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Não há nada mais convencional em uma série de ficção científica que um looping temporal. Em outras palavras, é costumeiro do gênero sci-fi trazer como uma de suas subtramas mais exploradas a repetição constante de um determinado período tempo – e esse nicho narrativo não se restringe apenas a produções intergalácticas como Star Trek, mas mescla-se com outras obras, incluindo de suspense e fantasia. Triângulo do Medo, por exemplo, ousou em arquitetar uma atmosfera híbrida, colocando elementos de suspense sobrenatural dentro de uma “viagem no tempo” inquietante e angustiante, na qual a protagonista se via presa num ciclo sem fim. Até mesmo outras séries conhecidas, como Once Upon a Time, utilizaram-se dessa saída narrativa como forme de endossar as relações entre seus personagens.

Logo, não é nenhuma surpresa que Discovery resgate todos esses elementos cênicos para sua própria mitologia, criando um capítulo emocionante e nostálgico em sua maior parte – e, infelizmente, alguns dos deslizes falam mais alto que a grandiosidade do capítulo em momentos pontuais. Magic to Make the Sanest Man Go Mad, como foi intitulada essa nova iteração, pode até ser encarada como um filler, mas funciona muito bem como uma base para expandir as relações conturbadas entre a Frota Estelar e o Império Klingon e para conectar personagens a priori distantes entre si.

Primeiramente, o episódio alcança grande sucesso em reintroduzir um dos mais enigmáticos e perigosos personagens dessa nova franquia: Harry Mudd (Rainn Wilson), cuja primeira aparição se deu na sequência de eventos de rapto do Capitão Gabriel Lorca (Jason Isaacs). Harry provou ser um dos maiores antagonistas dos nossos heróis intergalácticos, dotado de uma personalidade totalmente individualista e egocêntrica que o deixou cego perante à empatia e à solidariedade, levando-o a abandonar seus valores humanitários em prol de se salvar. Não é surpresa que ele e Lorca acabem por se tornar arqui-inimigos em uma das narrativas mais agradáveis do show, ao melhor estilo oitentista que culmina num gancho muito interessante.

“Ainda vai me ver, Lorca!”, Mudd grita antes que ele e seu ex-companheiro de cela, Ash Tyler (Shazad Latif), fujam, deixando-o para trás. Bom, sua promessa se concretizou: viajando dentro da barriga de uma baleia espacial, ele conseguiu adentrar na aparente intransponível U.S.S. Discovery com um dispositivo que o permite criar inúmeros loopings temporais. É claro que, à primeira vista, não sabemos de tal fato – e é só quando ele joga algumas falas crípticas que passamos a suspeitar de um possível plot twist para o episódio. Não até o final da primeira sequência de eventos, depois da qual Harry explode a nave inteira e mata todos os seus tripulantes, que chegamos à conclusão que todos ali estão presos em uma fenda do espaço-tempo cíclica e interminável.

Tudo começa durante uma festa de comemoração e apaziguamento feita pela equipe da Discovery, em meio às recentes conquistas – um leve e muito bem-vindo escape cômico para a personalidade essencialmente racional da protagonista Michael (Sonequa Martin-Green). Já conhecemos sua criação vulcaniana, a qual é baseada na lógica e na supressão de emoções, e vê-la dentro de um evento social e lutando para compreender seus sentimentos crescente por Ash – decorrentes de sua personalidade em parte humana – é uma joia bruta a ser apreciada com bastante cautela, principalmente por ser base de algumas das subtramas dos próximos capítulos.

Apesar desses breves momentos de pacificidade, sabemos que esse macrocosmos intergaláctico clama por problemas – e aqui, eles surgem logo no começo do primeiro ato, como supracitado. Até mesmo o público é pego de surpresa pela sucessão de eventos, levando-nos a crer que o que estamos assistindo está acontecendo na linha temporal a qual estamos acostumados. A arquitetura dessa transgressão cronológica é pensada com cautela por David Barrett, responsável pela direção do capítulo: as composições cênicas são repetidas de forma cíclica, copiando até mesmo o enquadramento e a angulação, justamente para causar desconforto aos telespectadores, tanto pelo vício narrativo quanto pela total falta de percepção da “armadilha” pelos protagonistas.

É claro que todo “plano perfeito” tem a sua brecha – e em Magic, essa pequena falha emerge como o chefe de engenharia da nave, Paul Stamets (Anthony Rapp). Sua percepção do aprisionamento temporal é uma das primeiras consequências de ter se voluntariado para permitir as viagens do U.S.S. Discovery alguns episódios atrás, permitindo que a espaçonave viajasse pelas dobras do universo através de esporos de micélio. Ele não apenas tornou-se o receptáculo orgânico para garantir a funcionalidade completa dos saltos, mas também um indivíduo à parte da realidade que presenciamos, podendo se conectar com os incontáveis multiversos e compreender psiquicamente a existência de dimensões paralelas.

Em meio a toda essa construção narrativa, o grande problema a ser enfrentado é o gerenciamento de tempo. E não estou falando que o episódio acelera a resolução de acontecimentos nos minutos finais, mas faz o exato oposto ao correr com a percepção do looping por Stamets. É claro que o personagem declara estar ciente sobre a falha no espaço-tempo após o fechamento de alguns ciclos, mas esse pulo na narrativa não é percebida pelo público, fazendo-nos acreditar que a conclusão e a lógica foram descartas em detrimento de uma saída à la deus ex machina.

Em suma, o sétimo episódio de Star Trek: Discovery é interessante, mesmo que seus deslizes falem mais alto. De forma geral, a série encontrou grande sucesso ao explorar seu potencial narrativo, entregando uma mistura bem equilibrada de nostalgia e originalidade – e o que podemos fazer agora é esperar que esse ritmo se mantenha sem muitas discrepâncias.

Star Trek: Discovery – 01×07: Magic to Make the Sanest Man Go Mad (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Alex Kurtzman
Direção: David Barrett
Roteiro: Gene Roddenberry (baseado em Star Trek), Aron Eli Coleite, Jesse Alexander
Elenco: Doug Jones, Sonequa Martin-Green, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Rainn Wilson, James Frain, Terry Serpico, Anthony Rapp, Shazad Latif
Emissora: Netflix
Gênero: Ficção científica, Ação
Duração: 45 minutos

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