» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Obs: há revelações importantes da narrativa. Leia após assistir ao filme.

Há uma névoa na memória coletiva sobre Star Wars. Às vezes, nos decepcionamos ao rever algo que já fora tão maravilhoso na infância. Onde a maravilha que encantava os olhos, mentes e corações dava lugar ao sentimento agridoce da nostalgia. Com O Despertar da Força, tive a primeira reação genuína para quebrar essa cortina de fumaça. Sai insatisfeito reclamando de sua simplicidade. E então fui rever a burocrática segunda trilogia que também possui artifícios de roteiro absurdos e revi a trilogia original de linha narrativa simples e reviravoltas rápidas a partir de ações facilitadas no roteiro.

Vi que o maior problema de O Despertar da Força era eu e não o filme que seguiu perfeitamente a linha aventureira simples dos trabalhos originais de George Lucas. Com Rogue One, há uma profunda diferença, mesmo que ele se encaixe e respeite a mitologia da saga.

Assim como boa parte das obras de arte, ficar satisfeito com a proposta deste spin-off é uma mera questão de interpretar o que foi visto. Rogue One não possui muitos elementos que fazem Star Wars ser Star Wars: não há muita discussão política, não há lutas de sabres de luz, não há Millenium Falcon ou aquele espírito aventureiro otimista que marca grande parcela da trilogia original.

Rogue One é um filme de guerra e deve ser encarado como tal. É a primeira vez que vemos a guerra entre o Império e a Aliança Rebelde do modo mais cru possível. Violento, brutal e chocante. Ou seja, é capaz que você encontre um filme fora da proposta da saga, ou é capaz que você se maravilhe e emocione com essa história que mereceu ser contada.

Uma Nova Esperança

Como se sabe, o roteiro de Chris Weitz e Tony Gilroy fazem da história de Rogue One o verdadeiro prelúdio de Uma Nova Esperança. A narrativa se concentra na tragédia pessoal de Jyn Erso, a filha do responsável pela engenharia da maior arma de opressão que a galáxia já viu: a Estrela da Morte.

Depois dos traumas da infância na qual perdeu seu pai para o Império e sua mãe para a morte, Erso vira uma solitária fora-da-lei. Presa e enviada para o campo de trabalhos forçados do Império – associação excelente com gulags, cabañas e campos de concentração, Erso é resgatada pela Aliança Rebelde para ajudar a entrar em contato com seu antigo mentor, Saw Gerrera, um revolucionário extremista que possui uma importante mensagem de seu pai, Galen Erso, que promete revelar uma falha capaz de desabilitar completamente a super arma.

Sem gostar muito, Erso parte em companhia de Cassian Andor e do androide imperial K-2SO para Jedha, a cidade sagrada dos Jedis, a fim de completar sua missão e ficar livre de vez da Aliança Rebelde.

A força de Rogue One está em seus personagens, pois sua narrativa segue os preceitos do gênero de guerra: trauma, antipatia, negação, encontro, trauma, transformação, heroísmo, sacrifício, vitória. É uma receita intocada que rende filmes excepcionais como O Mais Longo dos Dias, Resgate do Soldado Ryan, A Ponte do Rio Kwai, etc.

A dupla de roteiristas também segue um preceito básico para filmes de guerra com narrativas de grupo: a síntese para desenvolver os personagens. Ou seja, não espere aquele arco romântico que tanto estamos acostumados a ver em diversas narrativas clássicas. Há sim catarse para diversos dos personagens, porém eles não têm o arco completo que os filmes da linha dos episódios.

Entretanto, não vejo demérito nessa situação. Seria exigir um filme longo demais para atender a essa demanda. As sínteses dos conflitos de cada um seguem figuras clássicas de dramas de guerra: uma niilista descrente na causa, um revolucionário que já cometeu crimes de guerra em nome da causa, o alívio cômico em busca de confiança e reconhecimento, o desertor de um regime totalitário em busca de redenção, o religioso e sábio guiado por sua fé e seu oposto, o cético que abandonou o caminho.

São personagens eficientes por gerar rápida empatia através de uma dor que é facilmente reconhecida pelo espectador. Enquanto muitos personagens de Star Wars ganham toques humanos depois de muitos minutos de suas apresentações – veja que Luke só virou um protagonista decente em O Império Contra-Ataca, Rogue One já firma a nossa empatia com o grupo por trazer meros humanos para protagonizar a história.

Nenhum deles são “os escolhidos”, não são superpoderosos e são vulneráveis. Detalhe é a consciência do quão descartáveis eles são. O que importa para a narrativa deste longa é retratar o que aconteceu com o esquadrão que roubou os planos da Estrela da Morte.

A única que possui um backstory decente é a heroína Jyn Erso, já estabelecendo as causas de sua descrença em tomar partido de qualquer um dos lados. Ela revela uma linha de pensamento, até então, totalmente inexplorada na série: sobre não ligar para a dominação do Império em toda a galáxia.

Mas a personagem não ficaria restrita apenas ao desinteresse pleno, obviamente. As transformações de Jyn sempre são pautadas através da tragédia. Ela decide tomar parte na briga galáctica quando descobre que seu pai ainda está vivo e depois da morte de Saw, uma figura paterna importante em sua vida – alguém descubra o que Star Wars tem contra figuras paternas.

Nisso, é onde o roteiro começa a tomar caminhos mais interessantes em conflitos genuínos. O trabalho da dupla é justamente inserir muitos tons de cinza entre os dois lados do conflito – do mesmo modo das guerras de nossa História. Através de Cassian, vemos o outro lado da Aliança Rebelde. Gilroy e Weitz se concentram em mostrar o quão longe vão as ações do homem comum em prol de uma causa.

Cassian não é um personagem extremamente elaborado, condizente com o resto do grupo, porém é de vital importância para o cânone ao tornar a guerra menos maniqueísta. Através dele, vemos que os rebeldes também sujam as mãos. Rogue One desmistifica e acaba com o maniqueísmo vigente em toda saga entre o bem e o mal.

Vemos a Aliança Rebelde se comportando verdadeiramente como uma força de guerrilha e também de seus desdobramentos extremistas onde as linhas que separam o Império da Aliança se tornam cada vez mais tênues, pois ambos os lados passam a agir na máxima ‘os fins justificam os meios’. É a chegada do universo expandido mostrando a sujeira que há embaixo do carpete, omitindo esses desdobramentos morais muito pertinentes para tornar essas facções em elementos realistas e complexos.

Um ponto principal para sustentar a animosidade entre Cassian e Erso é a ordem que ele recebe para matar o pai de sua companheira. Ou seja, a Aliança se vale de métodos cruéis, utilizando a própria Jyn para encontrar seu pai e posteriormente matá-lo.

O fato dos roteiristas matarem Galen Erso justamente com bombas disparadas pela Aliança enquanto Cassian desiste do assassinato enriquece as três frentes da narrativa. Primeiro, a Aliança mata alguém de índole boa que foi responsável em construir a fraqueza na estrutura da Estrela da Morte – os roteiristas ainda tentam pintar uma intenção benevolente através do desespero de um comandante em ordenar a suspensão do ataque em Eadu.

Por Cassian desistir de cumprir ordens que sabe que são extremadas, mostrando que os soldados da Aliança não são meros stormtroopers e por Jyn sacar que ela seria passada para trás pelos rebeldes. A partir da morte de seu pai e depois de ter testemunhado o potencial aterrorizante da Estrela da Morte, Jyn decide melhorar a Aliança Rebelde.

É uma cena emblemática para o cânone de Star Wars. Descobrir que o esquadrão responsável em roubar os planos da Estrela da Morte não ter recebido apoio imediato da Aliança é valioso. Notar que os rebeldes estavam prestes a desistir da revolução por conta do medo, é importante. Por conta dessas revelações, a história de Rogue One ganha um peso fundamental dentro da saga. E por Erso desempenhar o papel reconciliador, da descrente prover esperança para um esquadrão, contribui para o crescimento da personagem.

Os Não Escolhidos

Um diferencial interessante da narrativa de Rogue One é justamente a ausência completa de escolhidos ou de personagens excessivamente poderosos, sejam jedis ou siths. Os dois protagonistas são vulneráveis, assim como o restante do grupo. Em destaque, fica o excelente Chirrut Imwe

Um personagem que cativa muito pela excelência da atuação de Donnie Yen, capturando tremendamente trejeitos únicos de deficientes visuais, além de criar camadas mais interessantes para o próprio personagem. O roteiro e direção reservam momentos absolutamente épicos para o personagem. Yen consegue nos emocionar somente com sua tremenda atuação. É simplesmente apaixonante. Mesmo sem ser um Jedi, Yen faz com que Îmwe seja o personagem que tenha uma compreensão absolutamente misteriosa e magnética sobre a Força. É uma Fé cega. E lindíssima.

Desde o conflito com os stormtroopers até sua imolação, clamando proteção pela Força “I’m one with the Force, and the Force is with me. ”, conseguindo cumprir seu destino antes de morrer. Finalmente vemos um personagem abordar a Força de modo mais religioso e sagrado, sem se preocupar com os poderes oriundos de sua manipulação. A Força é defesa e proteção para Chirrut.

Outro ótimo personagem vem da atuação caricata de Forest Whitaker com Saw Gerrera, um veterano de guerra com surtos psicóticos. É interessante notar a tentativa de fazer um espelhamento de Darth Vader em Saw através de todo o aparato mecânico utilizado pelo veterano para sobreviver. Os roteiristas sugerem elementos muito interessantes sobre sua loucura e estado de paranoia, mas infelizmente, optam em matá-lo cedo demais quando era um personagem muito interessante para seguir até o clímax.

Gerrera tem a função importante de mostrar que a Aliança não detém o monopólio da revolução. Dela ter dado origem a grupos cada vez mais extremos de abordagem violenta e terrorista sem se preocupar com quaisquer danos colaterais para atingir seus fins.

Aliás, Weitz e Gilroy optam por uma narrativa que foge dos padrões para formar um grupo. Ou temos uma história de recrutamento ou algum elemento superior organiza os membros. Aqui, há a escolha mais inteligente. O filme tem um início um pouco burocrático, visitando diversos planetas, denotando esse universo expandido que a Disney se propõe a explorar com os spin-offs.

O grupo realmente se forma em Jedha, a lua sagrada dos Jedis, fonte do cristal Kyber que é o principal “ingrediente” de um sabre de luz. Todos se reúnem por acaso, após serem capturados durante uma incursão da guerrilha de Saw na cidade. Ou seja, o grupo se reúne de modo muito mais orgânico, fluído, sem cair em clichês didáticos de outras narrativas consolidadas. O que realmente o filme deve é uma maior interação do grupo entre si.

Os roteiristas investem muito na relação entre Erso, Cassian e K-2SO – maioria em diálogos conflituosos mostrando o quanto se desgostam, mas deve bastante em relação desses personagens interagirem com os restantes. Somente Chirrut consegue ter maior destaque durante seus monólogos sobre a força, mas Baze e Bodhi acabam eclipsados, mesmo possuindo funções e conflitos e bem estabelecidos na trama.

Algo que é estupidamente corajoso é matar todos durante o clímax no planeta paradisíaco Scarif. Os roteiristas conseguem designar funções importantes para cada um antes do sacrifício pleno, engrandecendo a morte dos personagens.

Worst Day in The Office

Quem já viu a 1ª temporada de Fargo verá muito do personagem de Lester Nygaard no antagonista principal de Rogue One que também é, possivelmente, o melhor personagem da história do filme.

O negócio para compreender Krennic está justamente em entender suas “aspirações”. Krennic é um cara que deseja ser notado, mesmo que, apesar de todos os seus esforços, é somente um diretor medíocre que poderia estar confinado nos limites de um complexo C imperial nos confins da galáxia.

Mesmo orquestrando a construção da Estrela da Morte, mesmo depois da destruição de Jedha, Krennic não consegue o reconhecimento que tanto procura. Esse embate entre ele e Tarkin consegue desenvolver seu arco com extrema clareza.

Porém, o destino é cruel demais com nosso antagonista. Muita gente reclama de seu fraco senso de ameaça. Para mim, é justamente isso que o torna tão interessante. Ele tenta ser ameaçador, mas é um rato vestido de homem. Em particular, Gareth Edwards acerta muito ao enquadrá-lo tão diminuto em relação a onipotente sombra de Darth Vader durante o encontro dos dois em um planeta que parece com Mustafar (o que seria genial).

A narrativa de Rogue One é densa, sombria e cruel com absolutamente todo o elenco protagonista, mas parece conspirar bastante contra Krennic. É basicamente o pior dia de trabalho de toda a história de Star Wars, pois o homem consegue falhar em absolutamente tudo.

Ao explodir Jedha, ele não é promovido. Tem seu cargo tomado por Tarkin e ainda recebe a notícia de que os engenheiros conspiraram contra ele. Corre para Eadu onde acaba vendo morto um “amigo” seu de longa data e nem mesmo por suas mãos. A base imperial é destruída. Foge e parte para se explicar a Darth Vader onde ainda acaba sufocado por suas “aspirações” – mesmo que ele goste de ter irritado Vader a ponto de agredi-lo (para termos uma ideia do quão insignificante Krennic é).

Então vai até Scarif para averiguar qual era o vazamento de informação e acaba preso por conta de uma batalha colossal que surgiu absolutamente do nada – tomando em conta seu ponto de vista. A cidadela mais importante do Império é totalmente destruída, os planos são roubados com sucesso e, ainda por cima, é morto justamente pela máquina que tanto batalhou para que fosse construída agora plenamente comandada por seu rival.

O Império perde justamente sua principal arma devido às diversas falhas do diretor. Muitas delas originadas pela sua arrogância e autoindulgência. O que torna a figura de Krennic ainda mais trágica é sua real crença na benevolência do regime imperial. É um homem que consegue atrapalhar o equilíbrio da galáxia em dobro, seja por sua incompetência ou por sua ignorância.

Ben Mendelsohn, a direção e principalmente o setor de figurino contribuíram para tornar Krennic um excelente personagem. Atentemos ao figurino. Krennic se veste de branco e usa uma capa branca – toda amassada refletindo essa falta de cuidado latente que há no personagem. Ninguém em Star Wars usava uma capa além de Darth Vader – por isso que eu gosto tanto de tirada sensacional “Be careful to not choke on your aspirations, director Krennic.”.

Todo o uniforme do Império é pautado por cores sombrias – excetuando os Stormtroopers. Sua guarda pessoal, o exército de elite dos Death Troopers usa trajes pretos, acompanham Krennic aonde quer que ele vá. Ou seja, é mais do que óbvio que o antagonista deseja ser notado pelo contraste do preto utilizado por sua guarda com o branco de suas vestes. Esse complexo de pequeno poder narciso encanta, além do personagem conter sua dose de ironia simples, sem gracejo ou elegância, que sempre dá lugar para sua verdadeira face: o medo e o desespero.

 

O diretor Rogue

Nada mais inteligente do que escolher um diretor recém acolhido no universo dos blockbusters para fazer nome em um Star Wars. Gareth Edwards é um queridinho em Hollywood, após ter feito com sucesso seu independente Monstros e dar a nova concepção de filme de monstro com Godzilla.

Em seu terceiro longa-metragem na carreira, o homem realiza o sonho de muitos cineastas: ser convidado para dirigir um Star Wars. E imagino que o peso e pressão que ele tenha carregado durante toda a produção do longa seja um pouco similar ao de J. J. Abrams com O Despertar da Força.

Os dois tiveram a árdua tarefa de renovar Star Wars. Abrams em ressuscitar a franquia depois de 10 anos de hiato. E Edwards em fazer o mais arriscado: dar o pontapé inicial para o primeiro filme destinado à saga de antologias canônicas da franquia conferindo estilo próprio enquanto explora o vasto universo expandido.

O resultado, bom, é a minha opinião, mas creio que Edwards e a Disney conseguiram entregar um dos melhores filmes Star Wars da saga, isso se não for o melhor. A começar, não temos os queridos créditos opening crawl, mas não significa que Edwards não lance um aceno aos clássicos créditos.

Abre seu filme justamente com anéis que circundam uma lua onde a família Erson vive. Em travelling, há a simulação inteligente dos créditos. Depois, começamos a entender as propostas interessantíssimas de Edwards para a direção.

Mesmo que o ritmo de sua montagem seja um pouco acelerado, o reencontro de Krennic com a família Erso conversa diretamente com o cinema samurai dos anos 1950, em especial ao de Akira Kurosawa – detalhe para os kimonos que constituem o figurino (toda a atmosfera de Os Sete Samurais paira em Rogue One). Ainda que não haja uma luta de espadas, a linguagem é bastante similar nos enquadramentos e intenso jogo de plano/contraplano. A fotografia fria usa contrastes belíssimos da terra negra, dos matinhos verdes e do céu cinzento nublado – é possível sugerir esse esquema de cores como a representação do desenvolvimento de Jyn Erso ao longo do filme.

Porém, o maior detalhe de linguagem presente aqui é o uso de curtíssima profundidade de campo. Somente a face dos personagens permanece focada enquanto todo o resto é perdido ao fundo. Edwards deixa claro a partir deste recurso que não há escapatória para a família Erso: ou há a rendição, ou há a tragédia.

Depois desse misto de cinema samurai com flertes de Bastardos Inglórios, Edwards encerra a sequência de abertura já dando o primeiro sinal ao seu amor por filmes de monstros: na relação de Jyn observar os Death Troopers que a caçam. A primeira mensagem é estabelecida logo ali: encarar os monstros. Jyn, ainda nova, não os encara diretamente, se esconde.

Esse é um ponto de desenvolvimento da personagem que independe do texto, em maioria. É construído inteiramente através das imagens de Edwards. Repare que os olhos de Jyn estão emoldurados pela saída da escotilha. Ela observa seus medos, mas amparada e protegida.

Essa mesma moldura dos olhos é retomada ao fim do filme, quando ela se disfarça de engenheiro imperial. Ela também observa os monstros que abomina, mas ainda é amparada pela proteção do disfarce. Somente quando é confrontada por Krennic que Erso finalmente ousa assumir quem realmente é – lembrando que ela usava nome falso, e encara o monstro de frente pela primeira vez.

Depois, na cena mais bela do filme, da destruição de Scarif, Jyn está voltada justamente para a explosão enquanto Cassian, abraçado a Jyn como um porto seguro, recolhe o olhar para o outro lado, amedrontado e sereno. Finalmente ali, na plenitude do desenvolvimento de sua personagem, Jyn encara o maior monstro de todos: a morte. E não se resigna até o fim.

Só com esse valor de simbologia, Edwards se destaca entre diversos diretores atuais de Hollywood. É um cuidado que agrega bastante valor ao seu estimado filme. Esse investimento emocional é um bom diferencial, pois o terceiro ato da narrativa se comporta como uma montanha-russa de emoções. É difícil segurar o choro com Rogue One, pois o apego aos personagens é eficaz, mesmo que não haja o pleno desenvolvimento.

Edwards consegue dar outro sentido à aventura vista em Uma Nova Esperança, por presenciarmos toda a brutalidade que ocorre no clímax desse longa. Nos múltiplos sacríficos para triunfar sobre o medo.

O diretor não é tão gracioso na encenação quanto J.J. Abrams que consegue organizar movimentos de câmera homéricos em sincronia com a ação em três planos diferentes – isso acontece muito em O Despertar da Força. A decupagem permanece boa aqui e Edwards tenta, em algumas ocasiões, criar uma encenação mais elaborada. Porém, toda as vezes que essa vontade surge, de fazer algo mais complexo e longo, um corte aparece e corta a organicidade do movimento.

Enquanto desperdiça essa oportunidade, ele não desaponta em nada em ação e continuidade de montagem. As sequências de ação, em particular as do clímax, são muito complexas de realizar, mas sempre é possível entender com plena nitidez o que se passa em tela. Aliás, o diretor consegue encaixar até mesmo nas formas clássicas da saga. Como de costume, temos a clássica interpolação durante o clímax, acompanhando a invasão de Erso, Cassian e K-2SO, a batalha do resto do esquadrão em Scarif e suas reações com diversos personagens e a grandiosa luta espacial – uma das melhores de toda a saga.

O mais interessante de Edwards é que, além de introduzir suas próprias marcas para o universo Star Wars, são os constantes acenos para outros cineastas. Como apontado anteriormente, Kurosawa e Tarantino são uns deles – detalhe, toda vez que o raio mortal da Estrela é disparado, Edwards encaixa os mesmíssimos planos de George Lucas em Uma Nova Esperança. Porém, uma das referências mais presentes em seu estilo de direção vem de Christopher Nolan e seu Interestelar

Vejamos, em uma das cenas mais icônicas do longa: o primeiro teste da Estrela da Morte com a destruição de Jedha. Enquanto ele monta coisas próprias de seu trabalho, fazendo uma simbologia valiosa ao fazer um eclipse cobrindo o sol daquele sistema para, literalmente, fazer a Estrela da Morte virar uma estrela, também já indica seus elogios a Nolan quando a grupo foge da total destruição do lugar.

Em certo momento, o céu e o chão se misturam, virando uma massa só de destruição – isso ocorre nas duas visitas aos planetas em Interestelar. Outra característica é a inserção de planos usando a nave como referência de ponto de vista.

Aliás, todo o cuidado com iluminação digital para as cenas espaciais é de cair o queixo. A luz dura castigando os destroyers imperiais, os cruzeiros rebeldes, os TIE Fighter e X-Wings, reagindo a cada explosão, é estupidamente magnífico. O salto de efeitos visuais que esse filme apresenta realmente é absurdo: seja na construção visual dos planetas sempre adequados à mitologia da saga – destaque para a interessante ‘Anel de Kafrene’, ou com a reconstrução completa de faces de atores há tempos mortos como Peter Cushing que “volta” a dar vida ao excelente Tarkin. Até mesmo o processo de maquiagem virtual em Leia impressiona bastante. É estupendo.

Seguindo a identidade de Edwards de flertes com monstros, há bastante coisa interessante em Rogue One. Há maior presença de alienígenas construídos por efeitos práticos e maquiagem: destaque para o terrível Bor Gullet que exibe um lado perverso de Saw Gerrera. Outro excelente trabalho em relação agora a escala e onipotência das máquinas do Império é justamente na apresentação sensacional dos AT-ATs que surgem através das fumaças como se fossem predadores gigantescos e silenciosos à espreita. Toda a relação de escala é bem explorada pelas câmeras de Edwards, isso não é restrito apenas aos AT-ATs, mas principalmente com a Estrela da Morte em suas cenas assustadoras de destruição.

Em homenagem ao soldado desconhecido

Se há maior brilho na direção de Gareth Edwards, muito mais do que discorri até agora, é com o excepcional trabalho de encenação e câmera durante as cenas de ação em Scarif. Edwards consegue, através da ironia do cenário paradisíaco, unir as duas frontes mais violentas que a história presenciou na Segunda Guerra: a do pacífico e a da costa francesa.

Como já havia dito, Rogue One finalmente apresenta a guerra em Guerra nas Estrelas. E para isso, o diretor toma como referência trabalhos de mestres consagrados no gênero sendo a maior referência Steven Spielberg e O Resgate do Soldado Ryan. As batalhas durante o intenso tiroteio final não chegam perto da violência da abertura de Soldado Ryan, mas, mesmo assim, não deixam de chocar o espectador. Há um grau de perfeita imersão graças o cuidado com os detalhes. Os personagens se sujam durante as diversas batalhas do filme, respeitando o clima e terreno de cada lugar. Tudo é de realismo pertinente.

Temos explosões que lançam corpos às alturas, companheiros sendo mortos a todo momento, há vislumbres da dor dos soldados em verem seus irmãos morrendo nos braços. Trechos pura organicidade na encenação onde acompanhamos um X-Wing abatido se chocando e explodindo nas areias da praia enquanto um sargento, desesperado, chama seu pelotão que corre no mar raso em direção à segurança. Ou de vermos troopers se entrincheirando na areia, no sentimento claustrofóbico de notar que não há a menor chance de sobrevivência.

De até mesmo na reação dos personagens principais ao morrerem aos montes, sempre em sacrifício cumprindo atos heroicos momentos antes. Ou na tripulação de Corvette que se suicida ao estilo kamikaze para destruir dois detroyers imperiais na tentativa de romper o escudo que envolve Scarif. Ou na verve inspirada em Winston Churchill para o almirante Raddus.

São inúmeras referências para que nós associemos a batalha de Scarif com o Dia D ou outra batalha tão histórica quanto da 2ª Guerra Mundial. Esse sentimento de sacrifício, honra e esperança permeia essas cenas que mostram os homens comuns dando seu melhor para salvar a galáxia. Ver a beleza disso e associar aos períodos mais sombrios da nossa História resulta uma explosão de lágrimas.

É por isso que a conclusão da história de Jyn Erso e seu trágico fim nos provoca tremendo pesar. Aqui, o raio destruidor da Estrela da Morte é a associado às bombas atômicas da guerra. Edwards captura esse sentimento de profunda melancolia ao fim de Scarif, com a dilatação temporal da destruição que demora a atingir os heróis. Na angústia de uma morte que não há a menor chance de sobrevivência ou redenção.

O mesmo clima persiste nos últimos dois minutos de projeção. A apresentação épica de Darth Vader saindo do negrume opaco das trevas, brilhando apenas seu sabre vermelho que reflete seu enorme ódio, finalmente nos faz lembrar que Vader é um vilão, um dos melhores. Edwards confere uma atmosfera de tanta opressão e terror no personagem que, ignorando a quão épica é a cena, consegue provocar calafrios. Edwards e a Disney entregaram o Vader mais violento que já vimos em todos esses filmes.

E por conta dessa violência assustadora, o diretor novamente consegue entregar outra cena valiosíssima para seu filme. Os lados entre luz e trevas se equilibram com a solidariedade, ainda que marcada pelo desespero, de outros soldados rebeldes entregando os planos, de mão em mão, para que o propósito da missão não se perca, mesmo que o custo da liberdade seja a própria vida. Novamente, não há vitória verdadeira sem sacrifício. E sem o horror, não há o desejo de paz.

A independência de Star Wars

Rogue One prova que Star Wars não vive apenas de lutas épicas de Jedis contra Siths, de duelos de sabres de luz ou de uma história que sempre ronde a família Skywalker. Aqui, finalmente tivemos a oportunidade de ver algo magnífico que edifica e amadurece o universo Star Wars para patamares nunca vistos antes a partir do ponto de vista de personagens comuns.

Porém, creio que seja fácil interpretar esse filme de modo que te deixe profundamente irritado, pois ele realmente abandona as características que fazer Star Wars ser Star Wars. É um filme de guerra que usa e abusa dos preceitos básicos deste tipo de narrativa, tem sim seus arcos e personagens clichês, porém, no meu ponto de vista, isso não é demérito algum para o filme excepcional que Rogue One é.

São conceitos clichês que nunca havíamos visto aplicados a esse tipo de universo e foi algo que se provou muito certeiro. Como? Oras, esse filme fornece um significado completamente diferente à Uma Nova Esperança. Ele agrega ao universo mágico de Star Wars mostrando o sacrifício de homens comuns em prol do sonho, da esperança de liberdade. É impossível não ver o tipo delicado de beleza que Edwards tanto trabalha ao longo da projeção.

Fora essa mensagem maravilhosa, a narrativa tem a coragem de ir além, dizimando seu elenco de heróis em totalidade. Consegue equilibrar em doses certeiras a comédia e a tragédia, injetando ação de qualidade preenchida por um espetáculo visual e sonoro de excelência – inclui-se aqui a maravilhosa trilha musical de Michael Giacchino que confere grandiosidade a diversas das melhores cenas do longa.

Certamente não é algo para se esnobar. Rogue One é o blockbuster em sua forma mais pura conseguindo atingir com sucesso tudo que uma produção dessas visa entregar: uma ótima história, bons personagens, excelente espetáculo e tocar profundamente a emoção dos espectadores.

Rogue One é mais que Star Wars, Rogue One é História.

Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, 2016 – EUA)

Direção:
 Gareth Edwards

Roteiro: Chris Weitz, Tony Gilroy
Elenco: Felicity Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Wen Jiang, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Riz Ahmed, Mads Mikkelsen,  Jimmy Smits, Alistair Petrie, Genevieve O’Reilly
Gênero: Ação, Ficção Científica

Duração: 134 min

Comente!