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E então tudo se resume a isso: a batalha final entre a Imperatriz Georgiou (Michelle Yeoh) e o Capitão Gabriel Lorca (Jason Isaacs). É claro que até metade da série, não poderíamos prever a série de plot twists que Star Trek: Discovery nos apresentaria de forma tão convincente, sem furos e sem cair em saídas ocasionais ou improváveis. Ainda que tenha deixado de lado alguns personagens importantes – como Harry Mudd (Rainn Wilson) -, todo a construção de seus protagonistas e dos arcos secundários seguiu um propósito específico que culminou em revelações impactantes para a tripulação do U.S.S. Discovery e, obviamente, para o público. Agora, temos um dos momentos mais instigantes da primeira temporada encontrando sua finalização sem cair nos malefícios dos episódios filler ou de acontecimentos apressados – em sua grande parte.

Como nos apresentado no capítulo anterior, Lorca nunca pertenceu à realidade a qual estávamos acostumados: ele na verdade era um líder rebelde que tentou depor o governo em vigência e acabou viajando através de um buraco de minhoca para uma outra dimensão, na qual tornou-se o comandante da Discovery e desde então procurou um jeito de retornar para “sua casa” e terminar o trabalho. O décimo-terceiro episódio, intitulado What’s Past is Prologue, brinca novamente com os conceitos de espaço-tempo à medida em que cria um desfecho memorável para alguns personagens – logo, espere sim alguns sacrifícios muito bem colocados e que servem até mesmo como base para mais um ciclo de amadurecimento de certas figuras.

A primeira sequência dessa iteração mostra o Capitão desertor libertando seus companheiros de guerra, incluindo uma versão mais calculista e revolucionária da Comandante Landry (Rekha Sharma) e reencontrando uma outra imagem de Paul Stamets (Anthony Rapp) que traiu o movimento e permaneceu escondido na rede de micélios até ser libertado para conseguir escapar de um destino inevitável. De qualquer modo, esse crescente motim não prevê uma luta entre o bem e o mau, o justo e o injusto: todos trazem consigo o mesmo objetivo e, para que este seja alcançado, deve-se levar em conta quem está mais apto a comandar um exército para exterminar as raças inferiores – Klingons, Kelpians, Vulcanos e afins. São os Terráqueos, movidos pela insegurança e pelo medo, que desenvolveram uma tática bélica própria, pautada na disseminação do terror e que colocam inclusive uns contra os outros – e essa brecha na organicidade de tal grupo que serve de força-motriz para o desenrolar dos eventos principais dessa trama.

Georgiou e Lorca sempre tiveram suas mortais desavenças, e agora a Imperatriz vê o seu legado ameaçado pela crescente investida do Capitão, que consegue converter alguns dos soldados leais a ela para seu lado e assim avança através da espaçonave para finalmente confrontá-la. O grupo oposto, por assim dizer, também prepare-se para a batalha, e ambos lutam brevemente em um dos imensos corredores do receptáculo. O deslize maior nessa sequência é prezar muito mais por um embate frio e que faça uso apenas dos fasers, do que colocar um combate corpo a corpo mesclado com as tão aguardadas cenas de ação com tiros. É possível compreender a necessidade do roteiro mover-se com certa rapidez, visto que teremos sim a culminação final muito melhor pensada que as outras.

A opção dessa fluidez excessiva e frenética também emerge como um dos fatores para abrir margem a outros arcos, incluindo o de Michael Burnham (Sonequa Martin-Green). Ela funciona como mediadora de ambos os lados do conflito e ao mesmo tempo preza por sua sobrevivência e pela sobrevivência de seus amigos, como Saru (Doug Jones) e Tilly (Mary Wiseman), que por enquanto permanecem mais como espectadores do que reais participantes da narrativa. Não podemos deixar de nos decepcionar com tais escolhas, mas também devemos olhar com uma perspectiva que preza por algo sutil e natural, e não algo saturado que transforme a epopeia em algo sem pé nem cabeça. De qualquer modo, Michael insurge como uma ponte e como ponto-chave para a decisão de ambos os lados – e seu lado mais humano, apesar da criação vulcana, fala mais alto quando o fatídico momento de inclinar-se para um lado chega.

Ainda que essa Georgiou não seja a mesma que a tenente conheceu em sua realidade, ela ainda a enxerga como uma figura maternal e uma líder, antes de tudo, e comove-se pela Imperatriz ter sido abandonada por sua outra versão. Desse modo, é quase óbvio ver que a química entre as duas figuras reacende à medida em que ambas traçam um plano para destituir Lorca de sua posição como líder tirânico e retornar para a realidade de onde vieram – mesmo que seja uma tentativa perigosa. Eventualmente, é de se esperar que as duas consigam fazer o que desejavam, com a ajuda da Discovery e da capacidade manipulativa de Saru durante um breve diálogo com seu ex-capitão – e tais sequências de luta são muito bem coreografadas e trazem o melhor do gênero ação e perseguição para a série intergaláctica.

O que faz com que esse brilho seja mais uma vez apagado e não torne o episódio uma continuação digna para seu predecessor é o gancho. É de se esperar que o Paul Stamets que conhecemos desde o episódio piloto retorne de seu coma e consiga reverter as coordenadas para adentrar na rede de micélios e voltar para a dimensão da qual todos ali provêm. O problema é que mais uma vez os personagens se encontram em um outro “quando”, nove meses após o momento no qual desapareceram – e parece que a guerra entre os Klingons e a Frota Estelar acabou: os inimigos venceram. Qual é o ponto? Essa construção inesperada já nos foi apresentada anteriormente, então não vemos tanta originalidade ou dramaticidade envolvente o suficiente para nos causar uma surpresa sincera.

Apesar de sofrer uma leve queda, o novo capítulo de Star Trek: Discovery é um desfecho aceitável e até mesmo satisfatório para mais uma das grandes tramas às quais fomos apresentadas. Ainda temos duas iterações até o season finale – e só podemos esperar que a U.S.S. Discovery não se apresse mais em sua jornada através do espaço, e sim volte aos trilhos com toda a força.

Star Trek: Discovery – 01×13: What’s Past is Prologue (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Alex Kurtzman
Direção: Olatunde Osunsanmi
Roteiro: Gene Roddenberry (baseado em Star Trek), Ted Sullivan
Elenco: Doug Jones, Sonequa Martin-Green, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Rainn Wilson, James Frain, Terry Serpico, Anthony Rapp, Shazad Latif
Emissora: Netflix
Gênero: Ficção científica, Ação
Duração: 45 minutos

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