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A complexidade da manutenção ou cancelamento das séries dentro da indústria norte-americana é algo que ainda choca grande parte do público mundial – e isso não foi nem um pouco diferente com o anúncio do triste término de Sense8, uma das séries originais Netflix mais adoradas de todos os tempos que conquistou fãs em um alcance inenarrável, além de trazer o suprassumo da representatividade social para as telinhas. Entretanto, mesmo todo esse escopo aplaudível não salvou o show de cair nas ruínas do cancelamento por falta de audiência em seu país de origem, causando uma comoção generalizada que ainda permitiu aos produtores abrir espaço para um último episódio que tentasse fechar as pontas soltas, reunir todos os personagens pelos quais nos apaixonamos e entregar-se a um último adeus.

Lana Wachowski e J. Michael Straczynski, unindo-se novamente para retornar ao universo sensate, mergulharam ao máximo em uma mitologia muito mais profunda e que desse o apreço e o protagonismo merecido para cada uma das icônicas figuras que inclusive fizeram uma breve visita ao Brasil durante a parada LGBT+ do ano passado. O longuíssimo episódio de duas horas e meia começa logo após o término da temporada passada, com um sequelado Wolfgang (Max Riemelt) nas mãos da organização BPO, sofrendo com memórias amalgamadas de sua mãe/irmã e de seu abusivo pai, bem como o rumo totalmente inesperado e mortal que sua vida tomou. Lana, juntamente a Lilly (que se afastou do projeto em questão por motivos maiores), sempre teve uma cabeça irreverente quanto ao tratamento narrativo que forneceu às suas histórias – e aqui as coisas não poderiam ser diferentes.

A estética vista em filmes como Matrix e V de Vingança retorna de um modo explicitamente repaginado, principalmente quando pensamos em uma montagem vanguardista que preza muito mais pelo dinamismo cênico que pela constância cronológica. Em diversos momentos, é insano o modo como os espaços construídos acabam por fundir-se em uma composição muito rápida e brusca, podendo até deixar certa parte do público desconfortável ou perdida – tudo bem, é compreensível que optar por estilizar tais sequências desse modo é um recurso para transformar a atmosfera de drama em uma exponencial tensão psicológica que normalmente culmina em ápices ou viradas no roteiro. Não é nenhuma surpresa que, enquanto Wolfgang sofre nas mãos dos inimigos, os outro sensates formulam planos para resgatá-lo, entregar-lhes o cruel Whispers (Terrence Mann) e destruir a organização.

Sem dúvida alguma os holofotes principais conseguem se equilibrar em grande parte entre as personas, apesar de focarem mais em certas subtramas que obrigatoriamente precisariam de um desfecho satisfatório o suficiente para um wrap-up. Nomi (Jamie Clayton) e Will (Brian J. Smith) unem forças para extrair o máximo de informações de Jonas (Naveen Andrews), enquanto mantém os dois reféns dopados com bloqueadores para impedir a comunicação com outros de sua raça. A combinação entre inteligência e força, drama e ação – e dualidades da mesma extensão – sempre entrou como ponto positivo para a continuidade palpável do arco principal. Entretanto, ao contrário dos episódios anteriores que possuíam um tempo maior para explorarem, os 158 minutos devem ser preenchidos com o máximo de resoluções e acontecimentos competentes sem cair nos deslizes da supersaturação.

Mantendo-se nesta mesma linha, Sense8 não se restringe ao preocupar-se com o que a torna uma série tão especial: a humanidade. A existência de um sensate, apesar de respaldado com inúmeras teorias científicas e experimentos biológicos que vão além de uma simples investida fantástica, também é uma incrível metáfora para a aceitação e a empatia; compreender o papel e a complexidade do outro é justamente o ponto em comum entre cada uma das tramas, das viradas e dos clímaces – e tal simbologia não seria melhor explorada a não ser pelas competentes mãos criativas das Wachowski. Essa empatia estende-se até mesmo no complicado triângulo amoroso entre Kala (Tina Desai), Wolfgang e Rajan (Purab Kohli), que não toma um viés cômico, mas sim dramático e quase trágico que extrai dos atores performances emocionantes.

Apesar da preocupação muito maior com o roteiro, que fica a encargo tanto de Wachowski quanto do duo Alexander Hemon e David Mitchell e prevê inúmeros furos existentes nas temporadas anteriores – incluindo a diferença de fuso horário entre as oito localidades da série -, este series finale tangencia a perfeição estética de modo tão forçado que acaba cedendo aos próprios floreios. Como forma de tentar gerenciar inúmeros gêneros narrativos, a showrunner opta por esforçar-se ainda mais em soberbas cenas de ação que, depois de certo tempo – também devido à desnecessária longevidade da iteração em si -, tudo é previsível. A finalização de Whispers, da BPO e de outros antagonistas também recorre a convencionalismos deus ex machina, nos deixando a esperar por algo que eventualmente não acontecerá.

A premissa principal é que o amor e a compaixão são as armas necessárias para buscar e conseguir uma concretização da mudança. Não é à toa que Lito (Miguel Ángel Silvestre) e Hernando (Alfonso Herrera) sejam as melhores representações de que a intolerância e o preconceito não são fortes o suficiente para impedir que os dois se amem e anunciem uma relação com química inigualável para as telinhas. Nomi e Amanita (Freema Agyeman) também encontram um final feliz merecido, consumando um casamento que traz até mesmo os transfóbicos pais da personagem de Clayton para o topo da Torre Eiffel. O espetáculo ao qual somos apresentados, porém, não é o bastante para ofuscar essa ideia fofa e cheesy, contrariando a originalidade da série e optando por saídas formulaicas e clichês que nos deixam certos desapontados.

Sense8 fará falta. Por inúmeras razões. E ainda que pudesse ter elevado ainda mais todo o brilho de sua configuração, este series finale arrancou e ainda arrancará lágrimas das dezenas de milhares de fãs que encontraram uma guinada para serem quem realmente são sem se render a um mundo de essência opressora e conservadora.

Sense8 – Series Finale: Amor Vincit Omnia (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Lana Wachowski, Lilly Wachowski, J. Michael Straczynski
Direção: Lana Wachowski
Roteiro: Lana Wachowski, Alexander Hemon, David Mitchell
Elenco: Doona Bae, Jamie Clayton, Tina Desai, Tuppence Middleton, Toby Onwumere, Max Riemelt, Miguel Ángel Silvestre, Brian J. Smith, Freema Agyeman, Terrence Mann, Naveen Andrews, Daryl Hannah, Alfonso Herrera, Eréndira Ibarra, Purab Kohli
Emissora: Netflix
Gênero: Fantasia, Drama, Ficção
Duração: 158 min.

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