» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Existem projetos e projetos no ramo cinematográfico. Porém, há distinções na intenção de suas realizações. A primeira e mais comum é a necessidade do estúdio gerar lucro com um blockbuster eficiente como boa parte das produções da Disney. Essas movem o mercado e geram a renda para os projetos secundários que quase nunca revertem lucro após realizados. São os chamados filmes de “Oscar” que subdivisões dos estúdios trabalham para agregar premiações em diversos festivais e prestígio, além de ser um excelente chamariz para novos talentos que, em algum momento, participarão dos projetos blockbusters tão carentes de nomes relevantes atualmente.

Entretanto, nesse mercado maluco, existe uma terceira natureza de projeto. Essa que quase sempre é oito ou oitenta: ou traz desgraça ou traz glória. Se tratam dos filmes mais pessoais do realizador. Aqueles que demoram uma vida inteira para produzir exorcizando seus demônios em forma de arte. A Chegada é assim para Eric Heisserer, Portal do Paraíso foi assim para Michael Cimino, O Comboio do Medo é assim para William Friedkin.

Silêncio é assim para Martin Scorsese, marcando a sua segunda obra máxima sobre religião e espiritualidade – A Última Tentação de Cristo foi a primeira.

Eu Rezo, Mas Estou Perdido

O livro de Shosaku Endô é uma das obras máximas da literatura mundial. E mesmo assim, é desconhecida por muitos. A adaptação escrita por Scorsese e Jay Cocks felizmente pode tirar Silêncio do silêncio.

Acompanhamos a jornada suicida de uma dupla de padres, Rodrigues e Garupe, em busca de seu antigo mentor, padre Ferreira, que estava em campanha de catequese durante o xogunato Tokugawa em seu pior momento: pós-rebelião Shimabara, uma revolta social que resultou na perseguição e execução de diversos recém-cristãos devotos e padres imigrantes residentes em Nagasaki. A partir de uma carta há anos enviada para a Ordem Jesuíta, Ferreira avisa que está perdendo suas forças e relata os horrores que viu, indicando que seu futuro pode ser tenebroso. Com o destino tão incerto quanto, Rodrigues e Garupe partem ao Japão.

Para entender Silêncio, é preciso compreender a importância que a religiosidade recebe em diversos filmes de Scorsese, descendente de italianos e profundamente católico. Aqui, a abordagem é bastante diferenciada e, apesar de ser uma narrativa linear e de fácil compreensão geral, a escrita do filme é extremamente densa e corajosa – lembre-se, não se trata de um filme ordinário de indústria.

O alicerce de Silêncio está nos grandes monólogos praticados em diversas narrações over do padre Sebastião Rodrigues, o protagonista do qual acompanhamos integralmente seu ponto de vista. Logo, o filme se estrutura em dois pontos-chave: trabalho e sacrifício.

O primeiro é concentrado na chegada dos padres ao Japão tendo imediato contato com um vilarejo católico perdido e cheio de fiéis amedrontados. Já é partir desse momento que temos conflitos genuínos sobre fé, prática e do medo da perseguição religiosa. Cenas singelas que mostram os miseráveis camponeses reunindo o pouco de comida para os padres que se esquecem de rezar antes de comer dada as circunstâncias da viagem e de uma realidade completamente oposta a que viviam anteriormente.

É a partir da dor e sacrifício que passam a entender o verdadeiro significado do amor ao próximo e da fé. Logo, Scorsese trabalha certa desconstrução do passado desses personagens que nunca provaram o verdadeiro pão que o diabo amassou. As condições para a catequese são mais que adversas e os roteiristas elaboram fielmente uma rotina completamente paranoica para incutir o medo que os fiéis sentem também nos protagonistas. É algo sublime que funciona apenas com a encenação muito bem aplicada de Scorsese.

Silêncio é um filme de poucos diálogos, mas mesmo assim é fácil denotar o desenvolvimento dos outros personagens que não se confessam para o espectador – apenas o protagonista tem o direito da narração over que relata as memórias. Rapidamente, Garupe passa a questionar sua fé por conta de sua rotina miserável. Esses diálogos entre os dois tendem a ser repetitivos e, de certa forma, demonstram o quão estranhamente trabalhado é o coadjuvante.

Garupe serve como o contraponto da fé inquestionável de Rodrigues e contribui para começar a desenvolver os conflitos internos do protagonista. Então, decerto, Garupe é o coadjuvante perfeito, porém é uma pena que os roteiristas invistam tão pouco a ponto do padre ser uma figura completamente pálida ante aos outros coadjuvantes japoneses, católicos e perseguidores. Logo, de algum modo, Garupe é um dos elos mais fracos do filme, apesar da performance muito humana de Adam Driver que apresenta um misto de emoções entre amor e ódio. É perceptível que a dúvida sobre a divindade e a fé é muito mais presente em Garupe que se torna rico e interessante graças ao ator.

O roteiro é bem trabalhado a ponto de contar com um clímax perturbador para esse primeiro segmento. E é a partir desse momento que Rodrigues começa a crescer significativamente como protagonista, pois o pouco conforto que lhe restava é completamente destruído. Aqui, o personagem suplica para Deus por providência e é justamente nisso que o roteiro de Scorsese passa de ótimo para genial.

A Fé Esmagada

Após o protagonista sofrer o primeiro abalo e compreender o quão horrível é o sacrifício e a perseguição religiosa no Japão, Scorsese passa a trabalhar com a ironia e a crueldade. Rodrigues passa a ser um homem quebrado, no limite da loucura, implorando por sinais ou milagres.

Nesses momentos – alguns belíssimos como o qual Rodrigues enxerga o reflexo de Cristo em uma poça de água, rapidamente algo de muito ruim acontece com ele ou com a pessoa que ele tenta salvar através de suas orações que nunca encontram respostas. A graça justamente se encontra no contraste imediato, mas não somente este: e sim como as duas partes são bastante opostas.

Enquanto a chegada dos padres oferece uma libertação aos cristãos convertidos, possibilidade de redenção, remissão dos pecados, resgate de dignidade, coragem de viver e direito a existência, o segundo ato praticamente esmaga tudo o que representava Rodrigues e sua fé.

Nisso, a narração over passa a ter um caráter muito interessante: torna-se confissões de Rodrigues para o espectador. Sempre colocando em dúvida sua função, do silêncio divino, de seu propósito e da razão de tanta violência. O embate trava-se rapidamente após a captura e cárcere de Rodrigues pela inquisição budista japonesa – há aqui um bom parelho com a história entre Jesus e Judas.

Os diálogos entre as duas partes discutem incessantemente sobre a fé tentando forçar Rodrigues a se tornar um apostata – alguém que renega sua religião, ao pisar em um símbolo sagrado. E, por incrível que possa parecer, Silêncio sustenta firmemente seus longos minutos restantes apenas com esse ótimo conflito.

A redundância e a violência das torturas físicas e psicológicas das quais Rodrigues passa, faz parte do discurso que Scorsese quer construir: sobre o amor ao próximo e o amor a Deus acima de todas as coisas. São várias as situações que os japoneses criam para tentar quebrar o espírito do padre tornando todo o enorme dilema de Rodrigues algo verdadeiramente único nessa obra. É absolutamente intrigante e poderoso.

O que também ajuda a sustentar toda essa segunda metade até o clímax é o relacionamento de Rodrigues com o problemático guia Kichijiro, provavelmente o personagem mais rico de todo o filme. Seria uma pena abordar a natureza de seu conflito, mas é bastante sombrio pelos erros do passado que também envolviam a perseguição da inquisição. A relação entre os dois é rica justamente por elas se espelharem tão perfeitamente: o dilema do passado traumático de Kichijiro é o mesmo que Rodrigues enfrentará até o fim da narrativa, e como as escolhas tomadas pelos dois homens tem uma profunda diferença de índole e natureza.

É algo verdadeiramente excepcional. Outro grande personagem é o grande inquisidor Inoue pela assombrosa atuação de Issei Ogata. Scorsese acerta em cheio com a figura contrastante entre o poder e a importância do personagem com a estatura diminuta e decrépita criada por Ogata, além da dicção frouxa, engraçada, para debochar a todo momento de Rodrigues.

É através do conflito de ideias entre o inquisidor com o Rodrigues que Scorsese consegue criar um dos melhores retratos sobre religião e cristianismo. A exposição sobre a crença budista é clara como água, assim como a motivação para a perseguição que os cristãos sofrem a todo momento.

Os Demônios de Scorsese

Não é raro alguém dizer que tal pessoa exorcizou seus demônios através de um feito. É exatamente isso que ocorre com Scorsese e sua direção em Silêncio, completamente esnobado por diversas premiações e festivais.

Como o roteiro é bastante singelo se movendo lentamente através da digestão completa de um conflito complexo, é preciso que Silêncio tenha um poderio visual formidável para completar as lacunas deixadas pela falta de diálogos ou por uma confissão mais simples do protagonista.  

Scorsese pavimenta sua encenação a partir do ponto de vista e estado emocional do personagem. A câmera é basicamente uma extensão do espírito de Rodrigues. Portanto, no começo, em Macau, durante o fervor da expectativa em reencontrar seu antigo mentor, a encenação é efervescente trazendo movimentos de câmera majestosos aliadas a muita movimentação de figurantes realizando diversas ações. É absolutamente cheio de vida.

Entretanto, no momento que os padres pisam no Japão, Scorsese muda completamente as regras do jogo que perduram até o final do filme. Os planos são um tanto mais afastados, apenas se aproximando em momentos extremamente íntimos para valorizar a expressão dos atores, a efervescência de outrora dá lugar ao silêncio de planos parados voltados para uma contemplação quase sagrada da natureza de todo o lugar – isso tem um propósito narrativo belo.

O poder visual não fica somente restrito apenas na contemplação. A belíssima fotografia de Rodrigo Prieto define com exatidão, através de suas cores ora mortas, ora vibrantes, todo o ambiente desolador, sujo e precário que os dois jesuítas vivem em primeiro momento. Esse contraste de exibir cores podres para retratar ações belas se inverte no segundo segmento repleto de cores vivas, vibrantes, com ambientes totalmente iluminados para ilustrar ações perversas e cruéis.

Nisso, a ironia maior do filme inteiro se fortifica: se Deus existe, por que Ele dá conforto, condições e bonança para o meu inimigo quando nós fiéis provamos do pior que o homem pode infligir ao outro? O uso constante de neblinas não permitindo ver um palmo a frente dos personagens também colabora para o constante estado de dúvida dos dois jesuítas. Apesar de praticar o cristianismo naquele momento, sua fé não está fortificada.

Com a imagem conseguindo suprir muito bem ao nutrir o texto, temos então o tão falado silêncio, peça primordial deste filme. Scorsese procura trabalhar o silêncio de muitas formas figurativas e literais. Temos o silêncio provocado pelo medo, luto, culpa, tristeza, depressão, pesar. Temos o silêncio do sagrado, da gratidão, do alívio, da remissão dos pecados, da reflexão religiosa e da própria oração. E, enfim, há o silêncio de Deus em não atender aos pedidos incessantes de Rodrigues pela libertação dos cristãos japoneses submetidos às torturas da inquisição – o protagonista é uma grande figura messiânica na obra.

Toda essa questão é resolvida de modo estarrecedor e belo, pois é completamente inesperada e nem vale entrar no mérito de analisa-la aqui, pois estragaria a fantástica experiência. Esse silêncio é trabalhado também pela trilha musical experimental do casal Kluge. A música em Silêncio funciona como uma ambiência trazendo sons de grilos, pássaros, do farfalhar das folhas ou das ondas quebrando nos corpos dos cristãos.

É algo genial que também elabora o discurso sobre questões e repostas, Scorsese cria, entre muitas súplicas, só é possível ouvir o barulho provocado pela ambiência que, no fim das contas, não é uma resposta satisfatória para o personagem ou para qualquer um. Trata-se de “silêncio”. Isso é, inclusive, explicado pelo roteiro agregando uma dimensão monstruosa para o trabalho dos músicos que, desse modo, colaboram diretamente para engrandecer a narrativa.

Estou Rezando para o Silêncio?

Através do poder de suas imagens espetaculares, profundamente carregadas de significado, do trabalho sonoro estupendo, do design de produção fidelíssimo e, principalmente, pelo trabalho incansável de seu elenco, Scorsese cria sua obra-prima religiosa.

Muito se deve também ao desempenho assombroso de Andrew Garfield – que deveria ter sido indicado por esse papel. A partir do momento que nos vemos envolvidos com a dor do personagem e de toda sua dúvida, é impossível ficar indiferente aos olhares de desespero e angústia que Garfield nos proporciona. É uma performance totalmente entregue ao personagem.

Porém, infelizmente, o filme me parece ser uma daquelas obras espetaculares que passará debaixo do nariz de muita gente – mesmo contando com o nome de um dos cineastas mais eficientes de sua geração e do cinema atual. O que é uma verdadeira pena. A história da busca dos padres Rodrigues e Garupe em encontrar não somente seu mentor, mas sim Deus, é uma das mais bonitas já adaptadas pelo Cinema.

Silêncio é a demonstração máxima entre os extremos mais opostos de uma pessoa, em especial, de um fiel: a intolerância brutal e o sacrifício em amor ao próximo. É o filme que melhor trabalha a religiosidade como um todo e deverá se manter assim por um bom tempo. Imprescindível.

Silêncio (Silence, EUA, Taiwan, México – 2016)
Direção: Martin Scorsese

Roteiro: Martin Scorsese, Jay Cocks, Shosaku Endo
Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Ciarán Hinds, Tadanobu Asano, Issei Ogata, Yoshi Oida, Yosuke Kubozuka, Nana Komatsu
Gênero: Drama religioso
Duração: 161 minutos.

Comente!