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Creio que faz pouco mais de dois anos desde que escrevi pela última vez sobre esta franquia de “estrondoso” sucesso. É inegável, “Resident Evil” teve um início razoável, mas conseguia se sustentar naquela base interessante devendo terminar por ali. Mas… Passaram-se anos, a direção saiu das mãos de Paul W. S. Anderson e a cinessérie, por fim, entrou em declínio absoluto. Se alguém me perguntar sobre um filme ruim, logo indico a segunda e a terceira parte da aventura de Alice no País dos Zumbis.  Entretanto, por algum milagre, Paul retornou para encabeçar o projeto do quarto tentando, de alguma forma, reparar o estrago feito por Alexander Witt e Russell Mulcahy nos termos estéticos e de linguagem cinematográfica.

Entretanto, não defendo de forma alguma esse diretor limitadíssimo, pois todos os roteiros da franquia foram escritos por suas mãos hábeis em criar desastres fílmicos. Com a volta deste “espetacular” cineasta, a franquia revigorou. “R.E.: Recomeço” conseguiu alavancar nitidamente a qualidade da série – tanto que, na época, tinha avaliado o filme como “muito bom”.  Entretanto, tudo que é bom, dura pouco. As inovações técnicas de Anderson foram eficazes no quarto filme, mas aqui a história é um pouco diferente. Enquanto sua direção melhora a cada projeto, suas proezas como roteirista retornaram ao nível de “R.E.: Apocalypse” para pior.

Nesta nova peripécia alucinante, Alice continua em maus lençóis. Seu tempo de paz é curto a bordo do “navio esperança” Arcadia, pois logo a Umbrella chega para explodir miolos e realizar outras vilanias – “afinal ela é uma empresa muito má” como disse Paul W. S. Anderson. Infográficos vão e vem e, enfim, reencontramos Alice nos mesmos moldes de “O Hóspede Maldito” – aprisionada e nua contando apenas com dois papéis toalha grandes que encobrem suas partes íntimas para a infelicidade dos marmanjos. Nesta cela high Apple tech touch screen, Alice é submetida por terríveis torturas comandadas pela sua “iniamiga” Jill – você também será torturado. Mas como todos nós sabemos a ajuda/solução arbitrária não tarda a chegar – mesmo que esta seja bem absurda.

O serviço de firewall dos softwares da Umbrella é podre. Logo em poucos minutos, Albert Wesker invade o sistema para retirar Alice de seu confinamento. Com tanta chatice em tela, Anderson sabe que está na hora de esquentar a história e, pasmem, ele consegue! Mesmo que por um breve momento. Depois de detonar com alguns mortos meio loucos, a heroína recebe um auxílio asiático fornecido por Wesker. Ada Wong e seus decotes estão na luta tentando conquistar um amor no fim do mundo. Depois de mais enrolação, uma equipe de resgate encabeçada por Leon S. Kennedy é enviada para os confins da Terra onde Alice está. Entretanto, para eles se reencontrarem, será preciso atravessar todos os desafios mortais que a base da Umbrella oferece. Eles terão de sobreviver aos terríveis cenários destinados a testes pandêmicos apocalípticos sendo eles Moscou, Times Square, Tokyo e o Subúrbio. E é basicamente isto durante o filme inteiro.

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Evil Goes Global?

O mal se tornou global.  Ao menos no planeta de Paul W. S. Anderson. Como sempre, seu roteiro é de erros e poucos acertos. No caso, o argumento do roteiro é muito bom e seria um ótimo filme se fosse destinado apenas à televisão como um spin-off da série – contando com outros personagens, claro. Mas este não é o caso de “Retribuição” que está mais para um filme caça-níqueis descarado, pois além de não adicionar praticamente nada significativo para a história de toda a série, é uma solução imbecil para resolver um conflito criado em “Recomeço” no qual Alice perde os poderes provenientes da fusão bem sucedida de seu DNA com o T-Vírus. E, meu Deus, fazer um filme inteiro para solucionar uma imbecilidade do filme anterior provou ser uma idiotice ainda maior. Aliás, é inexplicável como Alice continua a lutar tão bem, já que ela não possui mais seus poderes.

Após uma bela sequência em slow motion combinado com o bom e velho efeito rewind, A.K.A. rebobinar o filme, Anderson tem uma sacada “genial”, enfiar a cara tridimensional de Milla Jovovich no meio da tela enquanto explica todos os eventos que ocorreram nos quatro filmes anteriores. Sim, isso soa tão datado e maçante o quanto é. Além disso, existem vários pequenos hologramas circulando pela tela exibindo alguns trechos de outros longas. Depois deste presente “maravilhoso” para os espectadores, acontece o ponto mais alto do filme. A sequência que engloba a luta pela sobrevivência de Alice e sua filha quando o mundo está se acabando nem parece pertencer a uma obra de Paul W.S. Anderson.

Se este segmento fosse uma obra independente do longa, não hesitaria em conferir a pontuação máxima. Entretanto, a vida não é tão bela para esta franquia e muito menos para este filme.  Após essa cena fantástica, o rendimento da obra entra em declínio em que melhora somente em seu clímax. Mas para chegar até lá, o espectador terá que aguentar o péssimo desenvolvimento do roteiro por um bom tempo.

Anderson não demora em jogar as melhores cartas de seu roteiro. Teorias conspiratórias são lançadas durante o primeiro ato que aborda a Guerra Fria. Durante a sequência excelente que havia já havia dito, o roteirista tem a pretensão de tornar esse quinto filme em um daqueles que marcam pelo “mindfuck”, ou seja, que embaralham seu raciocínio tornando possível várias interpretações de uma mesma obra. Entretanto, Anderson logo descarta essa característica interessante sem ao menos tentar tornar aquilo algo maior para o filme. Após isso, a narrativa entra naquele bolo amontoado de cenas de ação pelo resto do filme.

Como a história não vinga em sua grande maioria resta apenas aos personagens tornarem esse roteiro um pouco mais profundo, mas isto também não acontece. Mesmo com personagens novos como Leon e Ada Wong, Anderson não elabora nenhum tipo de conflito diferenciado para eles. Tudo se concentra em fugir da base da Umbrella e apenas isso. Isso é deplorável, já que são personagens muito importantes para a franquia de videogames. O tratamento dado a eles neste roteiro é uma vergonha. Porém, há uma transformação interessante que ocorre na metade da fita (SPOILER) em que Alice reencontra sua “filha” (Fim do Spoiler). Ali, o problema da personagem se torna maior, pois além de ter que salvar sua pele, tem que salvar a menina também.

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Claro, isso é clichê e tudo mais sendo que a execução de todo esse arco narrativo é praticamente idêntica a “Aliens – O Resgate” em que Ripley tem que superar o mesmo desafio. Aliás, é igual – se você já viu ao filme de James Cameron, já sabe como essa história termina. Mas lembre-se, este é um filme de Paul W. S. Anderson. Só dele ter se esforçado de incluir esse clichê, já é uma dádiva.

No mais, não há nada de novo. Quem surpreende é o trio Milla Jovovich, Michelle Rodriguez e Aryanna Engineer. Milla consegue sair um pouco daquilo que foi apresentado nos outros filmes. Durante a sequência que foge dos padrões da série, Milla exprime todo o desespero da situação enquanto traça laços de ternura para tentar acalmar sua filha, Becky, durante o “fim do mundo”. É uma cena carregada de emoção que estreita rapidamente a relação personagem/espectador nos levando a torcer por Milla – coisa que nunca aconteceu comigo antes.

Do restante, é mais do mesmo: carinhas sexies, poses provocantes, postura rígida acompanhados do semblante sóbrio carregado de olhares frios e compenetrados. Já Rodriguez interpreta duas versões de si mesma. Como ela consegue escapar da sua característica principal – a macho woman, em uma delas, o público já sai no lucro ao testemunhar algo novo. A pequena Aryanna Engineer surpreende a todo o momento na sessão. Ao contrário de muitas crianças que acabam em filmes de terror, esta não é uma inútil que grita a todo o momento enervando os espectadores – quem não quis matar Dakota Fanning em “Guerra dos Mundos”?. A garota supera com facilidade Johann Urb que interpreta o icônico personagem Leon S. Kennedy.

Além de lembrar vagamente Leon graças à caracterização competente, Urb não condiz com a essência do personagem. O ator raramente confere senso de liderança e seu algoz de valentia não convence nem o mais fanático pela franquia cinematográfica. Bing Bing Lee trouxe Ada Wong para os cinemas, mas seu resultado também não casa com o original. Não digo que eles tem que entregar as mesmas características das apresentadas pelos videogames, mas como não conseguem nem chegar aos pés do carismas de personagens criados por computação gráfica. Um conselho: se você acha que não consegue superar o original, crie ao menos algo parecido. Este é mais um episódio da série “O Diretor que não estava Lá”. Conclusão, Paul W.S. Anderson é uma vergonha em direção de atores.

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Let’s blow the whole thing!

Extremamente inspirado no design de “O Hóspede Maldito”, o departamento artístico fez um trabalho sublime ao criar e recriar. Sejam os cenários físicos ou os compostos em computação gráfica, tudo é muito belo. O salto da qualidade técnica entre o último filme e este é gritante o que me deixa muito otimista em questão aos avanços visuais que o sexto longa irá apresentar.

As representações dos “estágios” Tóquio, Moscou, Subúrbio e a Times Square são de cair o queixo. Tudo muito belo e fidelíssimo à realidade sendo que cada um deles recebem atmosferas completamente distintas, apesar do tom sombrio estar presente em todas. A iluminação da fotografia espetacular de Glen MacPherson é responsável por segregar estes cenários do restante da obra. Perceba, em Tóquio, MacPherson e Anderson utilizam a chuva como recurso estético combinado com as múltiplas luzes das publicidades montadas nos prédios, além da saturação das cores vibrantes dos guarda-chuvas que dançam na cena. O resultado disto tudo é fantástico. As luzes se misturam graças aos reflexos garantidos pelo chão molhado e, quando o slow motion é ativado e o caos, liberado, tudo fica ainda mais belo.

Durante a perseguição desta sequência, o diretor nos apresenta um dos cenários “originais” do filme. Ali, a fotografia aposta forte nos altos contrastes, note. Alice traja sua vestimenta a lasadomasoquismo totalmente preta enquanto o corredor é totalmente branco, muito polido, desprovido de sombras, logo, chapado, mas sem comprometer a profundidade de campo do cenário. Então temos o preto no branco durante alguns segundos. Logo depois, a carnificina começa. Assim, é adicionado o vermelho-sangue na paleta da cena. Três cores majoritárias: branco, preto e vermelho e, ainda assim, este padrão não é rompido, pois todos os zumbis, estranhamente, trajam roupas munidas de tons escuros. Logo, a unidade de cores não é comprometida e a composição dos planos se mantém única.

Infelizmente, não vou detalhar todos os esquemas fotográficos deste filme. Mas em síntese, todos apresentam texturas distintas. Como havia dito anteriormente, no antro tecnológico da Umbrella, tudo têm um design clean. Leitoso, desprovidos de sombras, polidos e um tanto chapados conferindo a atmosfera claustrofóbica necessária ao confinamento de Alice. O outro cenário de concepção original também é interessante de analisar, assim como sua iluminação. Vou me ater a apenas uma passagem de toda a cena que ocorre lá – no armazém depósito de submarinos. Em determinado momento, Alice vai resgatar a pequena Becky. Quando Milla está prestes a encontrar a menina, Anderson e MacPherson tem seu momento mais inspirado do filme inteiro. A cena acontece em um corredor acinzentado e pouquíssimo iluminado, mas o jogo de iluminação presente é interessante. O corredor inteiro possui fileiras de lâmpadas de LED em suas paredes. Os LEDs se acendem e apagam de maneira sequencial partindo da posição da personagem até o final do corredor.

Apenas com esses flashes luminosos, Anderson cria, enfim, alguma metáfora visual para sua obra que até ali era, em parte, ausente. Conferindo uma atmosfera totalmente tenebrosa, enervante e inconstante, o diretor também sugere o decorrer do tempo e que a cada segundo corrido, o perigo fica mais próximo. E é apenas isso. Sei que é pouco, mas estamos falando de Paul W.S. Anderson…

E por falar no capeta… Anderson melhorou sua técnica de direção. Ele deixou de ser um diretor péssimo para um medíocre. E que evolução! É notável que ele está mais violento e ousado. As cenas esbanjam sangue e carnificina como nunca antes, além de tomar proporções épicas em algumas batalhas. Ele realmente tentou fundir duas linguagens aqui – a cinematográfica e a dos videogames.Entretanto isso não funciona muito bem, pois compromete bastante a continuidade das cenas removendo a ilusão que temos ao assistir a um filme. Isso acontece porque Anderson ficou viciado em infográficos e hologramas, pois em praticamente todas as transições de sequências ou quando o espectador acompanha um personagem diferente, há um maldito holograma para quebrar a diegese fílmica. Claro que uma hora isto começa a te aborrecer, cedo ou tarde.

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Anderson também desaponta em vários momentos. Ele erra no timing de todas as cenas de ação. Ou seja, elas são supersaturadas, muito longas, repetitivas e desprovidas de elementos novos para te manter acordado. Por exemplo, há um tiroteio entre zumbis comunistas e a equipe de Leon S. Kennedy. Se juntarmos todas as partes dessa sequencia – ela é eventualmente quebrada para dar lugar as cenas com Alice, teremos aproximadamente 15 minutos de tiroteios extremamente chatos e ininterruptos. Se a ação é falha, o roteiro também não sustenta a cena apostando nos diálogos. Quando eles existem, são banais e descrevem o que acontece na tela – como: “Oh, God! Fulaninho has been shot! Let’s kill those bastards now!”.

Até mesmo o clímax é inflado até não poder mais, fora a presença de uma visão raio-x para lá de brega – o efeito também é reutilizado exatamente da mesma forma por duas vezes. É igualzinho. Se já soa porco agora, imagine se houvesse mais desses efeitos repetidos no mesmo filme. Mas espere! Há sim! Durante o primeiro combate entre Alice x Zumbis, a moça encontra uma corrente localizada dentro da cestinha de uma bicicleta e esta passa a ser sua arma para explodir zumbis. Enquanto o visual é impecável, esta cena possui o pior desenho sonoro que já escutei desde “Skyline”. Durante seus cinco ou seis minutos de pancadarias chatas e bem coreografadas acompanhadas das medíocres composições musicais, Alice maneja sua corrente pelos ares e o mesmo efeito sonoro é repetido por incontáveis vezes. Seja quando a arma corta o ar ou a carne, a sonoplastia é igual. Em uma produção de US$ 65,00 milhões, isto é inadmissível. Talvez este seja o momento “vergonha alheia” do filme, pois esse equívoco é tão perceptível que até o mais desatento espectador perceberia.

O diretor também reutiliza monstros de filmes anteriores. Como o bicho açougueiro Majini. Claro que para não ficar igual a luta de “Recomeço”, Anderson insere dois monstros na cena. Também existe o famoso zumbi da serra elétrica aqui. Tudo isto como homenagem aos fãs da franquia milionária dos joguinhos. O destaque mesmo fica para o brutamontes de carne-viva Licker. Fora esses acertos pontuais, Anderson teve um cuidado muito especial em relação a fotografia maravilhosa, da atuação de Jovovich e do tema musical do filme. De resto, é a mesma porcaria de sempre.

O Caminho para o Fim

“Resident Evil: Retribuição” não é um filme ruim. Até consegue divertir no meio de suas tantas excentricidades que beiram o ridículo em alguns momentos. Apesar do roteiro supérfluo, das atuações meia boca, dos efeitos especiais reutilizados e da trilha sonora banal, Anderson consegue sustentar seu interesse durante boa parte do filme. Seja pela fotografia belíssima ou com o design de produção afiado. Mesmo sendo uma parte totalmente desnecessária, ela provou ser algo além de um filme caça-níquel descarado, afinal os cuidados estéticos visuais conferem certa elegância para este filhote torto de zumbi.

O amadurecimento de Paul W.S. Anderson é notável. Ao menos em seu esforço de tornar essa série algo especial seja para quem for. Quem sabe ele nos presenteia com um filme que seja realmente bom no futuro. Talvez seja apropriado chamar o sexto longa de “Resident Evil 6: Redenção” em que, enfim, está franquia acabe de modo decente. Mas que, pelos Céus, Paul W.S. Anderson não se atreva em solucionar a infestação zumbilomaníaca com algum maldito deus ex machina a lá bomba atômica. Vamos torcer para que este sexto filme realmente dê certo.

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