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Uma das maios obviedades e condescendências que se pode dizer é que Steven Spielberg é um dos maiores diretores da indústria cinematográfica contemporânea. Aliás, podemos estender esse seu império firmado para antes da virada do século, considerando que o incrível cineasta mergulhou completamente nesse meio artístico em seus 20 e poucos anos, mais precisamente na década de 1970 ao dirigir o que seria consagrado como o pioneiro da gama de blockbusters de Hollywood – Tubarão (1975). E levando também em conta toda sua filmografia e sua influência em cineastas amadores e que gradativamente firmam seu nome nesse competitivo mercado, a HBO mais uma vez ganhou destaque no meio televisivo ao produzir mais um documentário original intitulado Spielberg.

O longa-metragem fornece, assim como tantas obras do gênero, uma visão mais humanizada de um dos artistas mais prolíficos de todos os tempos. Afinal, o responsável por inúmeros sucessos de crítica e de bilheteria, e cujo alcance varia dos épicos de sci-fi até os dramas de época, normalmente é retratado como uma “máquina”. Ele até pode ser chamado assim, mas precisamos entender que essa “máquina” é composta de complexos elementos pessoais que resgatam seus traumas de infância e se traduzem em composições imagéticas emocionantes e reflexivas.

Em Spielberg, Susan Lacy procura traçar um paralelo narrativo que acompanha a gradativa profundidade adquirida pelas obras do cineasta, à medida em que dá vários saltos no tempo para resgatar momentos cruciais de sua infância que impactaram em sua visão sobre o mundo e na criação de personagens. Primeiro, assim como diversos outros pertencentes ao meio artístico, Steven Spielberg sofria bullying na escola por ser “fora dos padrões” e ser apaixonado pela possibilidade de fugir de sua realidade conturbada com história épicas. Sua solidão foi muitas vezes preenchida pela família – algo que valoriza muito em suas produções -, principalmente pela personalidade amável e nem um pouco convencional da mãe, Leah, e de suas três irmãs, as quais compensavam pelas longas horas de trabalho do pai, Arnold, e também pela realização de filmes em Super-8, que o colocaram dentro do circuito cinematográfico mais cedo que o normal.

Mas diferente do que muitos podem pensar, cada uma das narrativas arquitetadas pelo diretor tem uma profundidade muito maior do que damos crédito. O documentário também tem como um dos principais objetivos analisar os diferentes arquétipos da vida de Spielberg que foram relidos na forma de personagens, tramas e até mesmo concepções imagéticas. Por exemplo, Lacy consegue resgatar muito bem como o passado e o presente caminham de mãos dadas na figura da criança: considerando a infância um tanto quanto deturpada do diretor, seu posicionamento em set sempre foi paternal em relação às jovens crianças – e isso se reflete na própria identidade cênica, dentro da qual a câmera permanece na perspectiva pueril.

Drew Barrymore, que trabalhou com Spielberg em E.T. – O Extraterrestre, e Christian Bale, que foi protagonista de Império do Sol, falaram com grande emoção sobre a atmosfera das gravações, principalmente encarnando papéis que exigiam muito de pessoas que haviam apenas começado na indústria cinematográfica. Barrymore recorda-se que Spielberg, para as cenas em que ela tinha que chorar, contava histórias muito tristes que faziam parte do universo da narrativa em questão, e que logo depois lhe dava um caloroso abraço, dizendo que estava tudo bem. Enquanto isso, Bale, referindo-se ao longa do qual participou como uma jornada de amadurecimento que, eventualmente, culminou em um crescimento de sua própria personalidade.

Aliado à presença constante de crianças, o tema “família” também sempre é colocado em jogo. Após sofrer com o divórcio dos pais, cujo ápice foi a transgressão dos papéis de “mãe” e “pai” aos quais estava acostumado para algo que não mais reconhecia, as histórias de Spielberg têm sempre um pano de fundo de separação. Seja em épicos de aventura como Jurassic Park, em dramas históricos como Amistad ou até mesmo em ficções científicas como Guerra dos Mundos, as complexas relações entre pais e filhos sofrem obstáculos constantes e muitas vezes são quebradas por uma separação ao melhor estilo deus ex machina ou por forças maiores e incontroláveis. Entretanto, representando um desejo de seu subconsciente de reatar os laços que tinha com o pai – do qual se afastou muito ao longo dos anos – a resolução sempre caminha para o reencontro e para o místico final feliz, ainda que sacrifícios tenham sido feitos pelo caminho.

A delineação da personalidade contraditória de Spielberg se espalha até mesmo para sua investida em filmes com uma atmosfera mais pesada. Lacy também consegue traçar uma lógica de acontecimentos que inclusive levou o cineasta a renegar suas origens judaicas, as quais foram redescobertas quando foi contratado para dirigir A Lista de Schindler, utilizando todo o escopo cinematográfico para poder encontrar o pedaço que faltava para se completar: um background religioso.

O documentário todo é perscrutado por depoimentos memoráveis de grandes nomes da indústria hollywoodiana, incluindo a tríade de cineastas que ganhou grande destaque entre 1980 e 2000: Spielberg, Francis Ford Coppola e George Lucas. Os três, além de bons amigos, sempre apoiavam os projetos um do outro e se tornaram peças valiosas para que ninguém se esquecesse de sua humanidade na hora de compor um projeto audiovisual. Martin Scorsese, Daniel Day-Lewis e Laura Dern também forneceram suas visões únicas sobre o cineasta e sobre como foi trabalhar com ele em trabalhos tão destoantes e que comprovaram inúmeras vezes sua versatilidade.

Talvez o maior deslize do filme seja sua constância narrativa. Além de um tempo de duração bem considerável – mais de duas horas -, a montagem para resgatar a infância e os primeiros anos de Spielberg não é equilibrada o suficiente entre depoimentos, fotografia e cenas de bastidores e de filmes. Quando estamos observando alguma imagem estática, acompanhada com um voz-over muito bem editado, a câmera normalmente opta pelo zoom. A sucessão do mesmo movimento chega a exaurir o espectador – que por muitas vezes tem que permanecer extremamente atento aos diálogos para não cair no marasmo.

De qualquer forma, Spielberg é uma homenagem sincera e merecida para um dos maiores diretores de todos os tempos. E a cada minuto, parecemos mais próximos dessa complexa persona que desde seu primeiro filme encanta e emociona o mundo inteiro – e que esperamos continuar fazendo isso por muitos anos.

Spielberg (Idem, 2017 – EUA)

Direção: Susan Lacy
Elenco: Steven Spielberg, Drew Barrymore, J.J. Abrams, Martin Scorsese, Christian Bale, Laura Dern, Sally Field, Jeff Goldblum, Francis Ford Coppola, Liam Neeson
Emissora: HBO
Gênero: Documentário
Duração: 140 minutos

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