» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

A estreia de Star Trek: Discovery há quase um mês reacendeu um sentimento muito agradável de nostalgia por parte dos fãs, além de despertar uma curiosidade crescente de um novo público fanático por produções de ficção científica. Desde o primeiro episódio, a competência imagética e narrativa surpreendeu até mesmo os mais céticos, com Bryan Fuller entregando iterações extremamente bem delineadas que conseguissem firmar, de modo equilibrada, uma jornada intergaláctica perscrutada por subtramas no melhor estilo coming-of-age – e performances magníficas lideradas um elenco dos sonhos.

Entretanto, não posso deixar de dizer que o quarto episódio, intitulado The Butcher’s Knife Cares Not for the Lamb’s Cry (uma chamada um tanto quanto, se quiserem saber) dá uma freada relativamente brusca no quesito ação, apesar de investir de modo muito profundo nas relações interpessoais entre os personagens e o círculo mais intimista da U.S.S. Discovery. Em seu piloto, bem como a iteração subsequente, fomos apresentados para um panorama assustador e envolvente que preparou terreno para um futuro pautado nas guerras ideológicos e entre povos arqui-inimigos – a Federação, responsável pelo equilíbrio entre as galáxias, e os Klingons, cuja visão bélica entra em constante choque com a perspectiva pacífica. É claro que, partindo do pressuposto que a paz deve sempre reinar sobre a guerra – e levando em conta o panteão mitológico de Star Trek -, sabemos quem são os mocinhos e quem são os vilões. Entretanto, faz-se necessário dizer que os arcos dos personagens ultrapassam esse maniqueísmo e pendem para motivações individualistas e paradoxais.

Essa mais nova iteração segue, mais uma vez, a ex-tenente e agora auxiliar da engenharia Michael Burnham (Sonequa Martin-Green). Depois de ser tachada como amotinadora e ser condenada à prisão perpétua por se voltar contra a falecida Philippa Georgiou (Michelle Yeoh), as coisas parecem ter melhorado para ela, principalmente com uma jogada inesperada de seu mais novo capitão, Gabriel Lorca (Jason Isaacs), uma figura misteriosa que definitivamente está escondendo inúmeras jogadas em suas mangas. Burnham, desde sua aparição em The Butcher’s Knife, causa um alvoroço na nave-mãe, principalmente por sua condição de outrora que leva inclusive seus antigos colegas – Saru (Doug Jones), por exemplo – a verem-na como uma mártir e um perigo em potencial.

O episódio já surpreende por sua arquitetura dual: por um lado, temos uma tripulação comandada pelo receio exploratório do que pode estar escondido entre as infinitas estrelas da galáxia – e isso se mostra de forma cada vez mais clara pelas inconstâncias emocionais de vários personagens. É claro, levando em conta que a maior parte do time é movido pela ciência, as sutilezas são quase imperceptíveis, mas adicionam camadas de complexidade para a narrativa e permitem que o público crie conexões com esses arquétipos. Por outro lado, Burnham, com sua formação vulcaniana, é essencialmente lógica, mas ainda carrega traços humanos – principalmente quando falamos de empatia.

É interessante analisar como os acontecimentos dos episódios anteriores não ficaram soltos. Em Context is for Kings, poderíamos muito bem cair na falácia de estarmos assistindo a um filler, mas na verdade estávamos sendo preparados para os acontecimentos deste novo capítulo. O Império Klingon ressurgiu como uma força a ser temida e, mesmo que estivessem dentro de um ciclo destrutivo de fome e inércia, conseguiram se unir para atacar a colônia de Corvan II, responsável pelo suprimento de dilítio para a Federação – ou seja, mantenedora da fonte de energia das gigantescas espaçonaves. Entretanto, é justamente esse fator que atrai a atenção da esquadra inimiga, a qual precisa da substância para colocar a própria frota de volta à ativa.

Todo esse contexto chama muito a atenção, principalmente pela inserção de pedidos de socorro dos residentes da colônia, os quais estão sendo atacados e mortos um a um. Dessa forma, é mais que óbvio premeditarmos uma batalha muito bem orquestrada entre os dois lados do tabuleiro – e tudo fica ainda mais emocionante quando tomamos conhecimento que a U.S.S. Discovery é a única nave que conseguirá salvá-los a tempo da destruição total.

Enquanto rearranjos e planejamentos são feitos pelo alto-escalão da nave, Paul Stamets (Anthony Rapp), superior de Burnham, pede para que ela descubra alguma finalidade bélica para a criatura que capturaram no Glenn, no capítulo anterior. Como bem nos lembramos, ela foi responsável pela morte de toda a tripulação e do avanço inimigo, sendo elevada ao patamar de um ser extremamente perigoso e que, conforme seguimos a narrativa, cai por tabela. Burnham acaba descobrindo que os esporos utilizados pela espaçonave como combustível alternativo conseguem estabelecer uma relação de simbiose com o “Estripador” – alcunha recebida pela criatura -, permitindo que ele se guie pelo espaço em busca de alimento. A tenente descobre, pois, sua origem extremamente pacífica, que foi colocada em cheque e a colocou numa situação de autodefesa – e isso é utilizado a favor da Federação para entrar em uma dobra e conseguir surgir em Corvan II a tempo de salvá-los dos ataques.

O ápice de The Butcher’s Knife é, sem sombra de dúvida, a emergência do lado mais “humano” da protagonista, à medida em que ela sente o sofrimento do Estripador ao ser submetido para objetivos de guerra. Sentimos o distúrbio em sua resiliência racional, a qual abre brechas para o que chamamos nos parágrafos anteriores de empatia – ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro. Isso não apenas a transforma em uma personagem muito mais relacionável, mas também resgata sua infância conturbada, a qual teve um fim após a morte dos pais.

Infelizmente, os deslizes falam mais alto – e aqui, eles se concentram na falta das cenas de ação. A “batalha” entre a Federação e os Klingons é ínfima e dura pouquíssimos instantes: a U.S.S. Discovery surge na colônia, destrói as naves inimigas e logo depois volta para seu posto inicial. Não conseguimos  nem mesmo digerir os eventos que aconteceram – e a construção dessa sequência deixa muito a desejar quando comparada com a épica luta no episódio piloto. Dessa forma, não podemos deixar de sentir um gostinho de “quero mais” que se transforma em decepção e insatisfação.

Mesmo assim, perder as esperanças é algo fora de cogitação, e considerando que os capítulos anteriores foram bem competentes, só podemos esperar que Star Trek: Discovery saia desse ciclo de calmaria e nos entregue o que queremos – bons diálogos, narrativas emocionantes e, com certeza, embates intergalácticos.

Star Trek: Discovery – 01×04: The Butcher’s Knife Cares Not for the Lamb’s Cry (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Alex Kurtzman
Direção: Olatunde Osunsanmi
Roteiro: Gene Roddenberry (baseado em Star Trek), Jesse Alexander, Aron Eli Coleite
Elenco: Doug Jones, Sonequa Martin-Green, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Rainn Wilson, James Frain, Terry Serpico, Anthony Rapp, Shazad Latif
Emissora: Netflix
Gênero: Ficção científica, Ação
Duração: 45 minutos

Comente!