éticos e morais.

Isso para Kurosawa só parece ser possível através de um reencontro, uma “trégua” definitiva através da criação de laços entre as velhas e novas gerações, ou até de diferentes etnias e culturas. Com seus netos, os únicos que mostram compreender ela, e o próprio personagem de Richard Gere que não é nada menos do que a sutil representação de tudo isso. O charme de bom moço do até então astro, consegue entregar um semblante tão doce e até puro em suas intenções que até seu notável sotaque falando japonês nunca se torna irritante ou distrativo, apenas um bom ator que marca presença em um excelente filme do mestre. E que se casa de forma perfeita com a inocência e fascínio das crianças e com a humildade da avó. Que formam breves momentos onde Kurosawa mostra seu lado mais humano e coração mole, momentos de interação de trocas de brincadeiras, memórias e histórias do passado, troca de carinho e respeito onde é impossível desviar o olhar e não abrir um sorriso no rosto.

Momentos esses em que o diretor opta por deixar nós o público como um observador bem distante das situações, onde parece estar brincando com as personagens, os movendo quase como atores de um teatro de fantoches em meio vivo. Com cada cena parecendo ser pintada e conceitualmente manejada por um dos diretores mais competentes de todos os tempos e com uma riquíssima estima visual desde sempre. Mantendo uma estrutura quase contemplativa em seus enquadramentos e lentas tomadas foco em momentos pontuais de onirismo visual, revelando um verdadeiro traço barroco em suas cores tracejadas no cenário urbano moderno. 

Variando em momentos oras belo e hipnotizante em sua forma de dar vivida alma para o presente cotidiano dos personagens, como a cena onde os quatro netos, a avó e o primo americano sentados em um banco, contemplando sob a luz do luar; e oras até perturbador e tenebroso em suas divagações surrealistas que dão vida aos breves pesadelos de Kane (perdoem o linguajar, mas a cena da visão com o olho da explosão sob o céu é de um nível tão ultra realista que dá um verdadeiro cagaço).

Provas da rica forma com que Kurosawa conseguia, assim como ele dava vida à natureza, também a dava para os sonhos. E ao misturar o surreal com o real constantemente em cena, ele eleva o discurso quase lúdico da personagem de Kane. Daí o título “Rapsódia”, que provém de um conto ou relato que contém uma composição livre, que assume a forma de melodias populares e de temas conhecidos. Nada mais nada menos com o que se encontra na história de Kane, um conto lúdico com uma base na realidade, um relato sobre o passado que ainda vive no presente.

Isso tudo assume forma em Kane, a doce vovó de Kurosawa que se mostra como um ser universal, a encarnação viva do sofrimento interminável, do perdão puro e verdadeiro, e de sabedoria infinita. Com os motivos para a sua dor e o porquê de sua família não conseguir se manter unida, se resumindo em uma simples resposta: “Culpe a guerra”, como ela repete constantemente durante o filme. A última e merecidamente icônica cena do filme, uma das mais extraordinárias que Kurosawa já filmou em vida, é uma metáfora viva sobre a resiliência de sua personagem e o difícil percurso rumo ao futuro árduo e difícil de alcançar: o caminho a seguir no destino dos jovens é mesmo da avó, que não consegue esquecer o passado, mas é uma rocha inabalável. Um final inebriante, emocionante e memorável para aqueles que se permitirem mergulhar de coração nessa profunda e dolorosa história.

Um Legado de Humanidade

Procuro nunca soar arrogante em minhas colocações, mas digo para qualquer um que já tenha dito que Akira Kurosawa perdera a mão à certo ponto de sua carreira, certamente nunca realmente captou a essência e estilo de seu cinema, ou no que se refere à Rapsódia em Agosto, simplesmente não soube apreciar a obra de grande proeza poética e essência humanista tão pura.

Longe de talvez possuir a mesma proeza de seus filmes épicos samurai com ação, aventura e humor pelo qual sempre fora melhor conhecido, e sim um belíssimo drama de caráter meditativo, sobre memórias, o passado e a família. Fazendo uma reunião entre as gerações com histórias e emoções profundas, que carrega consigo cicatrizes profundas e irreparáveis, mas com um raio de esperança ainda brilhando na pureza de seus personagens.

Consistindo, e ousando, em construir uma trama de caráter ainda tão atual e atemporal ao seu tempo, que ainda mostrava como o mestre japonês conseguiu evoluir e se adaptar no cinema moderno e contemporâneo, mas sem perder sua marca ainda tão clássica e para sempre autoral. Não só apenas um simples retrato moderno das consequências do pós-guerra, mas também um filme sobre abraçar seu presente e a importância do amor e do respeito que uma guerra é capaz de fazer esquecer e só a união é capaz de a recuperar.

Rapsódia em Agosto (Hachi-gatsu no rapusodi, Japão – 1991)

Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa (baseado numa obra de Kiyoko Murata)
Elenco: Sachiko Murase, Richard Gere, Hisashi Igawa, Narumi Kayashima, Tomoko Ôtakara, Mitsunori Isaki, Toshie Negishi, Hidetaka Yoshioka, Chôichirô Kawarasaki, Mieko Suzuki
Gênero: Drama
Duração: 98 min.

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