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Santa Clarita Diet chegou ao leque de conteúdos originais Netflix em meados de fevereiro do ano passado sem qualquer campanha massiva de marketing e trazendo um tema consideravelmente clichê sobre o qual tratar: os mortos-vivos. Entretanto, levando em conta que a série cômica teria como protagonistas os adoráveis e carismáticos Drew Barrymore e Timothy Olyphant como o casal Sheila e Joel Hammond, não poderíamos esperar nada além de uma perspectiva às avessas e que poderia funcionar bastante. Mas ao respaldar-se essencialmente nos excessos do gore e criar uma atmosfera presunçosa em certos aspectos, a primeira temporada falhou em sua premissa e nos apresentou um conteúdo diferente do que prometera.

Felizmente, as coisas mudaram de forma drástica quando o surpreendente sucesso por parte do público permitiu que o show fosse renovado para sua segunda temporada – e o showrunner Victor Fresco aproveitou essa margem para reformular toda a estética apresentada e mergulhar de forma divertida e natural no sub-gênero da comédia pastelão, arquitetando um cosmos único e que definitivamente permitiu uma repaginada completa na controversa comunidade de Santa Clarita. O resultado não poderia ter sido melhor: além de uma história mais consistente e perscrutada com sacadas geniais dentro do âmbito da tragicomédia, Fresco e o time criativo por trás da série conseguiram superar as próprias expectativas e nos deliciar com algo que vai muito além de sangue e matança descontrolados.

Iniciando de onde paramos no último season finale, Sheila permanece acorrentada no porão para que não tenha nenhum surto canibal e não mate mais ninguém até que o antídoto – que na verdade irá refrear os sintomas de seu estado morto-vivo – esteja pronto. E para que isso finalmente tenha um fim, a família Hammond precisa desesperadamente encontrar a bile de um sérvio para completar essa “cura”, mas as coisas se tornam cada vez mais complicadas: Joel, após ter uma crise de nervos e destruir a casa do Diretor Novak (Thomas Lennon), é levado a um hospital psiquiátrico, no qual será mantido por pelo menos 72 horas até estar “apto a retornar à sociedade sem representar qualquer perigo”. A filha do casal, Abby (interpretada pela aplaudível Liv Hewson), também está em seu próprio arco, buscando um protagonismo que lhe foi renegado na iteração anterior e tornando-se uma das figuras mais fortes da série.

Dentro de um escopo de quase trinta minutos, é complicado aprofundar-se em determinada trama ou subtrama por muito tempo sem cair na monotonia. Entretanto, diferente de uma sitcom, a série não possuía seus episódios fechados em si e busca referências em outras comédias de estrutura similar, como Silicon Valley e Unbreakable Kimmy Schmidt, expandindo cada uma das vertentes narrativas para pontos inimagináveis e que funcionam por estarem desprovidos da excessiva pretensão. Eventualmente, essas ramificações acabam de modo satisfatório e ao mesmo tempo abrem portas para a entrada de outros personagens e mais respaldo a seus protagonistas – o que funciona em quase sua completude.

Fresco parece ter compreendido o potencial de sua criação e resolve abraçar intrinsecamente as quebras de expectativas. Ao contrário do que havia tentado realizar no ano passado, ele não ousa demais e prefere manter-se em uma zona de segurança que, ainda que busque alguns clichês – como a regra da negação tripla para que a jocosidade se endosse -, eles funcionam plenamente. Os beats e as viradas, por mais que em determinado ponto se tornem premeditáveis, são fluidos e não forçam o entendimento do espectador em nenhum ponto – o que também prepara o território para o abandono do gore, cuja estética movia todo o plot dos Hammond na temporada anterior e que, agora é utilizado em uma dosagem bem mais interessante e suportável.

Como já mencionado, o showrunner e até mesmo os roteiristas buscam referências histórias para criar seus personagens – estendendo a mão para os ideais da commedia dell’arte e relendo-os em uma amálgama mais complexo e menos arbitrária. Logo, não espere encontrar estereótipos ficcionais, mas personagens tão palpáveis quanto nós e que apenas embarcaram em uma jornada sobrenatural, encarando-a como um mero obstáculo dentro de seus cotidianos. É justamente aí que o riso e o ridículo encontram uma linha conjunta e convergem em algo mágico – pessoalmente, me peguei rindo em diversos momentos por essa abordagem impossível e inegavelmente metafórica para os problemas que enfrentamos no dia a dia.

A insurgência dos coadjuvantes também é bem pensada e não jogada como vimos anteriormente. Aqui, temos um tempo suficiente de cena para explorar relações românticas e que adicionam uma agradável camada ao arco compartilhado entre Abby e o jovem nerd Eric Bemis (Skyler Gisondo), que tornou-se um agregado da família por ajudá-la a buscar perspectiva nova à situação de Sheila. Os dois trazem uma incrível química para a cena e também são agraciados com momentos que oscilam entre o drama e a comédia e que funcionam para dar uma continuidade necessária a dois blocos distintos e paralelos.

Estamos falando aqui de uma história que tem como pano de fundo mortos-vivos: logo, explorar a mitologia acerca dessas criaturas tão horrendas e que também sofreram uma relativa humanização dentro da série, era uma jogada mais que óbvia. Mantendo-se fiel ao estranho e bizarro livro que a família encontrou e que trazia informações relevantes sobre essas características sobre-humanas, a trama também evoca outros zumbis que não foram “criador” pela protagonista, mas que compartilham uma gêneses relacionada a ingestão de perigosos moluscos que também vieram da Sérvia e que são muito mais resistentes de outros da espécie. É claro que, jogando as informações em um texto como esse, parece um tanto quanto risível tal saída, mas a série deixou de se levar a sério para brincar com essas impossibilidades e nos levar a crer em algo palpável o suficiente para prosseguir a história.

Sem dúvida alguma, um dos principais ápices permite o retorno da brevíssima aparição de Nathan Fillion como Gary West, o qual fora assassinado por Sheila no episódio piloto. Entretanto, apenas a sua cabeça reaparece e entra como importante arquétipo para compreendermos o lado humano do estado “não-vivo” de certos personagens e permite a arquitetura de um gancho ainda mais cômico. Tal investida puxa consigo uma exploração maior do gradativo relacionamento entre a Xerife Anne Garcia (Natalie Moraes) e a insana femme fatale Lisa Palmer (Mary Elizabeth Ellis), mãe de Eric, cuja química também é aplaudível.

Eventualmente, Fresco cede a alguns erros do passado ao colocar em várias sequências justapostas a explicitação da superforça e da excessiva e incontrolável fome de Sheila. Apesar da quantidade de corpos desmembrados, sangue jorrando para todos os lados e alguns momentos de pura ânsia, ele sempre consegue recobrar o fio da meada ao mostrar que a situação da nossa anti-heroína na verdade pode estar piorando, mesmo após tendo injetado a suposta cura. Isso aumenta quando chegamos ao miolo da temporada, e felizmente cai em uma propriocepção e consegue driblar futuros equívocos.

A segunda temporada de Santa Clarita Diet é tão surpreendente quanto a primeira, com o diferencial de que não precisa de um respaldo supersaturado para buscar o sucesso inalcançável. Ao deixar de se levar tão a sério e abraçar as suas raízes cômicas, a série tornou-se muito mais atraente aos céticos olhos do público e da crítica e representou um respiro de originalidade para o conteúdo de uma plataforma marcada por seus altos e baixos.

Santa Clarita Diet – 2ª Temporada (Idem, EUA – 2018)

Showrunner: Victor Fresco
Direção: Ken Kwapis, Marc Buckland, Adam Arkin, Steve Pink, Jaffar Mahmood, Jamie Babbit
Roteiro: Aaron Brownstein, Simon Ganz
Elenco: Drew Barrymore, Timothy Olyphany, Liv Hewson, Skylar Gisondo, Mary Elizabeth Ellis, Richard T. Jones, Joy Osmanski, Ramona Young
Episódios: 10
Duração: aprox. 30 min. cada episódio

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