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Basta passar pouco tempo, após publicarmos Festa da Salsicha onde discorri sobre animações adultas, que finalmente separo meu tempo para conferir Rick and Morty, seriado animado que atualmente é cotado na sétima posição de 250 no ranking de televisão do Imdb. Claro que ao ver um patamar absurdamente alto e popular no site-acervo cinematográfico mais famoso do mundo, a curiosidade despertou, afinal seria possível ser tão bom assim?

É atualmente considerado o melhor seriado cômico animado de todos os tempos. Melhor do que Simpsons, Family Guy, Futurama e South Park. A série surgiu exatamente no embalo em que Dan Harmon tinha virado um dos showrunners mais queridos do ambiente televisivo. Anunciado que não participaria mais de Community, sua criação de maior sucesso até então, Harmon teve a oportunidade de firmar outro strike em sua carreira de expressivo sucesso.

Inspirado diretamente pela trilogia De Volta para o Futuro, Harmon e Justin Roiland esboçaram as aventuras de um cientista brilhante velhote maluco e tosco acompanhado de neto bobalhão. O que tinha para ser algo totalmente ordinário, tornou-se a animação de maior sucesso da grade do Adult Swim do Cartoon Network americano que transmite conteúdo voltado para adultos em suas madrugadas – no Brasil, o Adult Swim não vingou tendo permanecido por poucos meses na grade entre 2006 e 2007.

A cada episódio acompanhamos uma aventura fechada protagonizada por Rick e Morty. O piloto é exemplar para fixar toda a qualidade e o tom satírico que o roteiro assume no restante das duas temporadas. Somos apresentados a um universo onde Rick e Morty estão acostumados a atravessar por portais de viagem para outras dimensões, carros voadores, armas de plasma, diversos alienígenas hostis e amigáveis, além de conviverem no núcleo familiar neurótico constituído com os pais de Morty, Jerry e Beth, e sua irmã, Summer.

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Os três primeiros episódios são absolutamente maravilhosos apostando o humor inicial com paródias de filmes como A Origem, A Hora do Pesadelo, Jurassic Park e Osmose Jones. O piloto define todas as regras do universo do seriado apresentando as possibilidades que os personagens podem tomar. Apesar de Rick ser um velho alcoólatra, antissocial e misantropo, é um inventor genial e profundo conhecedor dos ambientes que explora com o neto. Já Morty não é tão brilhante, mas há um jogo muito profundo na essência desses dois personagens – isso para um seriado de 21 minutos por capítulo.

Durante as aventuras – vasta maioria de horror espacial – Rick, por ser muito poderoso e velho, pouco se lixa para as reverberações que suas ações podem trazer, afinal ele interfere com outros mundos e realidades a todo momento. Logo, toda a aura filosófica do personagem é considerada no chamado “pessimismo cósmico” onde a vida humana tem pouca ou nenhuma relevância para tudo o que há no universo. Rick a todo momento trabalha com esse humor niilista já que têm consciência de que sua vida não significa nada – ainda mais se tomarmos como referência o ótimo episódio Close Rick-counters of the Rick Kind na primeira temporada onde os personagens são confrontados por outros Ricks e Mortys de universos paralelos.

Disso vem o propósito de Morty: servir de balança moral e existencial para Rick, um certo capricho turvo de Yin e Yang. Diversas vezes Morty reclama com seu avô sobre as decisões psicóticas, homicidas e totalmente imorais e antiéticas que Rick toma, seja por seu divertimento ou pela necessidade da dupla sobreviver – já no piloto, durante uma fuga, Morty acaba cometendo atrocidades à contragosto. Mas mesmo com apreço por sua vida, deixando de lado o vazio existencial de Rick, Morty tem a pequeneza do ser humano presente em sua psique.

Não são poucos os episódios que Morty é um verdadeiro hipócrita que condena seu avô, porém nunca deixa de pedir favores para obter certa vantagem que sempre resultam em coisas desastrosas ao extremo. As motivações de seus pedidos geralmente vêm de cunho sexual – mais compreensível pelo personagem ser adolescente – seja para conquistar uma garota, salvar uma alienígena gostosa ou comprar um robô sexual.

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Também quando age em favor de um ideal, Morty causa desastres completos – isso é vastamente explorado na segunda temporada através dos episódios Mortynight Run e Auto Erotic Assimilation. Este último, traz uma discussão excelente acerca da liberdade do indivíduo e das consequências que isso gera enquanto trabalha parodicamente com o filme Invasores de Corpos. Aliás, Morty também segue os pecados capitais de seu avô, mesmo que seja por acidente.

Em diversos episódios, o seriado mostra como Rick é o criador de diversos seres que não mostram gratidão por existirem nesse mundo. O mesmo acontece com Morty em Raising Gazorpazorp onde é confrontado por seu bebê alienígena sobre seu propósito na Terra. O existencialismo explorado pelos personagens toca a filosofia do absurdismo de Albert Camus onde a vida humana é sempre confrontada pela nossa busca por significado intrínseca a nossa existência enquanto lidamos com o fato de sermos insignificantes quando tomamos o escopo do universo e sua infinidade. Muitas dessas criações reclamam em busca de seu propósito vazio e quando falham em conseguir isso, surtam com a dor da existência – isso é abordado em diversos momentos, mas o auge da narrativa mais expositiva vem em Meeseeks and Destroys.

O que torna Rick um personagem mais rico ainda é seu alcoolismo e suas tentativas em demonstrar afeto ou apego, afinal, ao decorrer do seriado, descobrimos que ele luta por algo – mesmo que isso não seja revelado. Os roteiristas também inserem insights hilários e cruéis para o personagem paradoxal. Sua frase de efeito como Wabalubadubdub que significa “estou sofrendo, me ajudem”, mostra que a armadura niilista do personagem esconde um emaranhado emocional frágil. Em outros momentos também há essas confissões de dor e desespero. No fim, Rick é tão humano quanto Jerry, a epítome da mediocridade. Um personagem que se vê mais realizados em simulações malfeitas do que na própria realidade. A finale da segunda temporada torna Rick muito mais complexo do que ele aparenta ser. Aliás, o personagem é tão inteligente que ele mesmo tem a própria noção de fazer parte de um seriado televisivo. Por conta disso, ele quebra a quarta parede algumas vezes, se comunicando com o espectador.

Não só a abordagem filosófica é extremamente rica e disfarçada pela comédia, mas como há uma manipulação científica muito competente, assim como brincam com a moralidade religiosa – episódio Get Schwifty onde novamente a humanidade é confrontada pela sua insignificância, além de mexer com a filosofia de Schopenhauer aliadas às obras fantásticas de H. P. Lovecraft (autor muito homenageado na série).

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Os roteiristas têm competência extrema em tornar conceitos complexos de física quântica, de ciência que aborda de Schrodinger até Heisenberg e até mesmo religiosos em diálogos simples, fáceis e engraçados. Atrás de toda a complexidade criativa que os criadores investem na produção, os episódios têm fórmulas bem definidas e fáceis de serem distinguidas.

Excluindo episódios importantes como os de abertura e encerramento de temporada, Rick and Morty funcionam de modo sólido. Acompanhamos Rick e Morty em alguma aventura seja no espaço e suas dimensões ou na Terra e, como segunda linha narrativa, vemos alguma enrascada que a família deles tem que superar sem a ajuda de Rick. No segundo episódio da primeira temporada, já é possível ter uma noção rica de como os roteiros funcionam: enquanto Rick e Morty se aventuram nos sonhos do professor de matemática Goldenford ao melhor estilo A Origem, os outros personagens tem que lidar com o cachorrinho Snuffles que após ganhar um aparato de Rick para se comunicar com os outros, passa a crer melhor sobre sua existência e decide iniciar uma dominação global onde os humanos são os bichinhos de estimação dos cães.

É sempre assim e na maioria das vezes, os roteiristas conseguem construir ambas narrativas de modo cativante, muito criativo e totalmente imprevisível em sua conclusão. A comédia paradoxal baseada em um nonsense racionalista é diluída em meio aos arrotos de Rick e dos diálogos repletos de palavrões. Porém, os palavrões aqui não são a comédia como acontece em Festa da Salsicha, mas sim sempre se comportam como artifícios de ênfase dramática ou como frases de efeito.

O humor não se restringe apenas ao texto, evidentemente. O time de roteiristas e diretores se esforçam em criar universos absolutamente estranhos, inéditos e encantadores para cada episódio: desde dimensões onde hamsters se movimentam enfiados no traseiro de humanos até mesmo um planeta com velhinhas gosmentas. É uma diversidade fabulosa no design de personagens e cenários – quase nenhuma reciclagem.

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Como lidamos principalmente com ficção científica, uma constante no seriado é a violência gráfica, mas também sempre a favor da comédia. De tudo que falei, realmente parece que o seriado é perfeito. Bom, digamos que ele chega muito próximo disso, pois até em seus episódios considerados fracos, há um propósito digno para que se desenrolem desse modo.

Por exemplo em Rixty Minutes onde Rick instala uma televisão que mostra diversos canais de Terras paralelas, além de fornecer óculos de realidade aumentada que mostra a vida de Jerry e Beth em outras realidades. Ali há uma diversidade de esquetes fracas com os canais de televisão mostrando bizarrices, porém há todo o trabalho em aprofundar o relacionamento amoroso sempre em crise dos pais de Morty. É justamente nesses onde ocorrem mensagens elaboradas de afeto e significância existencial para os personagens. São momentos que valem ouro tanto por serem inteligentes quanto efetivos na semiótica.

O traço e a animação seguem o estilo de desenho animado pós-moderno como Hora de Aventura, O Incrível Mundo de Gumball, Apenas um Show ou Gravity Falls, porém há toques de expressões a la South Park também e algum uso de linguagem corporal oriundo dos desenhos de Chuck Jones e seus Looney Toones. Assim como a maioria desses desenhos, não há um trabalho que fuja do convencional em termos de enquadramento – apenas em momentos muito especiais que os diretores fogem da linguagem padrão dessas animações.

O trabalho de dublagem é excepcional especialmente o de Jostin Roiland, co-criador da série. Roiland faz Rick com diversos maneirismos na fala, incluindo uma gagueira confusa escondida nas falas rápidas. Também dublando Morty, há uma clara tentativa eficiente em emular o sotaque e timbre da voz de Michael J. Fox – ator que interpreta Marty em De Volta para o Futuro. Novamente, o jeito que Fox falava nos filmes é emulado com Morty, suas gagueiras e diversos barulhinhos guturais repletos de incertezas.

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Aliás, deixo aqui registrada toda a minha admiração pelo sexto episódio da primeira temporada: Rick Potion #9. É disparado o episódio mais absurdo, fantástico, grotesco, perturbador, incrível que eu já tenha visto em qualquer obra desse gênero até então. Ali, os roteiristas também apresentam elementos que posteriormente são retomados no seriado. Então há sim um fio narrativo maior conduzindo todos esses episódios que a primeiro momento podem parecer desconexos.

Rick and Morty é possivelmente a melhor coisa que aconteceu à animação adulta desde o advento de South Park. O humor tão politicamente incorreto quanto é melhor trabalhado em diversas histórias fantásticas de ficção científica e horror, além de apresentarem um rol espetacular de personagens carismáticos e engraçados. Não somente pelo teor da comédia ser tão peculiar e certeiro, mas também do modo mágico que simplificam temas filosóficos e científicos complexos. Quando as possibilidades são infinitas, não há como Rick e Morty te decepcionarem.

*Fique atento pois todos os episódios do seriado estão disponíveis na Netflix. 

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