Há algo estranhamente cômico e mórbido na nova série da Netflix, Santa Clarita Diet, estrelada por Timothy Olyphant e Drew Barrymore. Sua premissa pode não ser uma das mais originais, mas o modo literalmente visceral como ela é tratada é o que chama a atenção aqui: a história gira em torno de Sheila, uma corretora de imóveis que vê sua vida virar de cabeça para baixo ao se transformar numa morta-viva.

A ideia parece ordinária, a priori, principalmente se nos recordarmos de outras produções audiovisuais que retrataram o mesmo tema com perspectivas diferenciadas: The Walking Dead, cujas criaturas fazem parte do núcleo antagonista, e iZombie, que traz uma detetive zumbi como personagem principal, são séries completamente divergentes entre si e que fornecem outros pontos de vista sobre o mesmo assunto. De que modo Santa Clarita Diet conseguiria superar ou entregar uma narrativa original utilizando-se do mesmo prisma narrativo?

Primeiramente, podemos dizer que o show criado por Victor Fresco tem uma mitologia própria. Apesar de não ser ambientado num cenário pós-apocalíptico ou numa sala legista, a narrativa absorve estórias antigas e medievais que se relacionam a aparições de mortos-vivos na sociedade e de como isso ocorria. Diferentemente do que achamos, o modo de contaminação não é explorado, apesar da existência sim do “paciente zero” – Sheila – a qual é incumbida com tais habilidades, que mais tarde se mostram um fardo.

A série se passa no subúrbio de Santa Clarita, um local aos moldes de Wisteria Lane (Desperate Housewives), dentro do qual mora o casal principal. Eles são corretores de imóveis que de repente se deparam com mais um obstáculo – como se não bastasse a impetuosidade e a vicissitude de seus vizinhos inconstantes: num dia qualquer – e já aqui somos apresentados ao incidente incitante da trama principal – Sheila literalmente põe as tripas para fora e começa a se alimentar de carne crua, além de tornar-se imune a ferimentos. Mas, ao contrário do que se espera, ela não se transforma numa máquina de caçar incontrolável; muito pelo contrário, continua vivendo sua vida normalmente – exceto por alguns acessos de impulso e alguns sucos duvidosos com cor de sangue.

A outras narrativas se desenvolvem através disso. Temos, além do casal principal, a filha Abby (Liv Hewson) e seu amigo Eric (Skyler Gisondo), que tentam ajudar a família a enfrentar todos os novos problemas e as suspeitas levantadas por um dos vizinhos, Dan (Ricardo Antonio Chavira), policial do distrito da Califórnia cuja principal nuance de personalidade é a desconfiança exacerbada e o machismo destilado. Santa Clarita traz o seu potencial sim nos personagens e, como supracitado, numa nova vertente para um tema considerado batido, mas falha no quesito identidade.

É preciso saber que o desenrolar das situações é acompanhado do mais puro gore – um gore talvez tão excessivo que faça grande parte dos espectadores prefira permanecer com a sutileza de obras semelhantes a mergulhar em cenas tão explícitas quanto essas. Não estamos falando de cabeças cortadas, mas sim de sequências primitivas e cruas que são capazes de transgredir o próprio significado da palavra “escatológico”.

A série parece não ter uma estruturação, quando falamos de roteiro. Ao que o trailer e os featurettes indicavam, a história principal deveria seguir os passos de uma tragicomédia híbrida com thrillers de perseguição. Sheila e seu marido, Joel, deveriam – ao menos em teoria – adaptar suas rotinas de corretores de imóveis à caça de carne fresca para saciar a vontade da protagonista e mantê-la apta para ainda conviver em sociedade. Mas não é isso o que acontece, tirando em alguns poucos episódios. Tudo permanece num âmbito mais intimista que não se alastra para uma arquitrama – e o foco começa a existir nos momentos finais, quando a preocupação do corpo físico de Sheila começar a se decompor torna-se motivo de procurar ajuda.

A comédia é bem utilizada, principalmente se levarmos em consideração a grande experiência que Barrymore e Olyphant têm dentro deste gênero. Suas atuações podem não agradar a todos, mas não se baseiam em estereótipos de gênero, mantendo uma sutileza agradável para construir os personagens e fornecer mais endossamento e fidelidade aos seus arcos. Sheila é a matriarca da casa que se transforma, de uma para outra, numa rebelde sem causa imprevisível e cujo lado racional parece tê-la abandonado junto com a vida. Joel tenta ignorar essa brusca mudança ao mesmo tempo em que pensa num futuro próximo e nas possíveis consequências de tê-la dentro de casa. Através dos episódios, percebemos que ele não sabe se a perdeu ou se ainda a tem – apesar de ser uma morta-viva. Durante os trinta minutos do episódio piloto, cuja capacidade de envolver o público não atinge as expectativas necessárias, todos estão muito confusos, tentando compreender como suas vidas culminaram numa virada inesperada.

É quase impossível dizer que o drama existe em Santa Clarita, visto que a maioria de seus diálogos utilizam do foreshadowing ou do autoexplicativo para a atmosfera de cada uma de suas cenas – e tal estética funciona a maior parte do tempo. Entretanto, não é de se esperar que as construções narrativas mais densas e sóbrias venham carregadas de fórmulas pré-existentes – e aqui ares novelescos adornam estes momentos. Temos, por exemplo, Joel e Sheila conversando sobre seu relacionamento e sobre tudo o que aconteceu de forma a chegarem num consenso e finalizarem os clímaces em poucos segundos. Nossa conexão com os personagens é sustentada pelos escapes cômicos, mas de nenhuma forma são endossados pela seriedade de alguns pontos a serem explorados – em teoria – pela premissa.

Santa Clarita Diet é uma série original. Seus elementos retomam outras obras, como já dito, e alguns aspectos ainda precisam ser trabalhados. Mas confesso que o season finale me deixou na expectativa para acontecimentos futuros – e creio que, caso venha a ser renovada, poderá mergulhar ainda mais numa mitologia e em arcos ainda não tão bem explorados assim.

Santa Clarita Diet – 1ª Temporada (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Victor Fresco
Direção: Ruben Fleischer, Marc Buckland
Roteiro: Victor Fresco, Tamra Davis, Lynn Shelton, Ken Kwapis
Elenco: Drew Barrymore, Timothy Olyphant, , Liv Hewson, Skyler Gisondo, Ricardo Antonio Chavira, Mary Elizabeth Ellis, Richard T. Jones
Gênero: Comédia
Duração: 30 min.

Comente!