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Ao leitor, façamos um exercício. Imaginemos, juntos, um homem com cabelos bagunçados, óculos escuros, amante de poetas malditos – como os simbolistas franceses ou os beatniks americanos –, um gosto descomedido por entorpecentes, uma câmera fotográfica nas mãos e um nome que exale rock’n’roll, algo banal como Mick Rock. O arquétipo não seria perfeitamente cabível para um fotógrafo, digamos, de ensaios com músicos, capas de álbuns e shows? O homem com uma câmera, presente em muitas confraternizações do meio musical e registrando-as com um olhar apurado, existe e é tudo o que foi descrito, ou, “apenas”, “o homem que fotografou os anos 70”.

O objeto de retrato nesse documentário é Michael David Rock (sim, esse é seu conveniente nome real), que foi amigo – e fotógrafo – pessoal de astros como David Bowie, Lou Reed, Iggy Pop, Debbie Harry e muitos outros músicos transgressores de 1970 e adiante. Mick, assim como muitos de seus amigos, teve um problemático envolvimento com drogas e esse recorte ganha atenção no longa. O espectador é logo apresentado a um jovem numa maca sendo levado às pressas para o hospital. A cama é colocada numa sala ampla, vazia e escura. Apenas uma luz acima, quase divina, ilumina o garoto de cabeleira desgrenhada ligado a tubos que o mantém vivo. O verdadeiro Mick Rock observa seu eu passado e confessa o momento em que atingiu o fundo do poço.

Em “Shot! O Mantra Psico-Espiritual Do Rock” (2016, EUA), dirigido e roteirizado pelo inexperiente – ao menos no cinema – britânico Barney Clay, o foco é, principalmente, na década de maior prestígio da carreira do fotógrafo que zomba de ser um estereótipo. Em entrevista à revista CULT, quando uma exposição sua foi trazida ao MIS (Museu da Imagem e Som de São Paulo) em 2014, Rock conta que pegou pela primeira vez numa câmera na época da universidade, em 1968, enquanto viajava de LSD com um amigo.

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Capa do álbum “The Madcap Laughs”, de Syd Barret

Nesse mesmo período conheceu Syd Barrett, um dos membros-fundadores do Pink Floyd, logo depois que havia deixado a banda. Syd precisava de alguém para fotografar a capa de seu vindouro álbum solo – lançado posteriormente em 1970 –, “The Madcap Laughs”. “E com um nome como Mick Rock, de algum jeito pareceu natural e que eu estaria predestinado a trabalhar principalmente com músicos! Não pude lutar contra isso!”, debocha o artista.

Para um documentário de alguém que clicou algumas das imagens mais icônicas de um período tão pautado nas aparências para artistas musicais como o Glam – cujo meio Mick diz que se identificava, diferente do punk –, não poderia faltar uma bela estética. Parte dela inclui uma trilha sonora com o melhor da década de 70, inserts em animação 3D para representar as viagens lisérgicas da cabeça do protagonista e muitas fotos do acervo pessoal de Mick.

A cinematografia de Max Goldman garante um visual escuro, elegante e misterioso. O rosto de Rock é filmado na contra luz, alimentando ainda mais as lendas que giram em torno dele que, conforme conta, era convidado para todo o tipo de orgia e festas em Nova Iorque durante os seventies. Ao mesmo tempo, ele não se poupa de confissões, nem foge de seus demônios. Com franqueza, conta do seu nocivo vício em cocaína e como não podia ser confiado em determinado ponto de sua carreira. Conforme o filme avança, o jovem Michael luta para sobreviver no leito hospitalar, enquanto o presente, paradoxalmente, lamenta e celebra suas imprudências passadas.

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David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed em Londres, 1972. Foto de Mick Rock/Reprodução site oficial

Shot!”, que ainda não foi lançado internacionalmente, vem quase que com exclusividade para a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – esteve apenas em alguns outros festivais –, onde compete na seção de Novos Diretores. O documentário tem um grande cuidado com sua sofisticada estética, assim como em retratar Mick Rock com respeito e de forma enigmática. É, no final das contas, uma das melhores pedidas para os amantes de couro, cromo, lissergia e Glam, ou, apenas o bom e velho rock’n’roll.

Escrito por Rodrigo de Assis

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