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Os anos 80 eram tempos mais simples para o cinema. Não só falando num sentido geral, mas especialmente no que diz respeito ao gênero do terror: o medo era provocado por ideias inventivas e criaturas que até hoje permanecem fincadas na cultura pop, vide as duradouras franquias de Jason Voorhees e Freddy Krueger, os dois maiores representantes da variante slasher movie. Faz falta ao cinema de terror atual algo do tipo, já que, mesmo que tenhamos tidos exemplares primorosos de mentes como James Wan, a geração atual carece de um monstro tão icônico e carismático. Afinal, é um fato que os adolescentes de hoje são mais difíceis de serem assustados, algo que ocorre mais com experimentos de linguagem e torture porn do que criatividade propriamente dita.

Por isso, não é de se espantar que Hollywood esteja constantemente voltando seu olhar para o passado, nestes tempos mais simples. Basta observar o sucesso estrondoso da série Stranger Things, um mero apanhado de referências e inspirações do cinema oitentista de Steven Spielberg e John Carpenter. Aproveitando a deixa, eis que a New Line e a Warner Bros olham para outra forte influência do seriado da Netflix: Stephen King, acelerando a nova adaptação do épico romance de terror It: A Coisa, em uma nova versão que contará com dois filmes; e que supostamemte passou por diversas mudanças em seu tom, que teriam sido o motivo da saída de Cary Fukunaga (diretor da primeira temporada de True Detective) originalmente contratado pelo estúdio, da direção.  

Seja lá qual tenha sido o motivo dessa mudança no comando, que trouxe o cineasta em ascensão Andrés Muschietti para tocar o projeto, não importa. O que importa, é que este It: A Coisa é um trabalho magistral, e não imagino como poderia ter sido melhor.

A trama começa em 1988, na cidade de Derry, em Maine. Quando o jovem Georgie (Jackson Robert Scott) desaparece misteriosamente e inicia uma onda de outros casos similares, todos envolvendo crianças. No ano seguinte, seu irmão Bill (Jaeden Lieberher) e um grupo de amigos conhecido como Clube dos Otários começa uma busca por Georgie, com todos eles enfrentando acontecimentos estranhos e assustadores, e com uma ligação em cada uma das aparições: a presença de uma entidade misteriosa que assume a forma do sinistro palhaço Pennywise (Bill Skarsgård).

Goonies 2.0

Composto por mais de mil páginas, It é um dos mais cultuados e célebres romances de King, e o extenso volume da obra certamente não cabe em apenas uma adaptação. O terror já havia sido adaptado pela televisão em 1990″, na forma de um telefilme/minissérie dirigido por XX e que iconizou Tim Curry como o palhaço Pennywise. Olhando para os dias de hoje, a televisão certamente é a mídia mais apropriada, mas a New Line merece créditos por aprovar a realização de dois filmes, comportando o núcleo dos personagens crianças na primeira parte, e um vindouro filme com a fase adulta; tal como acontece no livro de King, já que o maligno It assola a cidade de Derry num intervalo de 27 anos. Por isso, talvez seja o livro “pop” que mais merece uma divisão em duas, passando longe de ser um caça-níqueis como as divisões de O Hobbit, Jogos Vorazes e a Saga Crepúsculo.

E o filme ainda vangloria-se da duração estendida de 135 minutos, onde vemos um trabalho de síntese e construção de universo primoroso das mãos de Gary Dauberman, Chase Palmer e Cary Fukunaga (cujos créditos foram mantidos após sua saída), que aproveitam muito bem o tempo para desenvolver seus personagens e nos levar para acompanhar suas vidas bem de perto. A amizade sempre foi um tema forte nos trabalhos de King, e aqui o roteiro explora muito bem cada aspecto e identidade das crianças, explorando seus problemas e dilemas ao mesmo tempo em que trabalha a união e relação entre elas – tudo isso através de diálogos que soam como um ar fresco de tão naturais e chulos, com diversos comentários inapropriados na hora errada ou xingamentos verdadeiramente hilariantes. 

Mesmo com um grupo de personagens tão grandes, é de uma extrema felicidade ver como o texto do trio encontra espaço para todos eles. Já estamos investidos no arco de Bill em decorrência de sua dedicação para encontrar seu irmão – além do fato de ser gago, o que já lhe apresenta certa vulnerabilidade, e é sensacional ver o novato Jaeden Lieberher abraçando todas essas características e encontrando a força do personagem de acordo com seus desafios enfrentados. De forma oposta, o Ben Hanscom de Jeremy Ray Taylor assume, fisicamente, o estereótipo do garoto gordinho solitário, mas seu desenvolvimento – e o trabalho do jovem ator – são bem mais sutis e baseados em sua reação aos eventos, e através dessa linda jornada vemos o personagem crescer; além de estrategicamente usar sua solidão como desculpa para que Ben investigue todos o passado de Derry e as conexões com a Coisa.

Os outros meninos são os que acabam tendo “menos” destaque, mas ainda garantem uma presença significativa. Eddie Kaspbrak (Jack Dylan Grazer) é a variação do “certinho” do grupo, algo exacerbado por sua germofobia e a proteção exagerada de sua mãe, o que acaba criando ali o grande arco do personagem: a libertação e saída do “ninho” familiar. Personagem que menos interage com o grupo (e é um dos deméritos do roteiro nesse quesito), o Mike Hanlon de Chason Jacobs garante bons momentos graças à seu excelente peso dramático – como quando conta a história trágica da morte de seus pais, em um plano sem cortes – e a seu arco simples, mas bem resolvido, que envolve o jovem trabalhando em abatedouro. Seguindo a lógica, Wyatt Oleff tem ainda menos tempo como o judeu Stanley Uris, porém temos uma subtrama eficiente com sua dedicação para o bar mitzvah. Por fim, o Richie Tozier de Finn Wolfhard (de Stranger Things) é o único personagem que não tem um núcleo familiar revelado ou algum arco muito forte, mas tem sorte de ser o piadista do grupo e o foco absoluto dos diálogos conjuntos; se Wolfhard era o nerd introspectivo na série da Netflix, ele simplesmente arrebenta como o sabichão boca suja e que se acha muito mais descolado do que realmente é.

A grande revelação do elenco, porém, acaba por ser Sophia Lillis como Beverly Marsh, a única menina do Clube dos Otários. Mais velha e com uma personalidade bem diferente do restante do grupo, ela acaba por ser justamente um dos elementos que os une – e não só pelo fato de todos estarem caídos por ela. Lillis traz carisma e um aspecto cool, mas ao mesmo tempo vulnerável para Beverly, principalmente quando acompanhamos seu perturbador arco pessoal e descobrimos que seu pai é abusivo, e a atriz faz o balanço perfeito entre essas emoções complexas. Vale mencionar também como Lillis parece saída diretamente dos anos 80, com o mesmo perfil e até semelhanças com Molly Ringwald e Heather Langenkamp.

A Soma de todos os medos

Com um grupo tão bem desenvolvido e perfeitamente entrosado em cena, It consegue facilmente criar apego emocional entre os personagens e o espectador, que compra a ideia de amizade e companheirismo que sustenta toda a história. Dito isso, é importante reforçar que este filme está um pouco longe do terror sobrenatural e angustiante que vemos na linha de produção de Invocação do Mal, por exemplo, e sim mais próxima do estilo de aventura sombria dos filmes de Spielberg; o mesmo que Stranger Things tenta replicar, e há uma quantidade gigantesca de alívio cômico e piadas aqui, o que ajuda a tornar a atmosfera menos densa e até mais divertida, mantendo um ótimo ritmo durante sua longa duração. 

Não só na diversão, mas também o imenso peso emocional. Todos os núcleos de personagens discutidos nos parágrafos anteriores têm consequências e reviravoltas fortes, sendo curioso como a história praticamente coloca os adultos como vilões em sua grande maioria: o pai abusivo, a mãe que deliberadamente faz o filho pensar que é doente para mantê-lo dentro de casa ou o velho clichê dos pais que não acreditam nas teorias de seu filho inteligente. Mal vemos os pais da maioria das crianças durante todo o filme, o que só contribui para uni-las e fortalecer os laços entre eles, e a beleza do design de produção de Claude Paré altamente imersivo ajuda a criar uma cidade grande e quase deserta, onde as crianças estão por conta própria – mais um dos motivos que fazem esta uma das mais perfeitas “simulações” dos anos 80 até o momento.

Finalmente, chegamos a Pennywise. É uma performance desafiadora e que não depende apenas de uma boa caracterização, mas também do talento de seu intérprete; afinal, é difícil ter a sombra de Tim Curry sobre os ombros. Dito isso, Bill Skarsgård garante um espetáculo para seu Pennywise, mesmo que não seja uma participação exatamente massiva. Como toda nova releitura de um terror oitentista, seu palhaço é menos fanfarrão e mais sombrio do que o de Curry, com uma fala que surpreende pelo equilíbrio entre grossa e suave, servindo bem à proposta de uma criatura que “encanta” suas vítimas com seu discurso. Na primeira cena em que o encontramos (e também a mais longa), Skarsgård assusta pela forma com que transita entre esses diferentes tons no encontro com Georgie, vide sua falácia maliciosa ao falar sobre algodões doce, pipocas e fazer barulhos com a boca para arrancar risadas do garoto – e imediatamente transformando sua cara boba em uma expressão séria e ameaçadora. Um tremendo trabalho que, tanto pela maquiagem quanto pela performance, diversas vezes me lembraram do Coringa. Se Curry era um Cesar Romero mais sarcástico, Skarsgard é nada menos do que Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas.

O ator garante todo o mérito, mas é preciso elogiar o fantástico trabalho dos departamentos de maquiagem e figurino na concepção deste novo Pennywise. Menos um palhaço tradicional e mais próximo de uma vertente teatral arcaica (o nariz redondo de palhaço dá espaço a uma pintura), a roupa toda engomada dispensa todas as cores vibrantes e fortes da versão anterior, adotando uma paleta toda cinza. Já o rosto assusta pela camada de maquiagem aplicada na testa do ator, tornando sua cabeça maior e até ligeiramente desproporcional, algo contrastado pela pintura delicada das linhas finas que sobem da boca para os olhos do palhaço – algo que Skarsgård explora bem em suas múltiplas expressões, fazendo com que o desenho acompanhe os músculos de seu rosto para formar algo especialmente sinistro. Por falar nisso, é ainda mais grotesco o visual mais animalesco da criatura, que expande sua mandíbula de maneira similar aos vampiros de A Hora do Espanto (mais sobre essas referências nos próximos parágrafos) e desenvolve assustadores dentes pontiagudos.

O Legado de Elm Street

Então chegamos ao diretor Andrés Muschietti, assinando aqui como Andy. Mais um dos casos de diretores encontrados no YouTube, o argentino chamou a atenção de Guillermo Del Toro (que divide com James Wan o posto de “padrinhos do terror”) após o sucesso de seu apavorante curta Mama, que acabou sendo transformado em seu primeiro longa-metragem. Mas se o filme com Jessica Chastain era uma obra muito irregular e infeliz em suas escolhas de tom, Muschietti acerta a mão consideravelmente aqui; amadurecendo o domínio da linguagem e preservando as marcas estilísticas que funcionaram em Mama – ainda que o diretor tenha um certo vício em jump scares previsíveis.

Logo na primeira cena já percebemos a segurança e habilidade de Muschietti para construir atmosfera, com a chuva torrencial ecoando pelas janelas da casa da família de Bill e Georgie, com um belo exemplar do clássico medo do escuro em um porão. Quando o irmão mais jovem corre pelas ruas encharcadas com o barquinho de papel, a câmera é ágil e elegante, logo transformando-se em algo claustrofóbico e perturbador quando temos o encontro de Georgie com Pennywise – com a cabeça para fora de um esgoto. É uma cena inquietante, e a forma como Muschietti enquadra os dois contribui muito para isso, assim como a iluminação excepcional do diretor de fotografia sul-coreano Chung-hoon Chung (colaborador preferido de Chan-wook Park), que mantém apenas a parte de baixo do rosto do palhaço com luz, formando um belo desenho de sua pintura facial com as sombras que preenchem sua testa.

Tal construção acaba tendo um payoff inacreditável. Graças à mise en scène capciosa de Muschietti, somos levados a acreditar que esse encontro entre Georgie e Pennywise acabará de um jeito – especialmente pelo plano aberto que reforça o isolamento do menino enquanto tenta apanhar seu barquinho do estranho -, e subverte nossas expectativas ao deixar algo bem claro: este é um filme violento, com um tipo de gore que nunca apela para o exploitation, mas que choca pela crueza. Não só em relação aos ataques assombrosos do palhaço do título, mas também no retrato do bullying que os protagonistas sofrem, com uma cena em especial onde Ben é atacado pelo repulsivo Henry Bowers (Nicholas Hamilton), sendo espancado e até esfaqueado. De maneira similar, outra das sequências mais intensas do filme é quando Beverly é atacada por seu pai em casa, gerando uma tensão apavorante pelo mero contexto da situação – assim como a decisão de Muschietti de cortar a música e adotar uma câmera mais intensa.

Falei acima sobre o vício do diretor em jump scares, e isso é realmente um demérito que acaba causando uma má primeira impressão. Porém, passado o susto e a revelação da ameaça que Muschietti prepara, ele continua investindo na imagem; não é um susto e acabou, temos uma exploração de imagens grotescas e assustadoras por muito tempo, saindo da técnica Tubarão de esconder as cartas para um jogo mais aberto a lá O Exorcista; de forma como William Friedkin nos mantinha olhando para o rosto deformado de Linda Blair por muito tempo. Um exemplo crucial disso é quando Pennywise aparece todo contorcido dentro de um cofre, e a câmera mantém o foco ali enquanto o palhaço vai desconfortavelmente saindo e voltando à sua forma natural; em uma cena sinestésica graças ao marcante tema musical de Benjamin Wallfisch para o personagem, que consiste em um sinistro coral infantil.

Mas talvez a grande surpresa que tive com este filme foi a realização de outra de suas grandes influências. Como a criatura titular alimenta-se e ganha força através dos medos das crianças, tal como um grande bicho papão, temos diversas sequências onde a Coisa acaba assumindo diferentes formas e monstros para provocar um efeito maior em suas vítimas. Isso rende sequências inspiradas onde temos uma criatura que é basicamente uma colônia de doenças ambulante, na forma de um leproso interpretado por Javier Botet, uma mulher de um quadro surrealista que representa tudo o que Muschietti experimentou em Mama (especialmente o uso de stop motion nos movimentos de uma figura alta e magricela) e até uma sala repleta de palhaços de madeira e porcelana. Mas foi quando Beverly sofreu um ataque de fios grossos e compridos de cabelos saindo de sua pia que eu senti uma alegria perturbada: em sua estética que mistura perfeitamente efeitos práticos com CGI, estava diante de uma cena digna da franquia A Hora do Pesadelo, com as maravilhosas e inventivas mortes que Freddy Krueger bolava em seus pesadelos – não por acaso, um dos pôsteres exibidos em um cinema de Derry é justamente o de A Hora do Pesadelo 5 – O Maior Horror de Freddy.

É maravilhosa a sensação de se assistir a um filme de gênero tão eficiente. Esta nova versão de It: A Coisa não só é infinitamente superior à adaptação de 1990, como também merece destaque como um dos melhores longas de terror dos últimos tempos, capturando os elementos mais tradicionais de uma escola oitentista com elementos modernos e eficientes. Uma aventura sombria que emociona e envolve, resultando em um dos melhores filmes de 2017.

Que a Parte 2 não demore 27 anos.

It: A Coisa (It, EUA – 2017)

Direção: Andy Muschietti
Roteiro: Cary Fukunaga, Chase Palmer e Gary Dauberman, baseado na obra de Stephen King
Elenco: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Finn Wolfhard, Sophia Lilis, Wyatt Oleff, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Nicholas Hamilton, Owen Teague, Jackson Robert Scott
Gênero: Terror
Duração: 135 min

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