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Embora seja um filme considerado pertencente ao movimento neorrealista italiano, creio que Rocco e seus Irmãos seja a obra que demonstra o nítido afastamento de Luchino Visconti do movimento que ele mesmo inaugurou, evoluindo sua cinegrafia. Isso ocorre por conta do abandono claro de diversas características visuais que marcavam o movimento, principalmente envolvendo o uso de não-atores e o profundo comentário social em abordagem próxima a um “docudrama”.

Visconti, em seu épico de três horas de duração, se aproxima ao máximo de um formato dramático mais clássico, porém trazendo propostas narrativas à frente de seu tempo, além de uma história polêmica e complexa permitindo um punhado de interpretações totalmente diferentes sem que nenhuma esteja realmente errada, embora haja muitas dúvidas sobre qual é a mais “correta”. Ou melhor, sobre qual o diretor realmente pende.

5 irmãos. 5 histórias

Para um filme enorme que atravessa anos a fio como Rocco e Seus Irmãos, também temos uma quantidade enorme de roteiristas – o que pode justificar essa multiplicidade de significados da obra. Liderados por Visconti, o time de escritores é inspirado pela obra do escritor Giovanni Testori a adaptando livremente.

Somos apresentados a família Parondi, originalmente do interior do sul italiano, partem para Milão na esperança de dias melhores e oportunidades de emprego, muito motivados pelo sucesso do primogênito Vincenzo que está prestes a se casar com a bela a Ginetta. Chegando de surpresa, os Parondi logo descobrem que Vincenzo vive com os sogros sem a menor possibilidade de acolhe-los na moradia.

Com essa perspectiva negativa, mamma Rosaria acaba conseguindo um quarto rudimentar para morar junto com seus quatro filhos: Rocco, o ingênuo; Simone, o fortão; Ciro, o justo; e Luca, o filho caçula que ainda está definindo seu caráter. Conforme o tempo avança, a família consegue se estabilizar em empregos simples em Milão, mas Simone se destaca ao conseguir ser chamado por um grande treinador de boxeadores indicando oportunidades de uma vida melhor já que o rapaz vira um atleta poderoso. Mas a relação entre os irmãos começa a desandar quando Nadia, uma prostituta melancólica, entra na vida de Simone que fica cada vez mais violento.

O que rapidamente é estabelecido por Visconti é a abordagem com múltiplos protagonistas. Com o filme dividido em cinco atos, temos cinco diferentes trechos, mas satisfatoriamente conectados entre si, nos quais os cinco irmãos se tornam protagonistas do filme. Entretanto, isso não quer dizer que tenhamos um vasto rol de complexidade para todos os irmãos, já que a ênfase está em Simone e Rocco – eles já são suficientes para guiar toda a narrativa.

Os primeiros atos de Rocco e Seus Irmãos são tudo o que cinema italiano otimista pode oferecer. Há toda a atmosfera de decadência, mas que não consegue quebrar o espírito festivo da família barulhenta, principalmente a mãe Rosaria que é o típico estereótipo da mamma italiana fervorosamente católica e repleta de defeitos, disposta a se tornar um verdadeiro monstro ético para defender seus filhos.

É justamente nesse ponto de ambiguidade moral que Visconti te fisga e obriga a condenar ou a concordar com os personagens. O debate central do longa é mostrar a cidade como corruptora da inocência, mas vejo isso de outra forma, pois temos tantas elipses – compreensíveis pelos milhares de problemas que o cineasta enfrentou durante as filmagens do filme, que tornam esses saltos temporais relativamente bruscos, mais justificáveis.

Visconti quer provocar o público com o contraste entre discurso e imagem, pois são recursos, no caso, bastante opostos. Isso é visto com Simone, o fortão folgado. Como não há um backstory coerente para a personalidade dos irmãos, apenas os conhecemos no “ali e agora”. E nesse caso, Simone sempre é retratado como um oportunista mau-caráter desequilibrado que constantemente joga as melhores oportunidades de sua vida no lixo, além de ser um amante psicótico fissurado por Nadia que por si já é uma personagem bem controversa.

Porém, por mais nojento que Simone vá se tornando, boa parte da família ainda o defende, se igualando a ele por tolerar um nível tão doentio de suas atitudes. Essa é a circunstância principal, portanto: a ignorância da culpa e do perdão exagerado. Com tantos filmes objetivos e guiados sob mão pesada de diretores menos talentosos, é fácil assumir, portanto, que Visconti apoia as ações da família em proteger Simone, mas isso é bastante equivocado afinal o diretor simplesmente se abstém de apregoar algum valor pessoal para o que está mostrando.

É justamente por causa disso que condenam o filme de misógino e outros adjetivos nada agradáveis, mas é um fato concreto que Visconti traz o retrato de uma família italiana que simplesmente não valoriza as mulheres – Vincenzo e sua esposa Ginetta são totalmente escanteados do núcleo narrativo. Esse ponto é visto com Nadia e Rosaria. Nadia, interpretada impecavelmente por Annie Girardot, talvez seja a personagem mais complexa do filme em jornada de busca pela redenção.

Pode parecer um arco clichê, mas é guiado com eficácia dramática exemplar dessa história da prostituta niilista que, subitamente, descobre uma paixão que dá forças para se livrar de um trabalho que ela repudia e se vê prisioneira. Visconti traz um bom jogo de opostos com os dois romances que ela engrena com Simone e Rocco, transitando do flerte superficial para uma paixão verdadeira com um homem que parece a compreender.

Essa evolução obviamente é interrompida pela característica inerente a todos filmes neorrealistas: a miserável tragédia. É evidente que não pretendo entrar em spoilers aqui, mas já saibam que a segunda metade do longa oferece uma guinada drástica a direção oposta que caminhava. Isso acontece durante o desenvolvimento do trecho mais conturbado e cruel do filme ao tornar Rocco, enfim, protagonista.

Se Simone é o diabo, Rocco é messiânico. Sua pureza ingênua é capaz de transformar a vida dos que o cercam, de certa forma. Na verdade, Rocco é apenas a face oposta da mesma moeda (Simone), pois seu nível de compaixão para com o irmão atinge níveis absurdos de crueldade. Por ser frouxo, não se impõe contra os desejos animais de Simone e acaba sendo permissivo de modo a afetar o futuro de outras pessoas, fazendo mais malefícios do que o bem.

É igualmente curioso notar como Rocco também segue um caminho bizarro de preencher os vazios e responsabilidades abandonadas por Simone, obtendo sempre sucesso nos campos que ele falhou. Isso é tão forte que no clímax da obra, Visconti traz uma montagem paralela mostrando a conquista da glória por Rocco intercalando com o fundo do poço de Simone. É uma sequência angustiante realizada com toque de mestre.

Rocco e seus irmãos também se tornam, em certo nível, misóginos contra mamma Rosaria, permitindo que Visconti mostre que as melhores das intenções possam ser um verdadeiro atentado à ética, afinal, o “inferno está cheio de boas intenções”. Todos os irmãos, cientes da decadência completa que Simone está, resolvem tomar o problema para si, poupando o rapaz da punição da Justiça e permitindo acontecimentos desastrosos. E quem é mais afetada por isso é Rosaria, pois a mulher é deixada em uma constante nuvem de ignorância que a faz agir desproporcionalmente quando descobre verdades inconvenientes.

Loucura de Família

Com tanto desequilíbrio, é preciso reequilibrar o senso moral da história novamente e isso acontece com o irmão menos expressivo dos cinco: Ciro. Visconti até mesmo se preocupa em torna-lo um pouco mais relevante ao oferecer um bom emprego e um relacionamento estável, embora isso seja muito irrelevante, já o que mais conta é justamente seu posicionamento diante do caos que se instalou em sua família.

Ele serve como a balança moral do filme, condenando ambos irmãos, apesar de ser mais violento contra Simone. Para ele, não existe essa abstração extrema do amor fraternal incondicional. Simplesmente temos o certo e o errado norteando suas decisões o que já o torna impopular na família e bastante interessante como personagem. É igualmente curioso o pós-ocorrido de toda a confusão em um diálogo revelador com o irmão mais jovem, Luca. Possivelmente seja nesse instante que vemos Visconti enviando a mensagem final, condenando todos os outros ao elevar a vida boa e sem excessos que Ciro traçou.

Visconti é um cineasta muito lembrado por ver trazer panoramas expansivos de suas histórias, clamando para que o espectador olhe a situação a distância e analise a jornada dos personagens individualmente. Em um filme com múltiplos protagonistas e narrativa fragmentada, essa análise se torna ainda mais necessária para perceber a complexidade da história que Visconti trouxe até o espectador.

Na direção, como disse no início do texto, o diretor simplesmente abandona quase todos as características neorrealistas, só mantendo o contexto social que não deve ser menosprezado e a dublagem para os diálogos permitindo assim movimentos de câmera realmente ousados para a época lembrando um pouco a técnica de composição em movimento adotada por Steven Spielberg.

Com predileção para planos longos e uma encenação muito vívida para imprimir a captura perfeita da realidade caótica – basta reparar nas coisas que acontecem na profundidade de campo nas cenas de jantares e das lutas de boxe, o cineasta consegue movimentar a câmera elegantemente explorando os cenários ou até mesmo ousando alterações súbitas na altura da câmera com gruas surpreendentes.

Não se trata de um capricho que está em todas as cenas devido ao custo, mas quando surge, é poderoso ao extremo. Enquanto elabora graciosamente essas sequências mais suntuosas, o mesmo pode ser dito quando decide se aproximar de cenas pesarosas ou até mesmo aterrorizantes. Em duas das cenas mais miseráveis do filme, temos a presença de Nadia. Nelas, o jogo de plano e contraplano, além do ritmo frígido da montagem, conferem uma sensação de impotência e paralisia absurdas a ponto de construir as passagens mais terríveis que eu já tenha visto na vida.

Isso é alcançado devido ao tom realista que evita pender ao brega exagerado na maioria das vezes. Quando essas cenas surgem, é impossível não sentir o impacto e talento de Visconti como cineasta. Inclusive na criação de composições posteriores que encerram o terror dessas passagens preservando a fotografia sombria, planos afastados e uma trilha musical de Nino Rota que preenche as imagens depressivas.

Legado de Sangue

Rocco e Seus Irmãos é um dos filmes mais influentes e importantes da História do Cinema influenciando severamente a cinegrafia americana dos anos 1970 com clássicos inestimáveis como O Poderoso Chefão e Touro Indomável. Visconti criou outra obra-prima muito incômoda em seu olhar desalentador sobre a humanidade rebaixando tudo que há de bom no homem para o completo esgoto moral da vileza corrupta. O equilíbrio desejado é o ideal para estabelecer a ordem.

E para atingir isso, é preciso muito sacrifício, lágrimas e sangue. Se não for assim, tudo é caos.

Rocco e Seus Irmãos (Rocco e i suoi fratelli, Itália – 1960)

Direção: Luchino Visconti
Roteiro: Luchino Visconti, Suso Cecchi D’Amico, Vasco Pratolini, Pasquale Festa Campanile, Massimo Franciosa, Enrico Medioli, Giovanni Testori
Elenco: Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot, Katina Paxinou, Alessandra Panaro, Spiro Focás, Max Cartier, Paolo Stoppa, Claudia Cardinale
Duração: 177 minutos
Gênero: Drama, Esporte, Romance

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