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Gillian Flynn representa um dos nomes de grande potência da literatura dramática contemporânea, principalmente por suas investidas intimistas e perscrutadas por um suspense psicológico de tirar o fôlego. E caso seu nome não fosse muito conhecido por entre seus conterrâneos ou até mesmo por um público apaixonado por narrativas deste tipo, ela foi imortalizada em 2014 quando sua obra-prima, Garota Exemplar, ganhou uma versão para os cinemas pelas mãos do gênio David Fincher, emergindo como um dos melhores longas-metragens do ano e um dos melhores projetos da carreira do cineasta por conseguir captar cada uma das múltiplas camadas de complexidade do cosmos criado por Flynn. A partir daí, mergulhar em seus outros romances era um escolha quase certa – apesar do infortúnio no qual Lugares Escuros caiu no ano seguinte.

De qualquer modo, o anúncio da adaptação de Objetos Cortantes veio com um fervor considerável por parte do público. Afinal, uma emissora tão grande e respeitada quanto a HBO não erraria propositalmente ao adotar um projeto com este porte – e chamando novamente para seu time o diretor Jean-Marc Vallée, que retornava da onda de premiações com a incrível minissérie Big Little Lies, o sucesso estava mais do que garantido. Entretanto, nem tudo são flores, e os dois primeiros capítulos desta nova investida televisiva podem até ter um potencial a ser explorado, mas que falhou em manter a audiência envolvida o suficiente para continuar acompanhando a jornada de Camille Preaker.

Amy Adams encarna a protagonista, uma flagelada mulher de pouco mais de trinta anos de idade que luta com os fantasmas do seu passado ao ser obrigada a viajar à inóspita comunidade de Wind Gap, localizado no interior do Missouri. O chefe do jornal St. Louis Chronicle, para o qual trabalha, a envia em uma missão importante: cobrir o assassinato e o desaparecimento de duas garotas, dando a importância midiática que tais acontecimentos merecem e abrindo espaço para que Camille consiga seu big break e cresça na empresa. Adams faz um incrível trabalho que transforma cada nuance de sua personalidade em uma proposital inexpressividade contínua, como se ela fosse movida pela inércia ao invés de uma força de vontade nata – aliás, desde os primeiros minutos, percebemos os obstáculos pelos quais ela passa diariamente apenas para sair da cama.

Camille sente-se com a privacidade invadida por um simples motivo: ser obrigada a se reencontrar com a mãe, o padrasto e a meia-irmã, com a qual nunca sequer conheceu após ter se mudado para a cidade grande. Adora (Patricia Clarkson), a matriarca da família, a recebe com um misto de receio e culpa, ao mesmo tempo em que começa a criticar a filha pelo rumo que tomou e tenta mantê-la por perto. O mesmo tipo de relação se delineia entre ela e a filha mais nova, Amma (Eliza Scanlen): a mãe não perde uma oportunidade de rechaçar qualquer uma das ações que fujam do normal e que mostram que elas estão crescendo – não é à toa que a irreverência e a rebeldia sejam retratadas de modo tão constante durante os episódios.

Entre personalidades conflitantes e atmosferas tensas, insurge a figura de Vallée como diretor das primeiras iterações. Àqueles acostumados com sua estética nem um pouco convencional (já vista em Big Little Lies, por exemplo), a presença da câmera na mão e dos enquadramentos não fixos se aliam à montagem quase cubista da narrativa, que mantém um vínculo anacrônico entre as múltiplas sequências envolvendo os protagonistas à medida em que tenta dinamizar o ritmo. Entretanto, diferente da outra minisséries da emissora, esta não possui um elementos principal que permite tais construções cênicas: as subtramas.

Diferente do que esperaríamos, o roteiro assinado tanto por Flynn quanto pelo showrunner Marti Noxon, ao menos dos dois capítulos aos quais somos apresentados, foca única e inteiramente na presença da personagem de Adams. Os ângulos distorcidos e os enquadramentos fechados parecem impedir de modo intencional qualquer possibilidade de expansão narrativa, isso sem dizer que a história parece ser contada em primeira pessoa mesmo sem a existência de um voz-over claro. Camille está em primeiro plano a todo momento, o que, ao invés de corroborar para a criação de laços primários entre personagem e público, nos afasta devido a uma monotonia crescente que é quebrada bruscamente com alguns parcos brilhos no final do túnel e pontuais viradas que nos fazem retornar a um repentino interesse de continuar acompanhando a história.

Vallée vale-se muito da paleta de cores para arquitetar a atmosfera que deseja, e não podemos tirar mérito de suas habilidades estilísticas que permitem saltos no tempo bem estruturados e ciclos atemporais que oscilam entre o presente e o passado – não é à toa que, seguindo o padrão visto anteriormente, o final de uma sequência dialoga com o início de outra em um diferente espaço-tempo, tentando manter uma continuidade orgânica entre eventos independentes ou longínquos. Mais uma vez, o diretor vale-se tanto desses artifícios que a narrativa passa a andar em círculos, deixando a desejar e perdendo a essência angustiante para dar lugar a um desnecessário ciclo sem fim. E também não é surpresa que as atuações de Adams e Clarkson, apesar de uma sutil química, sejam ofuscadas por esses equívocos.

A história ganha certo impulso quando volta para suas origens detetivescas, delineando momentos de puro terror; aliados a uma explicitação obrigatória que pode chocar grande parte dos telespectadores, tanto o final do piloto Vanish quanto de sua continuação Dirt prezam por pontuais construções cênicas que nos recordam do que enfrentamos: uma jornalista mergulhando em uma obscura parte de sua terra natal ao perceber que a inocência que lhe fora roubada quando criança – no caso, quando tiraram-lhe a irmã mais nova – também estava sendo arrancada de meninas inocentes que padeciam perante os horrores que se escondem por aí. Camille não confia em ninguém – e também, como poderia? Nem mesmo o detetive Richard Willis (Chris Messina em uma constância blasé admiravelmente risível), chefe das investigações locais, consegue lhe proporcionar o mínimo de conforto em meio a tantas barbaridades.

Sharp Objects tem um bruto potencial que, em dois episódios, melhorou em uma porcentagem muito pequena. Talvez o que falte aqui seja um cozimento melhor da história, a adição de subtramas necessárias para a manutenção de ritmo, e até mesmo uma crença de toda a expansividade que carrega. Não posso dizer que estou animado para o que venha a seguir – mas ideias podem ser mudadas, e estou rezando para que isso aconteça.

Sharp Objects – 01×01: Vanish / 01×02: Dirt (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Marti Noxon
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Gillian Flynn, Marti Noxon, baseado na obra de Gillian Flynn
Elenco: Amy Adams, Patricia Clarkson, Chris Messina, Elizabeth Perkins, Eliza Scanlen, D.B. Sweeney, Sophia Lillis, Taylor John Smith
Emissora: HBO
Gênero: Drama, Suspense
Duração: 55 minutos aprox.

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