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Se existe uma série que mostra à que veio desde o início, sem rodeios, é Rick and Morty. Principalmente em sua terceira temporada, quando expõe logo no primeiro episódio, jogando uma bola de demolição na quarta parede, o que estava por vir: “Oh, it gets darker, Morty. Welcome to the darkest year of our adventures” (“Oh, fica pior, Morty. Seja bem vindo ao ano mais sombrio de nossas aventuras”, em tradução livre).

Encontramos-nos em um momento delicado para a família Sanchez, após o desfecho da temporada anterior, onde se tornaram fugitivos após uma emboscada da Federação Galáctica no casamento da Pessoa Pássaro e de Tammy. Refugiados em um planetinha limitado e minúsculo, tem pouco o que fazer e precisam encaram um dilema: ficar com Rick ou, como Jerry sugere, entrega-lo à Federação para voltar à terra.

Durante as duas primeiras temporadas, acompanhamos a natureza niilista de Rick dando lugar a pequenos momentos vulneráveis – vimos tanto o grande e poderoso Rick Sanchez, viajador do multiverso, quanto o homem que se engana e possui uma tristeza profunda em seu interior nos quase inexistentes momentos em que baixa a guarda. Quando escuta sua família discutindo entregá-lo, com seu egoísmo como mote, presenciamos um desses poucos momentos, aparentemente – não podemos nos deixar enganar por como as coisas se parecem, já que Rick está sempre alguns passos a frente do espectador. Em um ato inesperado, ele mesmo liga para a Federação e diz onde está, fingindo ser Jerry e salvando sua família, que não precisará viver em exílio – enquanto a angustiante Hurt, de Nine Inch Nails, toca ao fundo.

O RETORNO DE RICK SANCHEZ

O arco de deixado pela season finale anterior, com o aprisionamento de Rick, faz a ponte para que possamos enxergar um pouco de seu subconsciente. Em The Rickshank Rickdemption o encontramos em uma simulação da realidade, criada por agentes federais espaciais a partir do cérebro de Rick para interroga-lo e tentar descobrir o segredo de sua arma de portais. Enquanto isso, sua família tenta lidar com sua falta em uma Terra colonizada por aliens e Summer exuma o Rick Alternativo enterrado em seu quintal com a intenção de usar a arma deste para salvar o avô vivo.

Na simulação, Rick está tentando – e sucedendo, porque Rick Sanchez não é brincadeira – enganar o Agente Federal insectóide Cornvelious Daniel (interretado por Nathan Fillion).

O impacto do episódio no espectador não é pouco, principalmente quando chegamos a um ponto das “memórias” de Rick em que ele vê o suposto fim de sua esposa e filha. Ainda que mais tarde ele diga não ser real, é uma amostra dos sentimentos mais profundos dos personagem, rara demonstração de fraqueza. Ao lançarem momentos como esse, Dan Harmon e Justin Roiland nos fazem crer na humanidade de Rick.

Porém, é preciso lembrar que ele é um matador sem piedade e quase completamente sem arrependimentos. E isso é feito em seguida: após usarem a arma de portais, serem capturados pela Família Sanchez-Smith da Terra Cronenberg e então pelo time de Ricks da Cidadela,  Summer e Morty acabam revelando o encarceramento de Rick. Isso faz com que a Cidadela mande outros Ricks para assassiná-lo.

A tentativa é falha – nosso Rick aproveitou uma brecha no sistema para trocar de corpo com seus captores e, quando seu corpo original leva um tiro, bem, ele não está mais ali. Então aproveita, transfere sua consciência para um Rick da Cidadela, e volta para lá, disfarçado.

Em uma sequência de tramoias que resultam na destruição da Cidadela e da Prisão da Federação, Rick revela sua real motivação para ter se entregado na season finale anterior: acessar o sistema da Federação e desvalorizar completamente a moeda galáctica, quebrando a economia da Federação e, por consequência, destruindo-a.

Vai dizer que isso não é engenhoso e fabulosamente cruel – tanto por parte de Rick, quanto de Harmon e Roiland?

O tom melancólico é quebrado, obviamente, pela melhor revelação de todos os tempos: o cientista conta à Morty que sua única e maior motivação é conseguir provar mais uma vez o raríssimo molho Szechuan, uma edição limitada do McDonalds, feito como promoção para estreia de Mulan. Literalmente, que seu “arco na série” é encontrar o molho para McNuggets, nem que precise de mais nove temporadas para isso.

A TEMPORADA DAS ESCOLHAS

Uma das questões recorrentes nesta temporada de Rick and Morty é o poder das escolhas. De volta a uma Terra agora sem colonização alienígena, ainda no primeiro episódio, Beth é confrontada por Jerry em um dos seus pouquíssimos momentos assertivos: escolher entre Jerry ou Rick. Ela escolhe seu pai.

Essa decisão, que acarreta em um inevitável divórcio, acaba sendo a deixa para que o resto da família finalmente brilhe. Antes dessa temporada, ainda que todos fossem importantes, Summer, Beth e Jerry acabavam nas sombras dos dois personagens que dão nome à série.

O tema das escolhas retorna novamente no episódio seguinte, quando Rick, Morty e Summer vão parrar em uma Terra pós-apocalíptica certamente inspirada em Mad Max. Com dificuldades em superar o divórcio dos pais, Summer e Morty acabam se envolvendo demais com o estilo de vida dos Death Stalkers, um grupo de “carniceiros” locais. Ali, a adolescente precisa escolher se fica com os Death Stalkers e volta para casa, após se envolver romanticamente com um deles e se encontrar no estilo de vida rebelde e destrutivo do grupo – bem distante da realidade de teenager fútil e chatinha que ela representava.

Tempos depois, no nono episódio, Beth e Rick vão em uma aventura sozinhos. Na volta, Beth percebe quão parecida com seu pai ela é e, mais uma vez na temporada, é confrontada com uma decisão que a divide: continuar vivendo a mesma vida, ou ser clonada por seu pai e poder sair para conhecer o mundo – e provavelmente o resto do multiverso. Esse momento é representativo do crescimento da personagem durante a temporada, o clímax do conhecimento dela como indivíduo à parte de seus filhos, pai e marido. Inclusive, acaba compondo um dos grandes mistérios da season finale.

Enquanto todos evoluem, Jerry parece continuar um homenzinho sem graça, sem atitude e sem iniciativa – só realmente tomando as rédeas da sua vida ao confrontar Beth. Em The Whirly Dirly Conspiracy, ele faz um acordo com um alien que deseja matar Rick. Desistindo de última hora, ouve uma das coisas mais importantes que poderia escutar de seu ex-sogro: ele é um parasita que se alimenta da dó alheia. Quando, em The ABC’s of Beth, precisa terminar com uma namorada alienígena que arranjou só para superar a ex-mulher, coloca a culpa em seus filhos e isso quase culmina no assassinato dos mesmos.

CONTINUIDADE E REALIDADE

Vi um vídeo recente no fantástico Film Theories sobre a probabilidade da existência – e sobrevicência – de Pickle Rick, apresentado em um episódio homônimo onde Rick se transforma em um picles para fugir da terapia em família – ele faz de tudo pra escapar desse tipo de envolvimento emocional. Dan Harmon fez uma participação especial e disse o seguinte: quando a equipe criou Pickle Rick, a ideia simplesmente surgiu e eles fizeram. Sem grandes pesquisas ou base na ciência, simplesmente porque deu na telha.

Tudo bem, ele diz que sim, normalmente eles fazer muitas pesquisas e por isso a série é tão profunda. Enquanto muito do que acontece em Rick and Morty é tão real e plausível, vários acontecimentos se distanciam do factível.

Talvez esse seja um dos motivos para a animação e sua terceira temporada – que quebrou o recorde de audiência do Adult Swim – fazerem tanto sucesso. A combinação perfeita, curiosamente nem sempre cuidadosa, de ciência e imaginação origina um universo absurdamente imersivo, onde não conseguimos deixar de acompanhar, ao lado da bizarra família do malucão Rick Sanchez e do agora não tão ingênuo Morty Smith.

Justamente nessa temporada, o pequeno Morty também cresce. Ele se torna mais maduro, aprendendo, inclusive, à confrontar seu avô – um sinal de que as coisas estão mudando mesmo. Ah, e a afirmação de Rick de que esse ano seria o mais sombrio? Morty cogitar e tentar matar seu avô em Vindicators 3 já faz disso a mais plena verdade.

A continuidade – com todas as pontas soltas sendo eventualmente amarradas – também impressiona. Arcos iniciados em temporadas anteriores são retomados, como o de Evil Morty – um dos maiores mistérios da série e que reencontramos em The Ricklantis Mixup.

Já definimos Rick and Morty como a melhor animação adulta que já aconteceu desde South Park. Agora, podemos colocar a terceira temporada como a melhor de todas, focada em aprofundamentos – tanto de seus personagens, quanto da mitologia da série. Se Harmon e Roiland continuarem assim, podemos esperar muito daqui para frente – e que venham as teorias!

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