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Star Trek: Discovery está fazendo um belo trabalho quando pensamos na constante busca pelo equilíbrio cósmico entre duas opostas, aqui representadas pela Federação dos Planetas e pelo Império Klingon – uma prezando pela paz entre os inúmeros povos do universo, e o outro querendo espalhar um reinado de caos que os endossará como os reais governantes. Entretanto, esse brilho atmosférico perde um pouco de sua força quando migramos para as subtramas e os personagens secundários, os quais parecem ter sido esquecidos em meio a tantas batalhas e conflitos majoritários. E isso fica ainda mais claro com o oitavo episódio, intitulado Si Vis Pacem, Para Bellum.

A U.S.S. Discovery parece não estar em uma onda de boas missões, visto que, mais uma vez, os Klingons parecem ter avançado em sua tecnologia e recuperaram a habilidade de conjurar escudos de invisibilidade para lhes garantir um avanço irrefreável na guerra contra a Frota Estelar. Dessa forma, começaram a emboscar os inimigos de modo impetuoso, principalmente após conseguirem aumentar exponencialmente sua esquadra galáctica, prometendo a transferências dessas novas técnicas de batalha para aqueles que jurassem lealdade à causa. Gabriel Lorca (Jason Isaacs) é pego de surpresa por um chamado de seus superiores, utilizando-se da rede de esporos para surgirem na iminência de uma derrota destrutiva – a qual, eventualmente, se concretiza. O momento de pura fraqueza dos “heróis” dessa jornada interestelar é-nos mostrado mais de uma vez – mas o brilho do que poderia vir a ser uma reflexão está se transformando em um ciclo vicioso de constante perda.

Enquanto isso, uma pequena subtrama começa a tomar forma, mas, como supracitado, não tem seu potencial explorado de forma digna: o que nos chama mais a atenção é como o chefe da engenharia Paul Stamets (Anthony Rapp) e o público lida com sua própria transformação irreversível de personalidade. Desde que se tornou um receptáculo imprescindível para a funcionalidade dos esporos e das dobras da espaçonave, seu semblante blasé deu lugar a uma compreensão quase surrealista do espaço-tempo em que vive, tornando-o contraditoriamente mais humano e mais transcendental que seus colegas, além de lhe adicionar algumas camadas de coloquialismo e naturalidade. Além da propriocepção aguçada, sua mente abriu-se para os múltiplos e infinitos desdobramentos dimensionais do universo – e as consequências acabaram de se mostrar complicadas: as realidades de que tem ciência estão começando a se fundir, e a Tenente Sylvia Tilly (Mary Wiseman) parece ter percebido essas falhas.

O plot logo é deixado de lado quando a atmosfera muda para os outros protagonistas: em uma missão de reconhecimento em Pahvo, uma planeta aparentemente inóspito e inabitado que tem como principal característica uma mística e inexplicável conexão simbiótica entre todos os seus elementos brutos, a qual é exprimida nas concepções de uma música. Michael (Sonequa Martin-Green), Ash (Shazad Latif) e Saru (Doug Jones) são os responsáveis por explorar esses territórios e encontrar um determinado elemento que os permita encontrar as naves invisíveis dos Klingons. Entretanto, conforme a narrativa se desenrola, percebemos que não é bem assim que as coisas funcionam.

Star Trek mergulha um pouco mais fundo em assuntos psicológicos, principalmente ao desenvolver o relacionamento amoroso entre Michael e Ash, trazendo-os para um âmbito menos científico e quase renegando a criação essencialmente racional e vulcana da personagem de Martin-Green, a qual aprendeu a controlar suas emoções e impedir que as sensações a cegassem perante à lógica das situações. Seus momentos de vulnerabilidade – ou pelo menos aqueles que considerava ser assim – na verdade se provam se suma importância para um possível e conturbado futuro que, pela primeira vez, se mostra incerto para ela. Mas essas concepções interiores não se restringem apenas a este círculo narrativo, espalhando-se para uma crescente busca pela paz e negação do medo de Saru.

O personagem de Jones é um Kelpien e tem como evolução biológica a capacidade de pressentir o perigo a quilômetros de distância, permitindo o desenvolvimento de órgãos sensoriais muito mais potentes que os seres humanos e garantiram sua sobrevivência. Saru entra em conflito com essa máxima, que o impede de viver ao invés de apenas sobreviver e se perpetuar no universo. Dentro do domínio dos pahvianos, as força superiores que controlam o planeta, ele sente pela primeira vez uma pacificidade digna de sua necessidade, e entrega-se àquilo de forma assustadora e que o transforma em uma máquina de persuasão contra o desejo de partir de seus colegas.

A resolução deste incrível arco não apenas nos induz a pensar no futuro da série em si, como também mostra que, assim como dentro de um círculo de aliados as desavenças podem ocorrer em momento de caos, inimigos podem acabar encontrando uma necessidade em comum, transcendendo suas diferenças para atingir um objetivo que tornar-se-ia inalcançável caso trabalhassem sozinhos. Mas mesmo assim, não podemos deixar de notar que certos momentos de puro brilhantismo narrativo estão sendo deixados de lado, e esperamos que essa percepção mude e que o potencial máximo de uma série tão nostálgica quanto esta seja alcançado.

Star Trek: Discovery está se aproximando de seu mid-season finale, e os fãs, tanto de longa-data quanto os recém-nascidos, aguardam por algo único e satisfatório, e que possivelmente os deixe ainda mais ansiosos para o retorno do show no ano que vem.

Star Trek: Discovery – 01×08: Si Vis Pacem, Para Bellum (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Alex Kurtzman
Direção: John Scott
Roteiro: Gene Roddenberry (baseado em Star Trek), Kirsten Beyer
Elenco: Doug Jones, Sonequa Martin-Green, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Rainn Wilson, James Frain, Terry Serpico, Anthony Rapp, Shazad Latif
Emissora: Netflix
Gênero: Ficção científica, Ação
Duração: 45 minutos

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