É uma profunda heresia pensar na ideia de Star Wars sem a presença de John Williams. Um dos grandes charmes da saga de George Lucas é justamente o número de composições musicais e temas icônicos que o lendário maestro já presenteou ao mundo, desde os heróicos temas da Aliança Rebelde, passando pela epicidade das batalhas especiais e a clássica peça musical que traduz a opressão de Darth Vader. Não seria exagero dizer que Star Wars tem os temas mais memoráveis e reconhecíveis da História do Cinema.

Quando fora dada a notícia de que Williams não retornaria para Rogue One: Uma História Star Wars, o desespero pairou sobre minha mente, ainda mais tendo em vista que Alexandre Desplat seria seu substituto – um excelente nome, mas eu pessoalmente não vejo o estilo de Desplat encaixando-se dentro dessa proposta. E há pouco mais de um mês de seu lançamento, provavelmente por fruto das refilmagens do filme, Desplat foi trocado por Michael Giacchino. A pressão em cima do oscarizado compositor era grandiosíssima, não só por calçar os sapatos enormes de Williams, mas também pela embaraçosa situação de se estar no lugar de uma pessoa contratada anteriormente.

Felizmente, para nós, John Williams e toda a galáxia tão, tão distante… Giacchino foi a escolha certa.

As próprias diferenças estruturais e temáticas de Rogue One permitem que Michael Giacchino possa experimentar coisas diferentes. Por exemplo, sem a presença do icônico letreiro da saga, a música de Giacchino começa abruptamente com He’s Here for Us, onde nos introduz aos dois principais grandes temas do filme: o da heroína Jyn Erso e do vilão Diretor Krennic. É uma orquestra clássica e romântica, com trompetes mais graves para Krennic e algo mais harmonioso para Jyn, mas ambas as peças merecem créditos por terem uma identidade bem formada, que vai se manifestando ao longo das faixas seguintes. Ainda na introdutória, vale destacar o uso das flautas e dos violinos para salientar a tensão da cena, que marca a chegada de Krennic ao esconderijo de Galen Erso.

O drama de Jyn Erso mantem o belo tema de Giacchino, até o momento em que temos uma arranjo mais melancólico e que utiliza o piano em Star-Dust, provocando um efeito muito dramático e que fortalece a cena na qual Jyn assiste à mensgem de holograma de seu pai. As cordas e o piano vão mesclando-se para criar uma faixa silenciosa, o que gera um contraste impecável com a cena entrecortada com o primeiro disparo da Estrela da Morte – tendo uma nota de piano mais grave quando o raio de fato atinge o planeta. Esse efeito retorna de forma mais intensa em Confrontation on Eadu, onde o tema de Jyn explode durante um momento mais trágico com seu pai, da mesma forma que atinge níveis operáticos, dignos de uma grande tragédia grega, com Your Father Would Be Proud, no uso mais espetacular do tema da personagem.

Então chegamos à ação de Rogue One, e a forma como Giacchino opta por musicá-la. De um lado, temos uma emulação muito fiel ao estilo de John Williams, com a orquestra pesada e divertida em algo como Jedha Ambush ou AT-ACT Assault, onde podemos ouvir também uma presença considerável de instrumentos de sopro doce; isso rende alguns momentos mais leves, como quando Cassian fica surpreso com a competência de Jyn em derrubar diversos stormtroopers durante um combate. Porém, Giacchino traz algo mais original e moderno ao abraçar o aspecto de guerra do longa, vide os tambores militares em Rogue One e a percussão mais intensa em The Master Switch – que traz também um coral mais discreto e coadjuvante do que os que estamos acostumados a ouvir na saga. Bem, com exceção do coral ouvido em Hope, que garante todo o pavor e horror da fantástica cena na qual é tocada.

Outro aspecto fascinante da trilha e que quase passa batido no álbum é Guardians of the Whills, tema suave e de arranjo lento que é dedicado ao personagem Chirrut Îmwe e sua percepção religiosa da Força. A faixa move-se com uma percussão quase mística, com as cordas puxando para um estilo mais oriental, bem preenchido pelo coral de fundo. Só fico decepcionado por não termos os tambores típicos de um filme de Kung Fu aqui, instrumento que marca a cena em que Chirrut derrota um grupo de stormtroopers com um bastão.

Mas claro, Giacchino não poderia deixar de lado alguns temas clássicos de Williams. Por exemplo, a sombria Krennic’s Aspirations é o esperado momento em que temos o retorno de Darth Vader, e ouvimos trechos da famosa Imperial March lentamente dominando a faixa tensa que contava com algumas notas do tema do Diretor imperial. Temos também um pouco de Binary Sunset em Trust Go Both Ways, marcando a clássica cena de decolagem da nave à missão principal e o tema da Princesa Leia literalmente na última cena, com a faixa Hope, costurando musicalmente o final deste filme com os eventos de Uma Nova Esperança. São nods aos temas de Williams, todos feitos de maneira orgânica e bem-vinda.

Eu não poderia estar mais satisfeito com a competência e qualidade desta trilha sonora. Mesmo sem a presença do mito John Williams, Michael Giacchino fez um ótimo trabalho na criação da trilha original de Rogue One: Uma História Star Wars. Ainda que não seja algo do altíssimo nível do veterano compositor, fica bem claro que Giacchino é um excelente nome para se continuar na franquia. A Força é forte aqui.

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