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Não existe nada como a Arte. Pessoalmente, acho que as mais diversas manifestações existentes – o Cinema e a Música, em especial – têm o poder de nos transportar da névoa cizenta de um problema ou situação difícil, nos levando para um local de conforto e paz, ou até mesmo pegar essa névoa cinzenta e transformá-la em uma obra reflexiva e que impacte outros ao redor, buscando uma forma de catarse e compreensão através do processo. Esse tipo de cenário já gerou e ainda gera diversas histórias no Cinema, e acho particularmente tocante acompanhar narrativas sobre jovens sonhadores perdidos na tristeza de seu cotidiano e como farão de tudo para encontrar a luz no fim do túnel com o auxílio da Arte. Com isso tudo considerado, não é surpresa que Sing Street: Música e Sonho tenha batido tão forte.

O filme é ambientado na Irlanda de 1985, período em que o país passava por uma terrível crise econômica que forçava uma expressiva emigração de seus habitantes para a Inglaterra, ao passo em que os que ficavam ali precisavam reajustar seu orçamento e se adaptar a uma vida mais apertada e difícil. É aí que conhecemos o jovem Conor (Ferdia Walsh-Peelo), que é transferido para um colégio católico e logo começa a sofrer com a adaptação, desde o bullying sem sentido até as normas rígidas da instituição. Instantaneamente apaixonado pela misteriosa Raphina (Lucy Boynton), uma garota que ele vê do outro lado da rua da escola, Conor então resolve iniciar uma banda com alguns colegas a fim de chamar sua atenção e convidá-la para estrelar seus videoclipes.

É um filme que segue de perto os passos das obras anteriores do diretor e roteirista John Carney, responsável por Apenas Uma Vez e Mesmo se Nada der Certo, dois filmes que também trazem a música como um fator decisivo da narrativa e um trabalho excepcional com o desenvolvimento de seus personagens. Sing Street soa mais pessoal e intimista, especialmente pelo fato do próprio Carney ser irlandês e encerrar o filme com uma dedicatória “a irmãos em toda parte”, tornando ainda mais emocionante as viradas da história. É uma narrativa simples e que se desenvolve de forma que vagamente nos remete a Escola de Rock, com a formação de uma banda improvisada e escondida das normas da escola, e até do subestimado Rebobine, Por Favor com a estética amadora dos primeiros videoclipes e os “cosplays” inspirados em diferentes estilos musicais. Curiosamente ambos estrelam Jack Black, mas Sing Street se diferencia pelo ritmo mais desacelarado e o olhar intimista em seus personagens.

E Conor é nosso principal parceiro nessa jornada, e confesso-me impressionado com as surpresas que o personagem tem sob a manga. Vivido com carisma e expressividade pelo ótimo Ferdia Walsh-Peelo, Conor surge nos minutos iniciais como o batido estereótipo do nerd tímido e quieto, mas ao longo da narrativa vai revelando uma coragem e ousadia notáveis (como ao tomar iniciativa para conversar com Raphina e inventar a ideia da banda) até seu talento incrível de cantar com uma força e intensidade que seu andar calmo e voz atrapalhada não nos permitiriam desconfiar. A maneira com que Carney lida com o romance entre Conor e Raphina também é interessante, com a ultra idealização da garota – sempre fortemente maquiada, elevada a alguns degraus de escada acima do protagonista – sendo lentamente convertida para um retrato mais realista e que expõe sutilmente os traumas da personagem, e a performance de Lucy Boynton é eficiente em revelar essas camadas ocultas.

Porém, o grande trunfo emocional do filme fica na relação entre Conor e seu irmão, Brendan. Vivido por Jack Reynor com uma energia vibrante e cuja postura de mentor sugere o irmão mais velho que todos queríamos ter, vemos ali exemplos de real camaradagem e ajuda, visto que Conor sempre recorre a Brendan para conselhos e opiniões, e este sempre termina com a recomendação de algum álbum ou disco – o que influencia também o estilo das roupas e penteados de Conor de maneira divertida. Além disso, o núcleo fica mais envolvente graças ao excelente roteiro de Carney e a performance estelar de Reynor, quando percebemos a frustração do personagem em ver seu irmão mais novo tentando seguir pelo caminho que este (Brendan desistiu da faculdade para se aventurar na carreira musical, sem sucesso) e se sair melhor do que ele. A conclusão dessa trama garante a catarse mais poderosa do filme, e um dos mais belos momentos que o cinema proporcionou em 2016.

O único real demérito na prosa de Sing Street é que o filme acaba deixando algumas pontas soltas para trás, especialmente em relação ao divórcio dos pais de Conor, cujas consequências não chegamos a ver por completo. Também poderia ser mais envolvente ter um pouco mais de conhecimento sobre os demais membros da banda, já que só conhecemos de fato Conor, o “empresário” Darren (Ben Carolan) e o guitarrista/compositor Eamon (o excelente Mark McKenna), que rende alguns dos mais divertidos e inspiradores momentos do filme quando o vemos escrevendo canções com Conor. A irmã de Conor e Brendan, vivida por Kelly Thornton, também acaba um pouco de escanteio na história – que acaba centrando mais nos dois irmãos -, mas ao menos ela faz parte de uma linda cena onde os três dançam ao som da coleção de discos de Brendan a fim de abafar a discussão dos pais em outro cômodo.

Carney mantém o roteiro em primeiro lugar, mas também começa a mostrar uma notável evolução em sua técnica, especialmente saído do simplíssimo Mesmo Se Nada der Certo, como a já comentada mise em scène de valorização e pedestal de Raphina nos degrais, sendo inteligente ver como isso vai se alternando através de momentos como o mergulho da personagem em um rio (onde Conor imediatamente a segue, ficando finalmente em seu nível) e até quando o protagonista se decepciona com alguma de suas ações, enfim posicionando a câmera de forma a deixá-lo mais alto do que Raphina. Seu estilo também se manifesta em elipses criativas, como a panorâmica que traz Conor e Eamon compondo uma música, apenas para o movimento então virar-se e revelar toda a banda executando dita canção.

Em quesitos técnicos, vale destacar como Carney e sua equipe recriaram os anos 80 de forma realista e sóbria. Mesmo com todas as roupas excêntricas, penteados extravagantes e a explosão dinâmica de cores e estilos, a paleta do diretor de fotografia Yaron Orbach permanece fria e sóbria durante toda a projeção, sendo eficiente ao provocar o efeito de que esta realmente é aquela década que conhecemos dos videoclipes da MTV e revistas de música, mas sob a lente melancólica de um país mergulhado na crise econômica. Confesso que essa decisão estética torna a imersão na história mais profunda e palpável, algo que não teríamos – por exemplo – em uma obra de Baz Luhrmann, que opta pela uber estilização de cores e estética; e isto não é errado, diga-se de passagem, apenas não seria a melhor escolha para esta história, que conta também com um design de produção e escolha de figurinos apropriados e verossímeis.

E, claro, sendo um filme da temática musical, é de se admirar o trabalho de Carney em trazer uma trilha incidental repleta de nomes como The Cure, Duran Duran, Motörhead e The Jam, todos bem inseridos na trama e que fazem parte das “lições de casa” de Brendan. Mas o grande destaque fica mesmo com as composições originais da banda Sing Street no filme, que vão das divertidíssimas e essencialmente oitentistas “The Riddle of the Model” e “Brown Shoes” até algo mais lento e intimista como “Up”, além da bela canção original de Adam Levine para a cena final, “Go Now”. A trilha sonora completa está disponível no Spotify, e é uma parada obrigatória após o término do filme.

Sing Street: Música e Sonho é um filme adorável e sincero, que infelizmente não encontrou espaço no circuito comercial do Brasil, estando disponível agora no catálogo da Netflix. É o tipo de história que deve agradar a todos que veem na Arte uma forma de refúgio, além de certamente divertir os fãs de música em geral. E, acima de tudo, de uma boa história.

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