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Remakes são perigosos. Por inúmeros motivos. Por exemplo, quando alguma mente brilhante da grande indústria cinematográfica hollywoodiana resolve criar uma releitura de um clássico, é quase inegável admitir que ele colocará sua própria perspectiva, ou até mesmo realizar alguns “ajustes” consideráveis e justificáveis para torná-lo mais contemporâneo. No final das contas, o produto que nos é entregue se assemelha mais a um simulacro, a uma concha vazio, que uma necessidade para o mundo do entretenimento, perdendo a essência do original e transformando-se em mais uma obra descartável. E é de forma muito assustadora que o remake de Sexta-Feira Muito Louca, lançado em 2003, não apenas funcionou em quase todas as suas instâncias, mas em várias delas mostrou-se superior ao original de 1976.

Mark Waters não havia feito muito em seus poucos anos como cineasta – seu único filme relembrado pelas razões erradas, Cinco Evas e um Adão, na verdade tornou-se um fracasso de crítica e de público e colocou em xeque seu promissor nome na indústria. Qual foi a surpresa quando resolveu readaptar a obra de Mary Rodgers para as telonas, talvez simplesmente porque o livro caiu em suas mãos, ou talvez porque o longe protagonizado por Jodie Foster envelhecera de modo ruim. De qualquer modo, ele conseguiu “se salvar”, por assim dizer, e parece ter pensado em cada uma das peças desse quebra-cabeça audiovisual para criar mágica – e tal mágica se deve principalmente aos nomes que fazem parte da narrativa.

A trama principal gira em torno de duas personalidades ao mesmo tempo contraditórias e fortes: Tess Coleman (Jamie Lee Curtis mergulhando no mundo da comédia), uma autora, psicóloga e empreendedora dona de um império inegável, e sua filha Anna (Lindsay Lohan, a queridinha do Walt Disney Studios), uma adolescente do ensino médio que se preocupa com sua individualidade e sua banda de rock. Apenas passando os olhos por essa premissa, é quase automático pensar no que acontece: tais protagonistas lutam pela sua voz e por um entendimento que na verdade nunca vai existir, visto que a perspectiva de cada uma delas é a correta, e a outra é a errada. Logo no começo do primeiro ato, vemos a pró-atividade da matriarca em gerenciar sua casa, seu iminente casamento com o galã Ryan (Mark Harmon) e sua carreira de grande sucesso; tudo isso se contrapõe com a preguiça e a rebeldia de Anna, as quais passam por inúmeros altos e baixos até que chegamos no famigerado ápice.

Tess e Anna possuem uma relação quase opressora, seja de um lado, seja de outro. A adolescente não compreende que a mãe tem o direito de ser feliz e de seguir em frente mesmo com a morte acidental do ex-marido, e esta, por sua vez, não compreende a necessidade de autoexpressão da filha e de encontrar lugar no perigoso mundo do colégio. Todas essas discussões ficam mais acaloradas dentro de um restaurante oriental de suma importância para o desenrolar dos eventos – incluindo uma mística transição de corpos que vem como forma de ajudá-las.

Sim, é isso mesmo: com a chegada do segundo ato, Tess e Anna trocam de corpo e se veem no dilema de como reverter uma situação que, até o dia anterior, seria impossível. E com a chegada do matrimônio e da apresentação de bandas, é quase ridículo pensar que elas têm menos de 48 horas para entender o que aconteceu e consertar a situação – sem perceber, a priori, que a resposta está mais perto do que imaginam. Visto que os problemas ganharam uma força inenarrável a partir desse confronto de personalidades, elas devem compartilhar de uma empatia necessária, compreendendo o outro lado e alcançando uma evolução que ambas não partilhavam.

O filme eventualmente poderia cair nos problemas do original e pender excessivamente ao drama; entretanto, Waters, em conjunto com a roteirista Heather Hach, seguiram em uma fórmula muito acessível às construções do blockbusters hollywoodianos que busca equilibras os inúmeros gêneros, iniciando com uma comédia pura até fundir-se com o drama e suas vertentes – incluindo o coming-of-age. Os antagonistas existentes não são vilões personificados, por assim dizer, mas sim encarar uma nova perspectiva e saber lidar com os problemas e dificuldades pelos quais cada uma passa: Anna, por exemplo, no corpo de sua mãe, deve lidar com uma corrida vida profissional que lhe consome, enquanto Tess percebe o quão incompreendida o cotidiano da filha é.

Talvez um dos grandes pontos positivos da obra tenha sido repaginar saídas convencionais já usadas em uma modernização muito bem-vinda e que é reforçada até mesmo pelos personagens coadjuvantes. Todos os acontecimentos também são reafirmados pela fotografia muito bem-pensada por Oliver Wood, que se preocupa em criar dois cosmos diferentes para as protagonistas e depois uni-los em uma amálgama coesa e coerente com o arco de redenção e de arrepedimento de cada uma  delas.

Sexta-Feira Muito Louca, como já dito, foi uma surpresa; ainda que sempre fiquemos com um pé atrás em relação a remakes, essa investida mostrou que não podemos julgar um filme pela história que resolve apresentar, mas sim como a apresenta e de que modo ela se mostra necessária para um novo público – e até mesmo para uma nova perspectiva narrativa.

Sexta-Feira Muito Louca (Freaky Friday, EUA – 2003)

Direção: Mark Waters
Roteiro: Heather Hach, Leslie Dixon, baseado no romance homônimo de Mary Rodgers
Elenco: Jamie Lee Curtis, Lindsay Lohan, Mark Harmon, Harold Gould, Chad Michael Murray, Stephen Tobolowsky, Christina Vidal, Ryan Malgarini
Gênero: Comédia
Duração: 97 minutos

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